

quando estou aflito, eu reflito
eu não sei o que é a vida,
por isso não posso definí-la.
eu sou jovem, em mim tenho a juventude,
a soma de todos os dias que ainda não vivi.
e a eles eu posso responsabilizar
o conhecimento, a definição
que agora me faltam.
eu sou jovem.
os dias que virão
são incontáveis.
eu não possuo a juventude,
a juventude me possui.
e por ela
meus pensamentos incompletos transitam.
e, no seu possuir de mim,
a velhice, a passos esclerosados,
se aproxima.
eu não sei o que é vida,
por isso não posso definí-la.
eu não sei o que é estar para morrer,
por isso junto minhas forças,
todas as minhas forças etéreas
e ruborizadas
e com propriedades que se assemelham ao
orvalho que ainda exala;
e tento sentir a juventude,
mas eu não sei o que é juventude,
por isso não posso definí-la.
aliás, não sei se te contaram,
mas a juventude não quer ser definida.
a juventude quer.
e a juventude sente necessidade
de ser vaga, com todo o espaço a ser ocupado.
a juventude é inexata, é inumana, sobre-humana.
sua forma esmaece, mas não se torna pálida.
a juventude é inconcreta.
e seus muros de possibilidades crescem feito
bolos feitos pelos mais velhos aos céus
e o cheiro te leva à cozinha
e o forno pré-aquecido
te esquece.
o que sobra é a beleza?
o poeta, certa vez,
se propôs a desvendar a beleza,
a desnudar as formas belas.
é evidente, durante todo o processo,
teve suas dificuldades.
em meio aos seus longos lamentos,
sentiu a vacuidade,
a falta estética do sublime
entre os pontos cardeais
de sua bússola de poeta.
afinal, no que nosso amigo
mais sensível, ou sensitivo errou?
acredito que se uma vez existiu beleza,
ela foi esquecida.
o processo que lhe leva a encontrá-la
não existe,
pois é a beleza que se revela.
e aí que está a beleza
aí que está ela,
eu exclamei.
os vizinhos se exaltaram
eram duas da manhã.
eu havia me posto ao parapeito.
e a beleza vinha de lá, do além.
a beleza não vem do peito.
ela vem além do parapeito.
não sei se eu já te falei
do Narcíso,
que, assim como eu,
também se propôs a olhar a beleza nos olhos.
bem, nos próprios olhos.
Narciso tentou admirar, ou até mesmo entender
a imagem.
por isso, aproximou-se de seu reflexo.
nas águas do rio,
Narciso caiu em si, morreu afogado.
eu sei nadar muito bem.
mas eu não sei o que é beleza,
por isso não posso definí-la.
e em tempos difíceis,
eu não saberia da fluidez da água,
eu não reconheceria o Rio Nilo,
por isso não saberia definí-lo.
e eu também não sei, ao certo, o que eu sou.
por isso, em situações de narciso,
frente aos fatos, ou à falta de juízo,
prefiro proclamar um assobio.
mas agora, neste exato momento,
olhar pra você, assim, nesse ângulo,
me faz esquecer da precisão dos números,
que tentam explicar a simetria
do retângulo, da natureza, do losango.
e é aí que me foge toda essa necessidade
de definir.
-Gerônimo, o Heterônimo de Macêdo