O Homem de Cabelos Grisalhos e as páginas em branco

Há certos momentos na vida em que encontramos uma pagina em branco, como esta pra mim aberta no word. A medida que as palavras passam por nossa mente e atingem o teclado, podem não fazer sentido no final. É um risco que vale a pena correr.


Há 2 anos uma história me marcou profundamente, e quase de maneira simbólica, me fez refletir mais sobre as páginas em branco do nosso cotidiano. Depois de anos, espero escrever sob uma nova perspectiva a respeito de um abraço singular, uma longa espera por um grande amor e a esperança de encontrar uma nova jornada.

Eu me coloquei a disposição para ajudar um querido amigo que veio para São Paulo fazer uma entrevista de emprego. Eu e minha colega de quarto ficamos felizes em receber um novo inquilino temporário que ocupou o nosso quartinho de empregada.

Durante aqueles dias, descobri que eu e aquele amigo tínhamos tudo em comum, éramos a mesma mente em corpos diferentes. Eu tive um sentimento incomum a respeito dele, um forte desejo de querer passar mais tempo trocando experiências e ideias. Mas eventualmente segui o plano de ser a companhia de um visitante.

No dia marcado de sua entrevista, combinamos um ponto de encontro e um horário, afinal, meu amigo ainda não sabia voltar para nossa casa. Enquanto isso, eu estava na minha anual maratona de sessões cine-cult-chata-metida-a-intelectual na Mostra Internacional de Cinema no Frei Caneca.

Depois de duas sessões de filmes profundos e pseudos-surreais, deu a hora e sentei-me na mesa em frente ao bomboniere do cinema, nosso ponto de encontro, e aguardei. Notei que a bateria do meu celular havia acabado e minha chance de qualquer contato com meu amigo foi perdida. Os minutos se passaram e uma hora se foi além do horário combinado.

Uma coisa legal dos espaços que recebem a Mostra Internacional de Cinema, é que as pessoas frequentadoras são comunicativas, receptivas e eu sempre acabo interagindo de alguma forma. Era uma ótima maneira de passar o tempo.

Um Homem de Cabelos Grisalhos sentou-se ao meu lado e abriu seu tablet, pensei em cumprimenta-lo com um “oi”, e certificar que eu não estava incomodando. O homem disse que aguardava a sua esposa para uma sessão de cinema da Mostra. Logo perguntei se ele tinha acesso a internet pelo tablet, expliquei que eu aguardava um amigo naquele ponto de encontro há algum tempo.

O Homem de Cabelos Grisalhos foi muito solícito, me emprestou o seu celular e tablet. Tentei contato pelas redes sociais e mandei mensagens para algumas pessoas próximas atrás do numero de telefone do meu amigo, que havia ficado preso dentro do meu celular sem bateria.

O Homem de Cabelos Grisalhos me contou que a situação o fez recordar de sua própria história, um momento marcante de quando ele ainda era jovem, solteiro.

Ele conta que havia conhecido uma mulher num certo restaurante, que ambos estavam sozinhos e decidiram sentar juntos para bater um papo que acabou durando muitas horas. Ele revelou que ela era incrível e que nunca tinha tido uma conversa com alguém que possuísse tanta sintonia até aquele momento, ele destaca que havia se apaixonado sem ao menos precisar tocá-la.

A Mulher Incrível anota o telefone de casa num guardanapo, na esperança de prolongar aqueles bons momentos qualquer outro dia, e ao me contar a história, o Homem de Cabelos Grisalhos certificou-se que eu lembrava que celulares não existiam naquela época.

Mas ao voltar para casa, conta que perdeu o papel no caminho. Desesperado e sem alternativa, o Homem de Cabelos Grisalhos decidiu voltar ao restaurante toda quinta feira, o dia em que se encontraram, naquele mesmo horário em que se viram pela primeira vez na esperança de encontra-la novamente, toda quinta, ao longo de um ano inteiro.

Eu pude olhar nos seus olhos brilhantes e ouvir da boca do Homem de Cabelos Grisalhos: “Eu nunca mais a encontrei. Hoje sou bem casado, amo minha esposa e tenho dois filhos, sou feliz, mas nunca me esqueci daquele dia, sempre penso no que poderia ter sido a minha vida, se eu encontrasse aquele guardanapo. Enfim, eu espero que você encontre o seu amigo”.

