Cada geração tem seus heróis. Alguns, talvez, generais, gênios da arte da guerra: Gengis Khan, Napoleão; outros, pacifistas natos: Gandhi, Luther King…

Para muitos, desde o século XX, apareceram novos heróis. Heróis de uma guerra sem mortes, onde o único objetivo é colocar mais bolas entre a baliza oposta que seu adversário.

A metade do século XX, com o fim da Segunda Guerra Mundial dá um novo marco para esses heróis, que tanto representaram uma parte da população, como uma nação. A morte de Garrincha é um grande exemplo disso. Aos braços do povo, milhares ficaram comovidos e estiveram junto ao seu caixão, dando sua despedida ao herói de 62.

Pensávamos que seus nomes, já marcados na história do esporte bretão, jamais iriam morrer, assim como eles.

Contudo, toda a vida humana um dia perecerá. Di Stéffano se foi, Garrincha se foi, Puskás se foi, Ghiggia se foi…

… assim como se foi o ídolo de uma nova geração: Johann Cruyff.

Existem nomes que são capazes de atribuir significados a simples números: Pelé e a camisa 10, Garrincha e a camisa 7, Ronaldo e a camisa 9, Cruyff e a 14.

Cruyff foi o espírito da mudança para um novo estilo de se jogar futebol. Um marco para todas as próximas gerações. Junto com Ruud Krol, Johann Neeskens e um ousado treinador, Rinus Michels, o menino de Amsterdã levou o Ajax à hegemonia Europeia. Foram três títulos seguidos em 71, 72 e 73, que levou o Ajax ao sacro panteão dos gigantes europeus. Não só a equipe a equipe da capital holandesa começou a ser temida por ele, mas a seleção da Holanda.

O Carrossel Holandês, ou Laranja Mecânica, como ficou conhecido a equipe quebrou todos os paradigmas do futebol. Na copa de 1974, em seu auge, relevou ao mundo um estilo completamente novo, deixando a todos que assistiam seus jogos estupefatos, boquiabertos. Cruyff foi a peça principal para trazer do mundo das ideias ao mundo concreto o plano de Michels: o futebol total. Nenhum jogador tinha posição fixa, todos fluíam harmonicamente pelo campo, em plena sintonia. Em movimentos súbitos, pegava seus adversários de surpresa. Era um ávido desejo de ter o controle da bola. Quando a bola chegava aos pés do adversário, a linha defensiva subitamente projetava-se a frente, em direção ao jogador a quem a tinha, deixando a linha de ataque oposta completamente impedida. Pressionado, nada mais restava do que ceder a posse a quem tanto a procurava.

Cruyff sofrendo o pênalti no primeiro minuto de jogo. Créditos: Allsport UK

Em 1974, a Laranja Mecânica chegou à final contra os donos da casa, a Alemanha Ocidental no Estádio Olímpico de Munique. Logo após o pontapé inicial, numa jogada individual do próprio Cruyff partindo do meio de campo quebrando a linha defensiva alemã, o próprio é derrubado na grande área. Penâlti. Neeskens tratou de converter. 1–0.

Os alemães já perdiam o jogo nos quatro primeiros minutos sem nem sequer tocar na bola. O entusiasta do esporte sabe como ninguém que futebol é injusto por essência. Paul Breitner empata o jogo em cobrança de pênalti e o lendário camisa 13, Gerd Müller coloca a Alemanha a frente no placar. Assim como no milagre de Berna, mais uma vez os alemães venciam os grandes favoritos, ganhando seu segundo título mundial.

Cruyff não teve a sorte de poder jogar a copa de 1978, a qual os neerlandeses também perderam nas finais, dessa vez para a Argentina, assim então nunca ganhando a Copa do Mundo. Jogadores de sua grandiosidade como foram Platini, Zico, jamais terão seus status manchados por isso. Diz a frase: “Então Cruyff nunca ganhou a Copa Mundo? Azar da Copa do Mundo”.

Cruyff defendendo a camisa do FC Barcelona. Créditos: the telegraph

Foi ele também que abriu portas ao sucesso do Barcelona. Ao trocar o Ajax pela equipe catalã em 1973, fez história como abriu caminho para uma outra leva de holandeses que chegariam à equipe. Seu momento de glória com os blaugranas, contudo, foi como treinador.

“Se você tem a bola você deve fazer o campo ficar o maior possível e se você não tem a bola você deve fazê-lo ficar o menor possível”

No comando técnico, implantou a filosofia da construção da posse de bola como elemento fundamental da equipe, algo que seria levado à base em La Masia e desenvolvido a partir dos anos até chegar às equipes principais e levar o Barcelona a uma incrível sequência de títulos em duas décadas. Sua passagem pelo Barcelona foi muito bem sucedida: multicampeão da liga espanhola, da Copa da Espanha e campeão Europeu, foi o responsável pela montagem do Dream Team campeão de 1992, o primeiro título da Liga dos Campeões da equipe da capital da Catalunha.

Ávido fumante, Cruyff tentou sucessivas vezes parar de fumar. Créditos: the telegraph

Fumar foi um de seus grandes hobbies durante toda a sua carreira. Desde jogador, já fumava. Chegou a quase parar em 1991, mas levou muito tempo para conseguir abandonar o cigarro. Diagnosticado com um câncer no pulmão em Outubro de 2015, o próprio o mata em menos de 1 ano. Leva um grande nome que estará para sempre eternizado na história, que inspirou a tantos que sequer foram contemporâneos dele, quando desfilava seu talento e genialidade pelo campo, mas que pôde assistir a mágica que era as equipes sob sua tutela, tanto dentro do campo, como quando este comandava do banco de reservas. Aos 68 anos, o cigarro, que quase o tirou tudo antes, leva a sua vida.

“ Futebol me deu tudo nessa vida; o cigarro quase me tirou tudo.”