Dia perfeito

1

Era um dia perfeito.

Olhei pela janela. A chuva granulava os telhados lá fora e a irregularidade de seus curtos estalos tingia o silêncio da tarde com melancolia. Não aumentava, não diminuía. Só se arrastava, lenta e estável, congelando o tempo. Dias assim pareciam infinitos.

– Ao menos — pensei — posso ficar em casa sem ninguém me encher o saco.

A escuridão acelerava minha mente. Meus pensamentos tangenciavam a superfície da paranoia com a mesma suavidade da chuva.

2

Nunca entendi como, pra maioria das pessoas, chuva (ainda que fraca) pode ser um motivo tão plausível pra ficar em casa. Aliás, mais plausível que saúde mental debilitada e instabilidade psicológica. Nunca entendi. Os guarda-chuvas e capas de chuva mantém as pessoas secas fora de casa, mas não previnem acumulação de estresse, crises de ansiedade e surtos. De que me importa evitar resfriados enquanto minha mente está entrando em colapso? Nunca entendi.

A chuva só não justificava que eu ficasse o dia todo no quarto. Trancado, sozinho e incomunicável. Ficando ali eu me sentia bem menos solitário que lá fora, entre as pessoas. No universo do meu quarto, sou a população toda, sem exclusões pela sociedade. Lá dentro. A cama suja e até mesmo o chão duro, frio, acolhem-me melhor que os braços tortos da sociedade. Salvo exceções, as pessoas me assustam. Não confio nelas. Por todo lado, multidões de olhos repreensivos e altivos marginalizam multidões de olhos baixos e assustados. Olhares murchos e sôfregos fogem, trôpegos, da reprovação social.

Olhei pela janela. Não precisava fugir dali. Meu olhar não encontraria o de ninguém. Era um dia perfeito.

3

Eu tinha um motivo “válido” pra não sair de casa. Afinal de contas, más condições de saúde mental não deviam ser uma desculpa decente pra querer me trancar no quarto. Era “preguiça disfarçada”, como disseram. Meu único “motivo válido”, então, era a chuva, que imprimia mais melancolia ao meu ar.

Como uma noite tão voluptuosa pode preceder um dia tão fúnebre?, pensei com minha caneca de chocolate quente.

A porta gemeu, lúgubre. Na rua, a chuva chiava.

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