Brinquedo novo-velho-usado

NY, 6 de junho de 2015.

Há dois anos, comprei numa garagem de antiguidades na 6a avenida em nova Iorque, uma lente de fotografia. A mais valiosa da minha coleção de lentes antigas.

Existe uma magia nessas lentes quando adapto para o formato digital, não há nada comparado ao que temos hoje no mercado. E isso se tornou parte da forma como eu fotografo. Uma lacuna entre a velha e a nova tecnologia. Uma ponte entre dois mundos paralelos.

Créditos: Letícia Godoy

Na busca de encontrar a velha garagem e brinquedos fotográficos “novos-velhos-usados”, me deparo com um espaço vazio… Demolido. Vejo novas lojas de antiguidades ao redor. O mercado de pulgas americano.

Ao entrar em uma das lojas, encontro um senhor junto a uma pila de equipamentos fotográficos. Robert, um inglês de 63 anos. Apesar da barba branca, seu semblante era de aparência jovem e com a presença de um sorriso acolhedor. Ali ele divide o espaço da loja com o sr. Colleman, fotógrafo das velhas gerações. Responsável pelas maquinas e lentes fotográficas disponíveis na loja.

Créditos: Letícia Godoy

Robert era colecionador de antigas fotografias impressas, mas há 30 anos, era professor numa faculdade onde ensinava sobre design e fotografia. Logo tomei conhecimento de que a garagem que procurava havia fechado há um ano. E que as pessoas foram se dividindo entre esse espaço e o do outro lado da rua. “Mas pelo menos você visitou a garagem, aquele lugar viveu em NY por mais de 15 anos”, disse Robert.

É difícil escrever a experiência dessa tarde que tive com Robert e o sr. Colleman. Sinto que preciso colocar os sentimentos no papel logo, mas encontro dificuldade em deixar a leitura no formato cronológico dos fatos. A verdade é que passei as últimas 3 horas trocando experiências com esses fotógrafos de uma maneira tão genuína que a composição da história perde suas palavras. É como se eu estivesse em um certo estado emocional, que as palavras físicas acabam por se colidir em minha mente, me incapacitando de desenvolver um raciocínio lógico.

Entre velhas relíquias fotográficas e outras antigas máquinas, Robert expressou que sentia que eu de alguma forma deveria estar ali hoje, que ele precisava ver nos meus olhos o amor de alguém tão jovem pela fotografia. “É raro ver essa nova geração se interessando por velhas maquinas, velhas lentes, velhas histórias. Você está adaptando uma lente esquecida em uma máquina digital. Você está mantendo a história dessa lente viva! Isso é raro e eu precisava ver isso. Obrigado por vir”.

Créditos: Letícia Godoy

Sr. Colleman, o sócio, aparecia de vez em quando… Fazia algumas piadas. Falava sobre fotografia analógica. Citou Sebastião Salgado. Ele tinha uma presença genuinamente engraçada e de certa forma contida. Os traços do seu coração vivo de criança eram singelos. “Eu vou à padaria, querem alguma coisa?” Pergunta o sr. Colleman.

Robert pede um chá e eu agradeço a gentileza.

Sr. Colleman — Créditos: Letícia Godoy

Eu tirei da mala a minha câmera digital e disse que queria testar o meu adaptador na lente 28mm que vi na sua vasta mesa de quinquilharias fotográficas. Levou um tempo para o encaixe funcionar, eu não queria forçar o mecanismo e sabia que era uma questão de jeito. “Leve o tempo que precisar e não se apresse. Fotografia exige muita calma.”

“Eu não confio em equipamentos ou lentes muito leves” conta Robert. “Não parece correto. Não me passa confiança. Não há melhor barulho no mundo do que ouvir um clique de uma máquina fotográfica antiga.”

Demorou, mas o adaptador funcionou. E em nenhum momento Robert demonstrou medo de que eu pudesse quebrar uma lente de 40 anos. Perguntei o preço. $25 numa lente fixa 28mm f/2.8. Se você entende de fotografia, sabe que se trata de algo irreal para esse tipo de equipamento.

Sr. Colleman. Créditos: Letícia Godoy

Robert se interessou em ver minhas fotografias e mostrei a ele minha última, que fiz no aniversário do museu MIS em São Paulo antes de viajar para NY. Meu clique favorito até então. Contei a ele sobre como era trabalhar em um museu e como isso alterou completamente a minha visão da arte. De enxergar um mundo novo. “Que coisa linda! Você realmente ama o que faz!”.

Créditos: Letícia Godoy-MIS

Ele expressou a respeito do que viu em mim e em minha fotografia, mas não vou tentar escrever aqui. Eu não pretendo transformar esse texto em algo pedante para o leitor, no que foi para nós, uma troca de sentimentos genuínos. Estou apenas tentando contar uma história, e nessa parte, era preciso estar lá.

