O que é o Muro?

O muro representa uma barreira física que transcende para a subjetividade do subconsciente, ao passo que possibilita a criação de uma separação daqueles que a sua volta vivem. Ou você pertence ao lado de lá, ou ao lado de cá. Não há meio termo no que condiz à este sentimento, já quanto à legalidade há exceções que podem ser estudadas.

Em Israel e na Palestina, os muros são violentas expressões do medo e de ódio cirurgicamente implantados. Inseridos numa conjuntura de um realismo fantástico, estes são as mais visíveis formas de expressão da discriminação presente nesta conjuntura, inserindo milhões de pessoas na Palestina à uma violenta ocupação militar, e um forte aparato segregacionista. Cumprem este papel, estas construções grotescas, com seus nove metros de puro concreto, arame farpado e soldados com dedo no gatilho, ou algo mais sutil como uma política pública discriminatória com interpretação dúbia. A sutileza pode transformá-lo numa complexa membrana, onde poucos conseguem atravessar, em passagens militarizadas que assemelham-se à prisões, com alto grau de letalidade para transeuntes de origem indesejada. Estes são os famosos check-points.

Qalandia checkpoint

O processo de construção de bolhas é ininterrupto e latente, e quando transpostas percebemos visíveis transformações em incontáveis variáveis da vida cotidiana. O primeiro exemplo que chama atenção é ter uma internet de excelente qualidade do lado Israelense, e poucos metros à frente a ausência quase completa de acesso.

A permeabilidade do muro através deste pequeno “nó” varia de acordo com a origem e religião. Dentro do próprio Estado de Israel vemos cidadãos com distintos limites aos seus direitos. Muralhas invisíveis e muito bem escritas delimitam o escopo da vida dos cidadãos Israelenses com origens diversas, sejam Palestinos muçulmanos, cristãos, drusos ou judeus etíopes. O seu alcance através das muralhas é determinado por sua etnia, religião, o que por fim se dará na segregação por diferentes grupos e categorias para a vida em sociedade, resumindo-se em diferentes cores em seu documento de identidade.

Passagem Palestina no Qalandia checkpoint

Nestas pequenas janelas de contato entre os dois lados do muro, a membrana presente atua de maneira nefasta, uma vez que seleciona com base nos critérios ditos acima, quem pode interagir com os habitantes do lado de lá e quem deve ficar “preso” do lado de cá. O modelo discriminatório para transpor este obstáculo evidencia-se nos processos de travessia e no grau de hostilidade dos militares, em sua maioria jovens, de origem migrante, que são obrigados a servir nas forças armadas israelenses. A travessia de Palestinos pode ser descrita pelos sons dos claques das incontáveis grades abrindo e fechando, pelos constantes gritos incompreensíveis dos soldados em sua língua natal, igualmente incompreensível para Palestinos muçulmanos, e pela iminente ameaça de violência. Relatos de mortes causadas pelas autoridades são corriqueiras dentro desses corredores. Impressionantemente algo tratado com certa naturalidade pelos interlocutores palestinos que transmitiram a informação.

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