Selvageria Condicionada

Ford! Ford! Ford!

É isso que escutamos quase todo o momento dentro do Centro de Incubação e Condicionamento de Londres Central. O orgulho ao proferir tais palavras remetem à fé incondicional à Comunidade, Identidade e Estabilidade. Mas sinto que você ainda não esteja acostumado com tais termos e avanços na sociedade (selvagens…).

Estamos no ano 643 depois de Henry Ford, nosso eterno compatriota que criou o único modelo de desenvolvimento possível para a sociedade. Aqui, no Centro de Incubação, produzimos seres humanos condicionados física e psicologicamente com o máximo de aperfeiçoamento. Cada indivíduo exerce suas funções na sociedade de acordo com a classe escolhida durante a concepção — através de uma avaliação que deduz as principais características de cada um — e são definidos em Alfa, Beta, Gama, Delta e Ípsilons.

Os Alfas correspondem à casta superior, são aqueles que gozam das maiores regalias, mantidas às custas do trabalho das castas inferiores. É a casta de nosso diretor Thomas e Bernard Marx (o último com uma pequena inclinação de não se assimilar a nenhuma casta possível…). Bom, continuando.

Os Betas exercem os trabalhos na incubadora e em outros setores do nosso centro, sua maioria se relaciona com os Alfas, mas são bem quistos por toda sociedade. Fanny e Lenina Crowne estão nesta casta, duas pneumáticas garotas! Sem mais!

Gamas, Deltas e Ípsilons são três castas concebidas de acordo com o processo denominado método Bokanovsky. Como um selvagem você não deve entender muito de embriologia e muito menos de replicação do DNA, então vou contar-lhe apenas que tal processo alcançado por nossa avançada comunidade é capaz de reproduzir até 96 embriões, mas 72 é uma boa média para nossos trabalhadores. Sim! 72 gêmeos podem ser produzidos em uma questão de instantes!

Na realidade, nosso processo avança para além, e esses números parecem ínfimos perto do que o processo bokanovsky pode alcançar. No nosso Centro em Londres, alcançamos a marca de Dezesseis mil e dose embriões de um único óvulo. É claro que com tantos ovos, o processo de desenvolvimento deve ser o mais rápido e eficiente possível. Por isso utilizamos o Podsnap, que acelera imensamente o processo de maturação. Esperar 30 anos para que duzentos ovos cheguem a maturidade? Ó Ford! Em dois anos, obtemos pelo menos cento e cinquenta ovos maduros!

Conquistamos a eficiência da nosso sociedade através do método de Hipnopedia, que consiste na repetição de máximas durante o desenvolvimento de cada um. São frases como aquelas ditas para as crianças Betas na Sala de Condicionamento Neopavloviano:

As crianças Alfa vestem roupas cinzentas. Elas trabalham muito mais do que nós porque são formidavelmente inteligentes. Francamente, estou contentíssimo de ser um Beta, porque não trabalho tanto. E, além disso, somos muito superiores aos Gamas e aos Delta.

Esse é um exemplo de frase para crianças Beta. No entanto, são várias frases que são repetidas inúmeras vezes até que os bebês associem que, por exemplo, livros são algo ruim, e desta forma não se interessarão em ler no futuro qualquer coisa diferente do determinado.

Entendemos que vocês selvagens criam seus… bom, aqueles que vocês chamam de… Não me faça dizer o nome das pequenas criaturas que vocês chamam de filhos. Me arrepio apenas em pensar… Pais, mães… família. É definitivamente o maior desperdício de tempo, produtividade e um atraso para a sociedade. Ora, desencorajar as crianças das práticas sexuais é mais que um retrocesso, é contraproducente!

Me desculpem, esse assunto me deixa um pouco nervoso… Preciso tomar meu Soma, apenas uma grama deve bastar! Por Ford! Você ainda me pergunta o que é Soma? Soma é alegria, soma é diversão e tranquiliza a mente. Todos nós devemos tomar Soma. Os Ípsilons devem tomar três horas de Soma a cada seis horas de trabalho, mas os Alfas e Betas tomam por prazer.

Bom, voltando à minha explicação…

No nosso centro as crianças recebem uma educação sexual intensa e são apresentadas ao erotismo durante a infância através de jogos que os disciplinam desde cedo. Sexo e sexualidade não são, definitivamente, tabus para nossa sociedade. Os adultos devem se relacionar continuamente com diferentes pessoas e qualquer alusão a relacionamentos duradouros são completamente horripilantes.

