Pokémon GO é tipo cerveja

Tem gente que não joga e tá morrendo

Andando pelo campus da PUC, vi todo mundo na tela do celular. O foco da atenção de todos: Pokémon GO. Por causa ou graças ao meu atual celular, eu não estava no meio da brincadeira. Já pude jogar alguns minutos, mas o smartphone acaba sempre desligando sozinho depois de alguns instantes (e quase sempre quando aparece algum pokémon raro).

Não conseguir jogar me permitiu o sobriedade para ponderar se valia ou não a pena jogar o infame jogo que tomou todas as manchetes do mundo.

O jogo é divertido, cabe prologar. Da mesma forma que o cigarro é viciante, só o fato de ser divertido não nos impele automaticamente a experimentar coisas. Da mesma forma, a inutilidade do jogo não nos compele a nos privar dele: recreação é humana.

Os aspecto mais importante para se considerar é o social. Grupos sociais se definem por crenças e hábitos compartilhados. Mesmo hábitos que não são compartilhados devem ser tolerados no seus meios. Eu seria facilmente amigo de um budista, mas dificilmente seria amigo de um nazista ou de alguém pró ditadura.

Mais de 90% dos jovens bebem cerveja. Se te absteres de beber cerveja, provavelmente terás penalidades sociais. Obviamente tu podes te sentar em um bar com teus amigos cerjevófilos e curtir a sua limonada, mas de início já poderá causar um certo estranhamento dos teus pares. Aos poucos esse estranhamento pode virar desgosto. Vê só: existe em qualquer situação social um certo jogo, um jogo de status. Se não bebes, podes ser visto pelos teus pares como alguém que se sente moralmente superior aos outros e consequentemente podes ser visto em uma luz negativa. Terás menos semelhanças e coisas a compartilhar, já que não compartilharás dos efeitos inibitórios das capacidades mentais que teus amigos sofrem. Possivelmente vais rir de menos piadas e provavelmente vais te sentir entediado ou excluído do convívio.

Pessoas que não bebem vão acabar procurando outras pessoas que não bebem para conviver ou podem abster-se parcialmente do convívio social já que dentro os jovens tão poucos não bebem.

Da mesma forma, pessoas que não só não jogam Pokémon, como fazem questão de transmitir o fato, caíram em um grupo social diferente dos que jogam ou dos que não se importam.

Convívio social é mais importante que um fígado saudável. Solidão mata. Claro que o grupo anti-Pokémon é muito maior que o grupo anti-álcool, mas a decisão consciente de não jogar pode te levar a reduzires a quantidade e qualidade de amigos que possuis.

Do outro lado também existe o custo oportunidade de jogar. Cada minuto que passas jogando é um minuto que não lês clássicos da literatura como O Alquimista ou Iracema. É um minuto que não levantas pesos. É um minuto que poderias estar usando para aprender mandarim ou a tocar violão.

O livro Hooked fala como as empresas estão usando modelos cognitivos para viciar seres humanos em seus produtos. O modelo de Hooked é dividido em quatro etapas circulares:

  1. o usuário executa uma pequena ação em busca de um prêmio — o usuário abre Pokémon GO para encontrar um pokémon (ou para coletar itens nas Pokéstops);
  2. A ação gera uma reconpensa variável — pode haver ou não um pokémon nas proximidades e o usuário pode ganhar ou não algum item bom nas Pokéstops;
  3. O usuário investe no app — o usuário passa tempo coletando e evoluindo, o usuário usa dinheiro real para comprar itens no jogo;
  4. Gatilho externo, algo motiva o usuário a volta à app — alguém na rua grita “olha um Cubone”, ou o usuário passa por algum lugar que é uma pokéstop.
  5. Já na app, o usuário executa uma ação esperando a recompensa variável e voltamos ao passo 1.

Pokémon GO segue o modelo à risca. Mais que isso: diferente do mercado de redes sociais ou apps de transporte, o jogo toma conta de um espaço que previamente não era de ninguém do mundo digital: o percurso de um lugar ao outro.

Comparado com a TV ou a Internet, o percurso da casa para o trabalho é muito chato. Quase nenhum estímulo, entediante. As pessoas faziam o que podiam para preencher esse vazio e não pensar em suas vidas vazias: olhar as notícias do G1, ler o twitter, tirar uma selfie maneira.

Pokémon GO toma de assalto esse espaço: agora ir de casa para a faculdade se tornou uma aventura. Que tal encontrar um Rapidash antes da aula de cálculo?

Porém perdemos um dos poucos redutos que tínhamos para pensar. Cada vez mais inundados por notificações e informação, pensar se tornou atividade arcaica e lenta. Não há tempo para pensar quando tempos trezentas notificações no Facebook e uma tempestade de tweets para acompanhar.

Estudos mostram que se concentrar demais nos próprios problemas e sobre a sua própria situação pode causar depressão. Nesse caso Pokémon GO pode estar salvando vidas.

Como disse Platão: “conhece-te a ti mesmo”. As duas coisas mais importantes a considerar são:

  1. Queres ser amigo das pessoas que não jogam Pokémon? (eu não)
  2. Precisas pensar mais? (ibidem)
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