A vitória da quadrilha

Foto: Luiz Carlos Damasceno Jr.

João tinha opções na vida e resolveu trabalhar com o que mais amava: rádio e música. Para isso, dedicou-se aos estudos enquanto seus pais, esperançosos com o sonho, pagavam os seus alimentos, a sua moradia e o seu banho quente. O pai de João, funcionário público de muitos anos, acreditava que os estudos de João eram um bom investimento, para que ele trabalhasse com o que mais amava em uma empresa que se dedicava a promover música de qualidade para as pessoas do Estado. O pai de João não queria que seu filho cometesse o mesmo erro que ele, que apostou em um Plano de Demissão Voluntária nos anos 90, em pouco tempo a grana acabou e ele teve que voltar ao mercado como eletricista, sem poder planejar exatamente quanto receberia no final do mês. João passou no concurso e estava começando a tomar gosto pelo trabalho que amava quando, às 4h da manhã do primeiro dia de verão, 30 deputados resolveram que a sua vida não servia para nada e lhe tiraram o emprego.

Teresa não tinha tantas opções quanto João: filha de mãe solteira, que fazia pequenos trabalhos como faxineira e eventualmente conseguia um bico de balconista, resolveu que, quando fosse mais velha, teria um trabalho do qual pudesse se orgulhar. Conseguiu passar em uma licenciatura noturna, enquanto trabalhava de dia em um restaurante, fazendo de tudo, de fritar bifes a servir pessoas. Fazendo três turnos para ajudar a manter a mãe e a si mesma, conseguiu um diploma de professora de matemática. Teresa queria ajudar outras teresas, e por isso estudou para um concurso para trabalhar como professora nas mesmas escolas públicas onde passou 11 anos da sua vida. Os alunos de Teresa amavam as suas histórias de vida, achavam ela uma grande vencedora e a mãe, já aposentada pelo INSS, apresentava para as amigas a filha como um exemplo de determinação e perseverança. Quando o salário de Teresa atrasou pelo 15º mês seguido e o dinheiro não deu para pagar o aluguel recém reajustado, ela perdeu a vontade de sair de casa e faltou ao trabalho por uma semana. Os alunos, preocupados, lhe mandaram presentes e fizeram muitos posts no Facebook esperando que ela estivesse bem. Ela não viu os presentes nem leu os posts, pois sua vida acabou junto com a cartela inteira de ansiolíticos que ela tomou depois de receber uma ordem de despejo.

Raimundo amou Teresa por seis meses, e acabou o relacionamento porque ela não tinha tempo para ele. Filho de um auxiliar de escritório e uma representante comercial, Raimundo era muito grato a um político, amigo do seu pai, que lhe conseguiu um bom emprego no seu gabinete quando ele saiu de uma cidade do interior do Estado para ser deputado em Porto Alegre. O trabalho na campanha política era o que faltava para Raimundo “se ajeitar” na vida, uma vez que passou boa parte da juventude sem estudar devido “às más companhias”, segundo seus pais. A “boa companhia” do deputado lhe garantiu um ótimo salário para alguém que jamais concluiu o Ensino Médio. Apesar dos bons vencimentos, ele sabia que o seu trabalho dependia de eleições, e por isso destinava um percentual ao partido, outro a ajudar militantes do mesmo partido, e no fim nunca sobrava dinheiro para comprar a sua própria casa em Porto Alegre. Às 4h do primeiro dia do verão, Raimundo era um dos privilegiados que conseguiu uma senha para entrar nas galerias da Assembleia Legislativa. Antes de chegar nas galerias, recebeu a orientação de evitar a entrada principal, pois estavam rolando bombas e tiros de borracha, e ingressar pelo estacionamento, onde uma assessora estava lhe esperando com o cartaz “72% da população aprova o pacote”. Quando o “sim” ganhou, Raimundo bateu as palmas que lhe pediram para bater, mas na verdade só pensava no expresso da cafeteria.

Maria era comida pelos olhos de Raimundo todos os dias, quando entrava na Assembleia de maquiagem perfeita e microfone em punho. Vencia diariamente o assédio de chefes, chefetes, colegas de trabalho, colegas de profissão, entrevistadores e entrevistados, enquanto tentava manter uma postura digna diante da câmera da TV pública. O dinheiro da TV não lhe pagava a maquiagem nem a roupa, uma vez que o terninho surrado com cheiro de guardado proporcionava crises alérgicas terríveis. Pagava, no máximo, a gasolina do carro da reportagem, que era só um e nem sempre estava disponível para as matérias. Um dia, Maria precisou fazer uma matéria sobre o pacote de maldades do governo e entrevistou duas pessoas — uma delas era Joaquim, uma das melhores fontes estatísticas sobre índices públicos de desemprego. Na ilha de edição, todas as palavras de Joaquim foram cortadas e substituídas pelo deputado que empregou Raimundo. Maria ficou revoltada, fez muitos posts no Twitter e no Facebook para expressar a sua revolta, e foi alertada pelos seus chefes que estava falando demais e poderia perder o emprego. Maria dormia quando, às 4h do primeiro dia de verão, lhe tiraram o emprego independente do quanto havia falado no dia anterior.