Por Ford! Acabei de receber uma mensagem da pneumática Fanny Crowne, estamos saindo há alguns dias e veja só, ela quer sair comigo hoje a noite!


CONTEXTUALIZANDO

O escritor Aldous Huxley nasceu em 1894 na Inglaterra e viveu durante os anos 1920 na Itália, onde presenciou o período fascista comandado por Mussolini. Esse cenário inspirou Huxley a produzir a realidade autoritarista vivida pelas personagens de Admirável mundo novo, publicado em 1931. A carreira de Husley ficou reconhecida a partir da obra “Crome Yellow”, publicada em 1921. A partir de então, o autor lançou outros livros que ganharam muito destaque no âmbito internacional, como “Também o Cisne Morre” (1930), “Contraponto” (1930) e “Sem Olhos em Gaza” (1936). Huxley faleceu em 1963, nos Estados Unidos.

Aldous Huxley. Fonte: DCM

ANÁLISE CRÍTICA DO LIVRO

Em "Admirável mundo novo", Aldous Huxley desenvolve questões importantes que afligiam as pessoas e a sociedade do período entre guerras no século XX . A industrialização acirrou antigos problemas da vida urbana e desencadeou novos — no livro retratados pela separação entre as pessoas geradas em Centro de Incubação e aquelas que o autor denonima de selvagens — enfatizando algumas das principais características do capitalismo, a desigualdade social. Logo, tomando como pressuposto esse cenário de produção em massa para entender as principais críticas de Huxley, é possível observar que o autor retratou as pessoas como são retratadas as mercadorias: descartáveis e produzidas em grandes quantidades para suprir a demanda.

Outra característica do enredo e da escrita do livro que critica a sociedade capitalista e de consumo, refere-se às relações humanas dentro dos Centros. As práticas e relações sexuais são encorajadas, mas não o amor, nem o relacionamento, o casamento e a constituição de família. Todos esses são valores e fundamentos que afastam o ser humano da produtividade e permitem o crescimento "desordenado" da população.

Nos anos que correspondem à década de 1920, os donos das indústrias faziam com que todos da sociedade (incluindo crianças) trabalhassem por horas em atividades exaustivas, situação que resultou na redução da expectativa de vida das pessoas na época. Na obra, um trecho retrata que a expectativa de vida das pessoas dentro do Centro é de sessenta anos, muito menor do que a de um selvagem. Esse fato exemplifica que o ser humano era criado apenas para trabalhar e logo que completasse a idade máxima, era substituído por outro.

É possível defender uma relação entre o enredo de "Admirável mundo novo" com a "Fase do Conforto", conceito elaborado pelo Doutor em comunicação Alex Primo, no ensaio "Fases do desenvolvimento tecnológico e suas implicações nas formas de ser, conhecer, comunicar e produzir em sociedade". Algumas características dessa fase com a obra de Aldous Huxley permeiam a dessacralização —fim do culto a qualquer religião— e o racionalismo. Além disso, a ciência e o desenvolvimento tecnológico representam o progresso. Porém, a relação mais clara é estabelecida entre o modelo de produção da Fase do Conforto e o princípio fundamental da sociedade criada por Huxley: o fordismo. O modelo de produção que levou o nome de Henry Ford levou a um crescimento acelerado da produção com a introdução da esteira, ademais, os trabalhadores ficaram limitados a uma parte do processo de produção, como uma forma de especialização e alienação. Não obstante, os indivíduos do Centro de Imcubação em "Admirável mundo novo" não entendem como determinados produtos ou mesmo processos são realizados, pois foram condicionados a trabalhar em apenas uma parte dessa grande sequência de fases.


RELAÇÃO COM OUTRAS MÍDIAS

A literatura da obra “Admirável mundo novo” de Aldous Huxley, é uma literatura que assusta. Como dito na mídia resenha “Depois de Ford: Mídia resenha Admirável Mundo Novo”:

“A obra nos faz questionar a moral, já que, em vários aspectos esta sociedade proposta no livro é moralmente contrária em relação a nós.”

O que poucos sabem, é que essa construção literária que nos choca é uma característica do da produção literária que surgiu com o Trovadorismo, movimento literário do século XII. Os textos produzidos nessa época recebiam o nome de cantigas, que eram: de amor, de amigo, de escarnio e maldizer.