Eu só conseguia pensar no privilégio que eu estava tendo de conhecer um homem que havia passado em sua mocidade, por uma experiência tão marcante. Não pude deixar de sentir na época, uma enorme frustração, era como se eu não acreditasse quando ele indagou estar feliz com outra mulher. Como poderia?

O Homem de Cabelos Grisalhos chegou a pedir licença para comprar pipoca e refrigerante, e ao se levantar, deixou comigo seu celular e tablet. Em nenhum momento ele olhou para trás, não pensou na possibilidade de eu sair correndo com as suas coisas. Eu estava tendo uma conexão muito especial e inocente com um completo estranho. Um momento de confiança foi me concedido, e lá estavam dois desconhecidos fazendo companhia um para o outro enquanto esperávamos por outro alguém.

Ele voltou com um pacote de pipocas e uma lata de suco para mim, na qual eu agradeci imensamente, lembro que a pipoca tinha um gosto melhor do que o de costume, eu estava mesmo com muita fome.

Quando a esposa do Homem de Cabelos Grisalhos chegou, pudemos trocar uma conversa agradável. Até falamos sobre a idade do Brad Pitt e descobrimos como o Google matou as velhas conversas de bar, a resposta estava há segundos no site do IMDB. O que poderia ser em 1980, um longo papo de suposições e incertezas sobre o ator, agora o Google nos prestigia com respostas imediatas, tirando um pouco da magia de indagar cenas hipotéticas nos encontros inusitados da vida.

O Homem de Cabelos Grisalhos notou a fila do cinema se formar, olhou no relógio, levantou-se e me desejou sorte mais uma vez, pegou suas coisas e entrou com sua esposa de mãos dadas na porta do cinema.

Até hoje sinto tanto por não lembrar o nome dele.

Haviam se passado 4 horas desde o horário marcado com meu amigo, decidi voltar para casa, na esperança de carregar o celular e receber alguma notícia. Na saída do shopping Frei Caneca, já na rua, enfrentando o ritmo frenético de indivíduos com pressa, viro o rosto por um segundo, ergo os olhos e encontro o meu amigo parado, também vislumbrado ao me encontrar no meio daquela gente, naquela situação tão improvável.

Sabe aquele momento clichê no cinema em que a edição faz tudo ficar em câmera lenta, no melhor estilo do filme “Closer” onde temos Natalie Portman e Jude Law se encontrando ao som da música “She”?
Então, isso de fato aconteceu comigo naquele momento. Ou pelo menos algo parecido. Essa foi a minha maneira de codificar os sentimentos que aqueles segundos me proporcionaram, segundos em que os nossos olhos e sorrisos sincronizaram-se.

Meu amigo saiu correndo ao meu encontro e num abraço me ergueu no ar, me segurou como nunca ninguém havia me segurado antes.

Eu já fui abraçada de diversas formas: carinhosamente, com afetividade, de forma romântica e até protetora, mas eu nunca havia sido acolhida daquela maneira, era como se nós fôssemos aquele Homem de Cabelos Grisalhos e aquela Mulher Incrível do restaurante, como se os dois estivessem se encontrado em uma quinta feira que nunca chegou. Parecia que nos conhecíamos há muito tempo como casal. Era saudade que eu registrei naquele abraço.

Meu amigo, que eu desejava que fosse algo mais, havia me contado que a entrevista foi ótima e que outros processos seletivos haviam acontecido no dia. Ele conversou com muita gente na empresa, foi reconhecido pelo seu talento e tudo correu de forma positiva.

Ele estava feliz e encorajado, e eu não conseguia entender como aquela felicidade também me contagiava, apesar dele se sentir culpado pelo atraso e demonstrar, parecia que isso não nos importava. O sentimento era de um momento certo, mas nenhum de nós… falou de nós.

O tempo se passou, ele voltou para sua cidade, resolveu tomar outros caminhos que não se encaixavam com aquela empresa ou mesmo comigo. E eu também segui em frente, nunca havia refletido tanto sobre aquela situação até agora.

Há certos momentos em que encontramos uma pagina em branco, como esta aberta no word, e depois de muito tempo, lembrei-me daquele abraço de saudade esquecido, que hoje me faz querer sentar naquela mesa em frente ao cinema do shopping Frei Caneca novamente. Para aguardar um amor perdido, uma vez por semana. Na esperança de ser encontrada.

