Sonata Ártica (pt. 1)

Enquanto eu saia da tenda, ficou muito claro para mim o que a tribo achava da minha empreitada — que meu maior objetivo era me distanciar o possível da doença da minha mãe e do cheiro de enjoo que ela exalava. Eu retribui os olhares com alguns deles; não por contestação mas para que soubessem que eu havia entendido a mensagem. Para dar o ar mais sério possível à minha jornada, preparei os cães como se prepara para a guerra — e juntei provisões e armas para vários dias. Dessa vez não retribui olhares com a tribo — novamente não por contestação mas sim porque se tornou mais difícil entender o que queriam de mim.

Entrei uma última vez no Iglu de minha mãe, repus a água e esquentei seus panos. Com ela não pude retribuir olhares — os olhos semicerrados indicavam que ela à muito estava dormindo e que muito mais iria dormir. A curandeira afagou meu cabelo como quem sente pena; rosnei para que ela cuidasse direito da minha mãe na minha ausência. Não troquei mais palavras — ou olhares — com ninguém.

Parti às 12 horas como quem parte para a guerra. 
Às 6 horas me ocorreu que já estava longe o suficiente da tribo e que já não podia encontrá-la pela fumaça no céu. Não muito diferente de uma caçada, eu pensei. Mas ainda eram 6 horas do primeiro dia de viagem. E dessa vez eu caçava sozinha.

Eu atrasava a hora em que precisaria descer do trenó e contar para os cachorros que estávamos em uma caçada sozinhos contra uma grande besta de fome insaciável que anda devorando as raposas, as focas e os peixes do lago. Eu temia que os cães se entreolhassem e me perguntassem se eu tinha perdido a cabeça. Se eu não estava atrás de uma desculpa para ficar o mais longe possível da doença da minha mãe. Eu diria à eles, fácil falar de estômago cheio. Quando sentirem falta de comer raposa, foca e peixes do lago, vão entender que não me entenderam.
Empunha-se melhor a adaga de barriga cheia. Melhor não deixar a besta nos enfraquecer pela fome.
Quando a noite caiu, os cães não me fizeram nenhuma pergunta, mesmo que eu tivesse ensaiado tanto. Vê-los brincando felizes por terem saído de casa me fez esquecer um pouco que estava o mais longe que já estive. E ainda era o primeiro dia de viagem.

No segundo dia acordei com as lambidas ansiosas dos cachorros. O sol já despontava no céu a algum tempo; dormi demais. Insatisfeitos, os cães arruinaram o acampamento e saquearam as provisões.
Às 12 horas, desmontamos o trenó e fomos em direção à floresta. A neve vai ficando menos fofa e mais espessa; o ar fica úmido e desconfortável. Os cães só andam de orelhas levantadas e de olhos bem abertos. Sentem a falta do sol, eclipsado pelos galhos dos pinheiros. Os animais nos observam de longe. Retribuo o olhar, e eles fogem.
Às 6 horas repartimos o jantar enquanto a fogueira estremece. Empunho a adaga com o coração acelerado — rezo para que seja eu a encontrar a besta e não ela a me encontrar. Para aumentar minhas chances, resolvo passar a noite acordada. 6 minutos depois estou dormindo.

No terceiro dia os cães me empurram. Pergunto à eles o que aconteceu com as lambidas; eles se afastam, me evitando. O maior me conduz ansioso ao riacho — eles descobriram uma clareira, que só está lá porque as árvores que antes bloqueavam o sol agora estão retorcidas na grama. Destruídas, todas; empilhadas rudemente umas nas outras. 
Obra da besta. Prossigo com a adaga empunhada.

Não muito após caminhar, os cães encontram pequeninos corpos dilacerados na grama. Um casal de coelhos, brutalmente rasgados e abandonados. Isso não foi feito por um urso ou uma raposa.
Dariam um bom guisado, eu penso, mas não nesse estado. Que tipo de monstro faria isso?

Às 6 horas os cães percebem o quanto eu estou exausta, mas hesitam parar para não ferir meu orgulho. Melhor guardar minhas energias para a vigília. É quando estou reunindo galhos para a fogueira que observo uma grande caverna na montanha; antes que eu possa chamar os cães eu vejo um enorme par de olhos brilhantes me observar de lá.
Eu puxo a adaga, afoita. Uma voz horrenda emana da caverna.

- O QUE VOCÊ QUER?

- Eu — a minha voz sai cambaleante. Tremo. — Eu venho matar a besta que comerá nossas raposas, focas e peixes do lago. Eu venho matar você.

Mal consigo empunhar a adaga. Fico imóvel enquanto a besta sai, lentamente, da caverna na montanha.