Essas cantigas possuíam características tais como as da obra de Aldous, falavam abertamente sobre temas como erotismo, e de uma forma explicita e as vezes até agressiva. A poesia de escárnio se assemelha de certa forma também ao movimento Realismo sujo, conhecido também como Hiper-Realismo. Originado na década de 70 nos Estados Unidos, o Hiper-realismo possui como uma de suas características falar abertamente sobre temas que fazem parte da vida humana, mas de forma explicita e agressiva, o que muitas vezes fere os princípios de moral estabelecidos por nossa sociedade. Esse tipo de leitura em um primeiro momento costuma nos deixar em choque, inconformados com o que lemos, mas depois nos conduz a uma reflexão.

Essa construção literária de realismo sujo também está presente nas obras do escritor alemão Charles Bukowski e até mesmo em músicas brasileiras, como fazem os rappers nordestino Baco Exu do Blues e o mineiro Djonga. No vídeo a seguir, Baco debate sobre seu trabalho e entre os minutos 15:45 ao 16:30 ele fala sobre poesia de escarnio. Assista:

Podemos perceber essa característica nas músicas do Baco na música "Capitães de Areia", a poesia de escarnio é nítida em trechos como:

“As vozes dos bêbados
Risadas gritos
Garrafas quebrando, as drogas, os conflitos
As luzes da cidade, batuque, tiro
Gemidos, briga é um caos tão bonito”

E também em:

“Eu tô brindando e assistindo
Um homofóbico xenófobo apanhando de
Um gay nordestino
Eu tô rindo
Vendo uma mãe solteira espancando o PM
Que matou seu filho
Me olho no espelho, vejo caos sorrindo
O karma sorrindo
Eu nasci no dia que viram a raiva parindo”

Escute:

Nessa música Exu do Blues menciona situações que apesar de serem cotidianas na nossa sociedade, nos abominamos. Como: tiro, gemidos, drogas, bêbados e conflitos, e ele ainda chama essa composição de “um caos tão bonito”. Ele utiliza o absurdo para nos fazer olhar para essa realidade que apesar de oculta, existe! E compõe o dia a dia de muitos cidadãos.

A obra Admirável mundo novo, também faz isso, nela são citadas situações que para nós nos parecem absurdas, como a existência de um mundo sem pai e mãe. Mas isso também nos faz refletir em como seria esse mundo e nos rumos que estamos conduzindo nossa sociedade. Baco também usa desse recurso em outras músicas, como em Sulícidio em que ele “ataca” rappers cariocas e paulistas para chamar a atenção do público deles para sua região: o nordeste.

Djonga, rapper mineiro, também incorpora o realismo sujo em suas músicas, podemos ver isso no seu clipe Junho de 94. Assista:

No final do clipe, a partir do minuto 3:26, Djonga aparece só de roupa intima ao lado de uma mulher negra que foge dos padrões de beleza da nossa sociedade. A principio é uma cena que assusta, um homem semi-nu ao lado de uma mulher semi-nua usando o vaso sanitário. Mas podemos concluir que essa cena traz uma grande reflexão: Djonga entra no banheiro e parece confuso com o fato da mulher estar lendo uma revista que traz consigo mulheres brancas e magras estereotipadas, mas essa mulher representa estar “cagando” pra isso, literalmente e o Djonga a ajuda a “limpar essa merda”. Nos faz refletir sobre a contradição do que somos e do que consumimos.

Além das músicas, o realismo sujo é marca registrada do escritor Charles Bukowski em seus clássicos A mulher mais linda da cidade, Pulp, Misto Quente e O amor é um cão dos diabos, ele utiliza-se de expressões muito parecidas inclusive com as encontradas em Admirável mundo novo. Leia o poema a seguir encontrado no livro "O amor é um cão dos diabos", de Charles Bukowski:

Você
você é uma fera, ela disse
sua enorme barriga branca
e seus pés cabeludos.
você jamais corta as unhas e tem mãos gordas
como as patas de um gato
seu nariz vermelho e brilhante
e os maiores bagos que já vi.
você lança esperma como uma baleia lança água pelo
buraco das costas.
fera, fera, fera
ela me beijou
o que você quer para
o café da manhã?

