escuridão

São quatro horas da manhã. Eu estou de pé, imerso na neblina que frigidamente paira sobre um campo escuro. Um campo muito escuro. Extenso, parece findar no nada, onde minha vista não alcança. É como se estivesse num lugar alto de onde nada cobrisse minha visão, mas ao mesmo tempo não havia o que enxergar. E o lugar é plano, reto, sem inclinações, regular como a escuridão. Um campo muito escuro. A meia luz que timidamente preenche todo este espaço esconde-se o suficiente pra que eu não encontre sua fonte, mas minhas pupilas se dilatam o bastante pra que eu consiga perceber a neblina no escuro, além de senti-la me abraçando: O ar é denso, frio e seco. Não encontro fonte de qualquer tipo de luz. Nada ao meu redor. É um lugar totalmente vazio. É um lugar? O chão parece coberto de grama, não muito baixa, mas seca. Se houvesse mais luz certamente veria meus pés pisando num tom interminável e morto de marrom, como um campo coberto de palha. E se eu andasse, certamente os ouviria trepidando como sobre folhas secas, na ausência do verde. Meus pés! Não os sinto. Não sinto meus pés, mas permaneço de pé, estático. Preciso andar, preciso procurar alguma coisa. Qualquer coisa!

Decidi andar e prossegui, lento e hesitante como um camundongo atravessando o maior quintal já visto na sua curta e insignificante vida. É como se eu estivesse numa velocidade absurda, apesar dos meus passos suaves. Surge uma brisa, um vento. A neblina resfria meu cerne com beijos ríspidos de um vento duro, insistindo pra que eu permanecesse ali. Mas não há “ali”, só um campo muito escuro. Por mais que eu ande, isso é tudo. Se estaco novamente, a neblina, suspensa preenchendo tudo ao meu redor, afaga minha face gélida com sua umidade cheia.

Não há nada aqui. Meus passos não soam além de baques vazios e mórbidos no silêncio. Sem chiados de grama verde sendo pisada, sem ruídos de grama seca sendo amassada. Quando o vento volta e gela minhas orelhas, não cochila sobre meus ouvidos um só rumor. Não há nada aqui. O silêncio grita dentro da minha cabeça, o escuro ofusca minha visão e a neblina me sufoca. Já não mais balanço os braços no vazio, como quem evita esbarrar em móveis num quarto escuro; nem mais analiso todo o meu entorno a cada passo, como quem teme um fantasma. Agora apenas prossigo, procurando uma interação, um movimento, uma variação no padrão da neblina, um som, uma luz. Qualquer coisa.

Encontrei um som, o mais agudo. A meia luz morreu.

Escureceu.

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