Eu não tenho arrependimentos. Eu tenho boas memórias, mas com elas muitas páginas em branco se adicionam diariamente. Páginas que me fazem ter o desejo de escrever lembranças que eu nunca tive de momentos com um velho amigo que se perdeu no tempo…

Enquanto espero na mesa da vida, em frente ao bomboniere do cinema, quero escrever nas páginas sobre a lembrança não tida daquele homem que desejo encontrar, seja na mesa de um restaurante ou em qualquer lugar. E sem querer começo a romantizar, pensar em rimas de adolescentes, em musicas carentes.

Apesar do jeito que escolhi me expressar, não desejo um conto de fadas, um príncipe certeiro. O homem das minhas páginas em branco sabe ser imperfeito, sabe amar uma só mulher, admite seus erros e triunfa com seus acertos.

Ele tem o desejo de melhorar, mas não se pune por não alcançar: seja aquele plano imediato ou por ter uma lista de fracassos.

Consegue contemplar a arte com o coração, mesmo que no fundo se faça de durão. Esse homem entende que viajar comigo é um exercício de paciência e paixão, vamos esperar para registrar o mundo e fotografar. Juntos vamos contemplar uma criação.

Vamos revezar na cozinha, dividir a louça e muitas vezes comer em qualquer rua. Nós entendemos que cozinhar é um prazer sem a obrigação de uma rotina burra.

Com esse homem, poderei ter um relacionamento, uma simbiose, uma cumplicidade de um parceiro que tudo escuta, divide e tudo quer ouvir, mesmo que a conversa seja para tentar descobrir o que é ser feliz.

Que não queira complicar, mas que saiba brincar. Que seja fácil amar na chuva, beijar sem precisar de abrigo, que queira ser mais que meu amigo.

Não quero que esse homem tenha medo de perder o emprego, medo de não ter, de não ser, medo de mudar ou de errar. Quero que ele saiba apenas se adaptar.

Não preciso ser compreendida, eu me conheço. Já é o suficiente e basta. Só preciso que ele saiba argumentar com uma mulher inteligente e mais nada. Quero dizer que vou passar um mês na África e quero ouvir “eu vou junto amada”.

Quero que seja corajoso, que brinque de enfrentar batalhas em um jogo, mas que prefira viver a vida em dobro.

Quero que ele me deseje a noite toda, quero voltar de um trabalho e encontra-lo querendo puxar a minha roupa. Quero olhar de ano em ano nos olhos daquele homem e ver seu amor crescer, sem temer as nossas rugas ou falar de nossas roupas sujas.

Preciso de um homem que se cuide, que entenda os benefícios de se ter uma boa saúde, mas não preciso de um homem dotado de academia, não quero alguém apaixonado por sua própria fotografia.

Meu homem precisa ser espiritual, mas nada além do normal. Tem que se questionar, se contradizer mais do que saber. Ser curioso até com Deus, sem se enaltecer. Homem criativo, bem resolvido, que eu também possa chamar de meu marido.

Pode ser meticuloso e cheio de manias, mas esse homem vai ter que aguentar as minhas ousadias. Tem que saber que um dia teremos filhos, mas sem projetar as frustrações de nossos pais ou querer proliferar martírios.

Tem que rir, mas rir de qualquer coisa, até de quebrar a louça. Pode ser desastrado, mas jamais querer ter razão por estar mal humorado.

Criatividade define a nossa conduta, mas ser dona de casa me assusta. Quero mesmo é um lar que não seja físico, que seja nosso apenas quando estamos unidos.

As páginas continuam em branco e sem espaço, parece que esse homem ficou na fantasia daquele único abraço.

Um dia essas páginas ainda serão preenchidas no nosso encontro, mesmo que eu encontre aquele abraço simbolicamente nos braços de outro.

Eu fico contente em escrever nessas páginas em branco palavras que contam a história do Homem de Cabelos Grisalhos que teve suas páginas preenchidas de felicidade quando outra Mulher Incrível cruzou o seu caminho.

Acho que agora compreendo o que ele disse a respeito de estar casado e feliz, mesmo não tendo encontrado a Mulher Incrível do restaurante que havia sintonizado o seu mundo. Afinal, quando desejamos muito algo, o nosso coração se adapta e a nossa vida pode tomar rumos em uma nova e incrível jornada.

Mas primeiro, tudo começa com uma página em branco.

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