How Many Roads?

Recentemente eu fiz uma descoberta. Uma descoberta meio preguiçosa pra quem trabalha há quase 3 anos no centro do Rio, mas ainda assim uma descoberta. Ali do ladinho do terminal das Barcas na Praça XV — não o caminho que vai pra Praça Mauá, mas o caminho que vai até os fundos do Santos Dumont — tem um lugarzinho onde fica uma fila de táxis que esperam pra pegar passageiros vindos de Paquetá, Niterói ou da Ilha do Governador. Depois que derrubaram a Perimetral e reformaram a praça, fizeram essa mini-praça com pista de skate e tudo, e vários banquinhos que ficam bem de frente pra Baía de Guanabara. Dali se tem uma vista estonteante. A simbólica Ilha Fiscal, a Ponte Rio-Niterói, barcas indo e vindo, pequenos barquinhos de pescador, um ou outro frete privado, navios cargueiros, plataformas de petróleo e também dá pra ver Niterói. Os aviões às vezes estão decolando e às vezes pousando pra esse lado. Naquele dia os aviões decolavam.

Acendi um baseado. Sempre levo um baseado pronto. Só um. Fumo e jogo fora, porque levar a ponta embora não vale o risco. Ali me passam mil coisas pela cabeça. Tanta gente indo e vindo. Nos aviões, nas barcas, dentro dos navios cargueiros. Quem são essas pessoas? De onde vêm? Pra onde vão? São brasileiras? Têm boas intenções? Quem espera por elas? O que eles vão comer hoje? O que os mantém vivos? É tanta gente diferente, com missões diferentes, com objetivos, paixões, ódios e manias diferentes, e ainda assim cada uma é protagonista da própria história. Enche o peito. Será que o destino de todas elas tá na mão delas? Eu sempre gosto de pensar na história dentro da história. Eu, garoto do interior, criado no meio conservador, sempre achei que tudo isso que tava na minha frente era só coisa de televisão, não era pra mim. Mas é. É? Eu não consigo pensar na situação do Brasil sem me colocar na pele das pessoas. Sem tentar me colocar no lugar de várias elas. Todas elas, assim como eu, reféns das limitações imaginárias ou reais que as próprias escolhas as impõem. Tudo tão complexo e cheio de amarras imaginárias. Tanta ansiedade e um pouco de alívio flutuando por esse ar fresco de início de primavera, tantos sentimentos que simplesmente não conseguem ser descritos em palavras.

Foto: LF Marques

Acaba o baseado. Uns 5 aviões decolaram, umas 6 ou 7 barcas passaram. Jogo a ponta fora. O vento tá forte, mas ainda a vejo no chão. Abro minha mochila. A boca tá seca, bate uma vontade de fumar. Pego filtro, tabaco e seda e me ponho a fazer um cigarro. Um homem de camisa preta no banco ao lado não pára de olhar pra mim, e em determinado momento se levanta. Não ligo, estou relaxado. Passa outro homem andando por mim, camisa branca. Nela, estampado “How Many Roads must a man walk down?”. Tipo aquela música do Bob Dylan. Começo a cantarolar na minha cabeça enquanto três guardas do Centro-Presente me abordam. “Boa tarde camarada”, ele diz. Interessante escolha de palavras, eu penso. “Boa tarde senhor”. Antes que ele pudesse colocar sua habilidade diplomática em jogo, eu disse: “isso aqui é tabaco”. Ele parecia surpreso. Olhou pros colegas e pra mim. “É tabaco?”. “É sim senhor, pode ver”. Abro a bolsa e mostro meu kit. “Isso aqui é filtro né?”, disse um. O outro abriu o tabaco e cheirou. “Posso ver sua mochila?”. Digo que sim. “Você trabalha aqui perto?”. “Trabalho bem ali naquele prédio”, digo. “Venho aqui todos os dias fumar um cigarro porque tenho aula as 19h aqui perto”, disse na minha melhor cara de pau. “É que a gente recebeu uma denúncia que alguém tava bolando um baseado por aqui”. Pensei que meus olhos estavam vermelhos, provavelmente eu tava transpirando cheiro de maconha. “É porque parece muito mesmo”, digo. “É verdade, parece mesmo. Então obrigado, boa tarde viu?”. “Boa tarde”, respondo. Olho pra onde tava a ponta. Não está mais, o vento levou pra algum lugar mais longe. Talvez tenha caído no mar. Terminei de fumar o cigarro e me levantei. Fiquei pensando no X-9 que me denunciou. Deve ter testemunhado toda a situação e não entendeu nada. Vem na minha cabeça o refrão da música. “The answer my friend is blowing in the wind. The answer is blowing in the wind”.

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