Joaquim tinha quase 30 anos de dedicação ao serviço público. Sabia os padrões estatísticos sobre os índices públicos de desemprego sem precisar sequer consultar as planilhas de Excel: se lhe perguntassem qual foi o pico de emprego de Anta Gorda, ele saberia o ano de cor. Nesses quase 30 anos, teve três esposas, quatro filhos e morou em seis lugares diferentes — o último deles era um apartamento de dois quartos no Alto Petrópolis, a sua primeira casa própria. Todos os dias ouvia barulhos de rajadas de metralhadora na sua janela, pois havia comprado um apartamento de andar alto, e alertava o filho mais novo que ele deveria chegar cedo em casa depois que voltasse da faculdade. Um dia, o filho mais novo resolveu comemorar as notas boas em uma cadeira difícil. Joaquim lhe emprestou o carro para que ele voltasse em casa com mais segurança, desde que não bebesse uma gota de álcool. Ficou na Coca Zero, com gelo e limão, e deveria ter chegado em casa às 2h da manhã, não fosse um tiro de calibre .38 que lhe acertou o peito quando ele tentava tirar o cinto de segurança para que lhe levassem o carro. Depois de enterrar o filho, Joaquim voltou para casa de táxi, e no rádio ouvia a notícia da morte do seu filho entre um e outro comunicador vociferando contra os direitos humanos e pedindo para exterminar a bandidagem, mas no fundo só pensava nas curvas de desemprego do Alto Petrópolis que enviou à Secretaria de Planejamento em um relatório totalmente ignorado. Às 4h do primeiro dia de verão, Joaquim perdeu o emprego, mas isso não lhe importava mais tanto assim.

Lili tinha 21 anos e amava o filho de Joaquim. Na adolescência, cresceu acreditando que o país iria melhorar, via os pais comemorando a possibilidade de ter a primeira casa própria e dinheiro sobrando inclusive para guardar e pagar a sua faculdade. Quando tinha 16 anos, os pais lhe fizeram uma proposta: se estudasse bastante e passasse em uma universidade pública, ela teria o dinheiro todo para ela, e se investisse na poupança poderia ganhar uma mesada razoável para manter seus estudos. Ela passou na universidade pública. Perto da formatura, percebeu que as portas do mercado estavam quase todas fechadas, seus colegas mais brilhantes se matavam por estágios com bolsas miseráveis, seus veteranos mais dedicados viraram pejotinhas trabalhando em empregos insustentáveis e seus professores não sabiam responder nada além de “amanhã será pior”. Quando o filho de Joaquim morreu, Lili entrou em parafuso. No último dia da primavera, ela resolveu fazer uma balaclava com uma camiseta preta e pesquisou no google rapidamente sobre como fazer um coquetel molotov. Achou que explodiria a Assembleia Legislativa em homenagem a Joaquim e ao seu filho. Não conseguiu, pois foi detida por três policiais do Batalhão de Choque e colocada dentro de um camburão rumo ao Palácio da Polícia. No camburão, os policiais faziam piadas sobre seus atributos físicos e a ameaçavam de estupro. Quando chegou ao Palácio, ligou para o seu pai e contou a situação. A sorte é que seu pai conhecia J. Pinto Fernandes, que evitou, com meia dúzia de ligações, que o destino de Lili fosse o Madre Peletier ou as sevícias de algum brigadiano sádico.

J. Pinto Fernandes obteve alguns milhões de reais em dinheiro público, através de fundos de incentivo, e se achava um verdadeiro benemérito por ter transformado esses milhões de reais em dezenas de empregos. Era tratado como um rei cada vez que chegava no gabinete do deputado que empregou Raimundo, e acertava com os chefes de Maria exatamente o que deveria dizer antes de chegar na frente das câmeras. Desprezava pessoas como João e Joaquim, que achava marajás, inúteis e que atravancavam o livre mercado. J. Pinto Fernandes se sentiu ameaçado pela crise econômica e resolveu, entre outras coisas, pagar alguns milhares de reais em anúncios e pesquisas para que a opinião pública aceitasse o pacote de maldades do governo estadual. Usou em uma entrevista a história do filho de Joaquim, e uma famosa colunista política fingiu estar emocionada ao ouvi-la no seu programa de rádio. Ele achava Lili uma idealista inútil, mas gostava do pai dela, que foi um fiel assessor por alguns anos. Ficou horrorizado quando soube a história de Teresa, através de um post no Facebook, pois nenhum dos jornais a contou.