Vida dupla e o facebook

Artigo originalmente publicado em 25/10/2012 na defunta Revista Vila Nova de Campina Grande.

Só há dois tipos de pessoas que não são hipócritas: as perfeitamente santas, e as perfeitamente vis. Ambas vivem completamente segundo o que acreditam, as primeiras por ter uma conduta irretocável, as segundas por fazer do seu agir a sua regra de moralidade. Eu sou um hipócrita, porque violo meus valores constantemente e vocês, caros leitores, provavelmente também são. Coisa muito diferente, contudo, é levar uma vida dupla.

Causou certa comoção reportagem do Fantástico que mostrava como, de posse do nome completo de uma pessoa, era possível descobrir inúmeras coisas a seu respeito no Facebook. O programa televisivo mostrou, vejam só!, como o que você faz publicamente na Internet é… público!

Começaram a pipocar mensagens na rede social preocupadíssimas com a privacidade. E uma delas me chamou a atenção: ela dava instruções (erradas, frise-se) de como não permitir que outras pessoas saibam seus comentários e “curtidas”. Ora, se eu curti algo, ou comentei algo, publicamente, querer esconder isso é, na melhor das hipóteses, ingenuidade.

De fato, parece que muita gente leva uma vida dupla na Internet. Por exemplo, rapaz comprometido curte foto de uma moça de biquíni, e não quer, obviamente, que a namorada veja. Mas se você não quer que ninguém saiba de algo que você fez, a receita certeira é única: não faça. Há uma falsa ilusão de anonimato ao andar-se na ágora da rede, dado que rostos não são vistos. Mas é preciso ter uma unidade: o homem que comenta algo na internet é o mesmo que o faz no meio de amigos ou de familiares. Esconder-se no anonimato, real ou ilusório, é imaturidade.

Um parêntese curto e necessário: não se pode cair no erro oposto, é claro, que é o despudor; mostrar a sua intimidade a quem ela não é cabida. A privacidade é importante. Não é devido se expor a quem não se conhece ou não se confia.

Retomo. Como já disse, sou um hipócrita, e o bom de sê-lo é que posso dar lições de moral a mim mesmo. Essa hipocrisia comum é ruim, mas não é o fim do mundo. Penso, por exemplo, num filho que vê o pai a fazer algo que lhe proíbe. Péssimo, mas é a pior consequência que consigo imaginar.

Contudo, não há coisa mais triste que levar uma vida dupla, e tão pior quanto mais elevados forem os valores defendidos por aquele que o faz. Porque o portador de valores torna-se um representante daqueles. E, se os fere, mina a confiança das pessoas nos valores e em si mesmas. Pensemos, por exemplo, nas tristes consequências dos casos de padres que abusaram de menores ou do Mensalão, levado a cabo pelos mesmos que derrubaram o presidente Collor com acusações de corrupção, nas moças chulamente chamadas de “crentes de rabo quente”.

Mas ainda que não seja descoberta, a vida dupla traz débitos terríveis a quem a leva. Como dizia Dom Fulton Sheen: “se você não vive segundo o que acredita, acabará acreditando no que vive”. Aquele que se mascara acaba cavando a própria cova, e levando uma vida triste, fosca. Todo homem precisa ter a força necessária para ser coerente com seus princípios; não rebaixando-os aos seus atos, mas elevando esses últimos à meta dos primeiros. Haverá quedas, haverá hipocrisias, mas é a única maneira de se viver que pode ser chamada de digna.