Sr. Colleman volta com o chá de Robert e para minha surpresa me entrega um pacote da padaria, e diz: “acho que você vai gostar disso”. Eu ainda não tinha almoçado e aquele brownie caiu perfeitamente. “Hoje você está vivendo como nós, isso é o que fazemos aqui”. Disse o sr. Colleman.

Instantaneamente me senti entre amigos de longa data. Robert e sr. Colleman quiseram saber mais sobre como entrei na fotografia. “Recente”, respondi. Contei sobre meus trabalhos com vídeos educacionais numa faculdade de medicina antes de entrar no museu. E como meu primeiro contato com a fotografia foi um registro em uma visita médica numa cidade chamada São Luis do Maranhão.

“Eu me apaixonei” disse. “Eu podia observar sozinha.”

Acho que sempre gostei um pouco de ser invisível. A multidão me apavora. E de certa forma, quando estou ao redor de pessoas e ao lado de uma câmera, me sinto finalmente à vontade.

Sr. Colleman: “Tire a foto, estou posando pra você”. Créditos: Letícia Godoy
Créditos: Letícia Godoy

Sr. Colleman, em suas rápidas e divertidas aparições, se retirou novamente para resolver outros negócios e Robert me contou a respeito de sua trajetória como professor e de como ele só foi ter noção de sua influência na vida das pessoas, quando um aluno enviou um e-mail 30 anos depois para agradecê-lo e dizer que ele havia feito a diferença em sua vida. “Apenas uma pessoa voltou para agradecer, mas foi o suficiente pra mim. E então eu percebi que a gente passa a vida inteira aprendendo.”

Ele falava com a íris brilhante, aquele momento pouco antes de se ter os olhos cheios de lágrimas. E compartilha o arrependimento de não ter tido um filho e me diz que se ele pudesse me dar um conselho, era o de nunca viver com a pergunta: “E se…”.

Acabei citando os velhos ensinamentos de meu pai, que dizia:

“Só fica velho aquele que não quer mais aprender”. E complementei: “Se ainda temos a capacidade de aprender… Significa que estamos jovens e se passarmos nossos conhecimentos adiante, de alguma forma, podemos viver para sempre. A natureza foi mais gentil com os homens, você ainda pode ter um filho. A mulher é que sofre mais com a natureza da idade. Claro. E tem sempre a possibilidade de adoção.”

“Você tem razão. Seu pai deve ser um homem fantástico, muito sábio, eu adoraria conhecê-lo. Por que não tenta trazer seus pais a NY da próxima vez que vier? Imagino que você deve ser a cara da sua mãe.”

De fato ele estava certo, sou a cópia da minha mãe e compartilhei com ele algumas fotos de família. “Sim, eu sabia, diga a sua mãe que ela é muito bonita!” : )

E foi nesse momento que Robert compartilhou comigo suas fotos favoritas de coleção, recém-adquiridas em leilões, que ele guardara em um setor particular. “Eu adoro o sentimento de caçar e encontrar antigas fotografias, foi assim que a fotógrafa Vivian Maier foi descoberta, por pessoas como eu. São impressões únicas e raras. Eu adoraria guardar muitas delas, como essas aqui. Mas esse é o meu trabalho. Não posso ficar com todas. Mas caso se interesse, para você elas estão à venda.”

Fotografia por volta de 1900 pintada a mão. Créditos: Letícia Godoy

Eu não classifiquei essa transação como uma venda. De $10 a $15 por fotografias originais, algumas até assinadas pelas próprias atrizes de cinema dos anos 1900 a 1920. Eu realmente senti que ele estava me confiando àquelas memórias. “É dessa maneira que fazemos essas pessoas viverem para sempre, veja, essas fotografias têm mais de 100 anos!“ exclama.

“Robert, hoje aprendi muitas coisas com você, mas se eu puder sair daqui com a maior lição, é a de não viver com a pergunta “e se”.
Portando, eu preciso perguntar: será que posso usar aquela lente que acabei de comprar e fotografar você na sua loja? Eu não conseguiria perdoar a mim mesma se não perguntasse. Claro, fique a vontade para recusar caso não se sinta a vontade”.

Ele deu um largo sorriso com o meu pedido e concordou imediatamente. Disse que achou um máximo eu querer fotografar com a lente que comprei ali. Ele pegou na vitrine a sua câmera favorita e foi assim que fotografei todos eles.

Robert. Créditos: Letícia Godoy
Robert e o amigo da loja ao lado. Créditos Letícia Godoy
O amigo da loja ao lado. Créditos: Letícia Godoy

-Robert, posso lhe dar um abraço? Perguntei.

-Own, claro, querida. Ele respondeu.

Aproveite que vai ficar esse mês na cidade e volte para nos visitar. Venha conhecer nossos vizinhos e bater mais fotografias.

E foi assim que sai de lá com uma câmera analógica e três novas lentes para brincar. E brinquei, com um largo sorriso de criança no rosto, com meu brinquedo novo-velho-usado pelas ruas de nova Iorque até o sol cair.

Sr. Colleman e a minha câmera nova-velha-usada. Créditos: Letícia Godoy
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