O impeachment é um fracasso brasileiro
Pedro Doria
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Entendo bem.

Eu também estaria me sentindo um fracassado se tivesse deixado de ver, por exemplo, que a derrota do PT nas eleições de 2014 estava com preço definido. Se não tivesse visto, por exemplo, que a base do governo estava dilacerada desde o momento da vitória, como mostrou a chegada de Aécio Neves ao Senado em outubro daquele ano, eu também acharia que isso é um fracasso brasileiro.

Se tivesse fechado os olhos inúmeras vezes para os interesses que estavam por trás da conspiração que levou Michel Temer ao poder, ou para a conspiração em si, se tivesse acreditado que tudo fazia parte de uma normalidade democrática, se tivesse imaginado que o país não estava dividido e que eu estava com os 90% que tinham razão, contra uma turba hostil de raivosos petistas (na época, “governistas”), eu também estaria me sentindo um fracassado. Se tivesse considerado que, enquanto o fisiologismo se refestelava distribuindo cargos para conquistar os dois terços da Câmara, o mais importante era a “autocrítica”, eu estaria me sentindo um fracassado.

Não estou, porém. O que fracassou foi a tentativa de passar pano de quem tinha todos os fundamentos para observar que o impeachment iria colocar a agenda derrotada nas urnas no poder, para perceber que uma parte da cúpula do PMDB tinha interesse na autopreservação, para observar que o fisiologismo estava ali, latente, em todos os momentos, e ainda assim brilhou os olhos com o verdeamarelo transmitido em rede nacional e achou que “a crise política é um sinal de que o Brasil vai bem”.

Eu também estaria me sentindo um fracassado se, ao final desse processo, visse que uma pessoa levou toda a chibata possível nas costas e encarou seus algozes de frente, com a cabeça erguida, e saiu do processo maior que entrou. O que fica, porém, é isso: os mártires estão aí, o sentimento de injustiça também, e não duvido que em breve a “esquerda ponderada”, “paz e amor”, seja peça de museu. O recado dado pelo Congresso Nacional é: não importa quantos sonhos você tenha, nós mandamos e fim. Quando a esperança vira desespero, acaba existindo a ruptura. Não foram poucas as pessoas que alertaram para isso lá no início do processo, quando tudo eram flores verde-amarelas de uma legitimidade democrática inconteste. Só que a semente da raiva está ali, e quem passou pano ajudou a germinar.

Eu não sei até que ponto é um fracasso brasileiro — acho que é o sucesso absoluto de um consenso fabricado. Quem acreditou no consenso talvez agora perceba que ele é um castelo de cartas, se veja obrigado a apoiar o governo de Michel Temer para manter a coerência, e se sinta um fracassado. Como eu nunca acreditei nesse consenso, não estou me sentindo um fracassado. Talvez isso mude amanhã.