Esse estilo de escrita é muito comum na obra de Huxley, ele utiliza de expressões parecidas no livro, descrevendo cenas eróticas e de efeitos alucinógenos. Mas isso não é em vão, grande parte das cenas eróticas de O Admirável mundo novo trazem consigo a reflexão sobre a liberdade. Na obra o ato sexual é algo que deve ser feito com diversos parceiros, sem nunca envolver amor ou possibilitar a constituição de uma família. A liberdade individual não existe entre os membros dessa sociedade distópica. Inexoravelmente alguns traços da personalidade ou do cotidiano dos indíviduos são visualizados na sociedade atualmente, fazendo-nos pensar se há os riscos de nos perdemos igual os personagens do livro.

Ainda que algumas das principais características do livro de Aldous Huxley sejam utilizadas por outras mídias para criticar ou mesmo denunciar determinadas práticas da sociedade, "Admirável mundo novo" se posiciona no campo teórico/ideológico — bem como fictício— e as perspectivas da sociedade dentro de um enredo romântico, ao mesmo tempo que dramático. Enquanto isso, as mídias musicais citadas denunciam situações atuais e envolvem a luta social de diferentes grupos. O escárnio das músicas do Baco e do Djonga busca fortalecer a auto estima do povo negro, discutem questões históricas que são responsáveis pela segregação e discriminação desse grupo na sociedade. Já nos textos de Bukowski, essa tática é usada mais como forma literária, é a marca registrada do autor, sem o cunho de denuncia de Baco e Djonga e sem o caráter ficcional e de crítica de Admirável mundo novo.

Tais diferenças são características intrínsecas dos estilos de produção de cada uma das obras, tendo em vista que a poesia, aliada à música, possui como objetivo explicitar uma questão social que normalmente é ignorada pela sociedade em geral, ao tempo que um romance tem o intuito de contar e descrever uma ou várias relações entre personagens num espaço-tempo definido.


CURIOSIDADES

Notamos também, além da característica literária algumas comparações interessantes, como:

— No livro, as personagens utilizam expressões como “graças a Ford!”, ou “por Ford!”, da mesma forma como é de costume pela sociedade atual fazer exclamações usando a palavra “Deus”.

— Referências locais também são conhecidas de outras formas, como o relógio Big Bang, visitado por Bernard, é referido no livro como “Big Henry”, como referência também a Henry Ford.

— Poucos sabem, mas 30 anos depois da publicação de “Admirável mundo novo”, Aldous Huxley publicou o livro Regresso ao admirável mundo novo, que analisa as previsões feitas por ele no primeiro livro.

— Muitos comparam o livro de Aldous Huxley com a obra 1984, de George Orwell, sendo que ambos representam projeções de um futuro distópico, em governos autoritários. Apesar disso, o primeiro propôs uma sociedade em que a opressão imposta é aceita e adorada, enquanto no segundo essa opressão é feita pela dor e o medo. Qual você acha que mais se compara a sociedade atual?


PRODUÇÕES CINEMATOGRÁFICAS

O livro Admirável Mundo Novo serviu como base para duas produções cinematográficas que adaptaram a história de Aldous Huxley em ação.

A primeira adaptação levou o nome original do livro e foi lançada em 1980. Estrelado por Julie Cobb, Bud Cort, Keir Dullea, a produção realizou algumas alterações na ordem cronológica do livro para explicar melhor como seria o mundo criado por Huxley.

Já a segunda adaptação também levou o nome do livro para as telonas e foi lançado em 1998. Estrelado por Peter Gallagher, Leonard Nimoy, Tim Guinee e conta a história com muito mais drama e envolvendo ainda mais a ciência da criação de seres humanos nos Centros de Incubação.

Filme de 1980, legendado em português.

FAÇA O TESTE!

Indicamos anteriormente as principais características do livro de Aldous Huxley a partir de diferentes perspectivas. Ficou curioso sobre as castas descritas no livro e como elas funcionam? Faça o Quiz e saiba se você seria um trabalhador Alfa, Beta, Gama, Delta ou Ípsilon e compartilhe com os amigos!


Selvageria Condicionada: uma mídia resenha do livro Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley para a disciplina de Tecnologias Contemporâneas de Comunicação e Educação do curso de Jornalismo, Faculdade de Educação — UFU. 
Por: Luiz Gustavo Ribeiro, Maria Julia Araújo, Marina Barquete.