Queridos defensores do “body positive” que odeiam gordos,

Tradução deste texto da ativista gorda Cortnie.

Ilustração da Frances Cannon

O meu ativismo gordo não machuca seu corpo magro. Me deixe repetir. Meu ativismo gordo não machuca seu corpo magro. Meu ativismo gordo não descrimina pessoas magras. Meu ativismo gordo não está te dizendo que você precisa ganhar peso ou mudar qualquer coisa no seu corpo. Eu postar imagens de corpos gordos lindos não é um tapa na cara do seu corpo (mais) magro, é apenas meu jeito de normalizar e aceitar uma beleza que nunca é explorada. O simples ato de eu aceitar um corpo que tão frequentemente é mal visto não vai oprimir o seu corpo, ele só vai libertar o meu.

Quando você diz que ativistas gordos estão oprimindo pessoas magras ou encorajando elas a mudarem, você percebe o quão ridículo está sendo? É tipo homens falarem que o feminismo os oprime. (…)* Entende o que eu quero dizer? Tenha consciência de seus privilégios.

O momento em que VOCÊ for dito para entrar em guerra com sua gordura, então você pode me dizer como se sente. Eu sei que você está em guerra com seu corpo em algum nível, é isso que a cultura das dietas quer, mas por favor. Por favor sente-se e pense em como deve ser existir e ser MORTALMENTE GORDO (considerado obeso mórbido pelo IMC, o que aliás é uma idiotice). Eu me recuso a ser considerada obesa ou acima do peso, porque não quero viver sob as classificações do IMC. Acima de qual peso, exatamente? Nem pensar. Eu sou é gorda. Quando você crescer fantasiando sobre cirurgias para perder peso, se perguntando quando a sua gordura da infância vai desaparecer que nem todo mundo disse que iria. Quando você ver merdas como essa e se perguntar como as pessoas na sua escola ou faculdade te enxergam por causa do seu corpo gordo. Quando o preconceito contra pessoas grandes é tão grande que você vai se perguntar porquê tentar. Quando você tem medo de discutir o tópico da sua tese no departamento da faculdade porque tem medo de ser vista como a garota magra reclamando de ser gorda. Quando você for para a academia porque quer malhar, e as pessoas ficarem constantemente te perturbando para te pesar ou te dizer “ei olha a minha foto de antes” ou te avisar que sua tatuagem vai ficar tão melhor quando perder peso. Quando um desconhecido te parar no supermercado para te impedir de comprar queijo, ou quando alguém te cantar na rua e você gritar de volta para ser rebatida com as condescendes palavras “eu só estava te fazendo um favor, sua vadia!”. Aí, meu amigo, é quando você vai entender como me sinto.

O movimento “body positive” está inundado de pessoas pregando sobre saúde, e eu já estou cansada disso. Totalmente. Eu estou muito cansada de ver pessoas falarem merda sobre o corpo de outras pessoas no nome da “saúde”. Que isso se foda. Saúde não é um troféu dourado que todo quer ou precisa alcançar. A discussão a respeito de saúde não é nada além de uma discussão sobre GORDURA. Não é sobre o que você come. Não é sobre quanta atividade você faz na semana. Não é sobre o seu bem-estar mental ou sobre ter relacionamentos que te fazem bem. É sobre não ter gordura no seu corpo. A saúde que eu conheço me encorajou e me encoraja a ter distúrbios alimentares, porque todo mundo sabe que uma garota gorda não se alimentar é só uma dieta. A discussão sobre saúde que eu cresci vendo e ainda vejo é uma forma da sociedade te dizer para abrir seu corpo e operar seu estômago tornando ele tão pequeno que você não consiga comer mais do que alguns biscoitos água e sal por dia. A saúde que eu vejo inclui programas de televisão como “The Biggest Loser” e “Extreme Weight Loss”, onde a auto-estima e o valor de alguém são baseados somente na aparência física, e onde transtornos e compulsões alimentares são estimulados. Tudo no nome da saúde. Então cala a sua boca cheia de argumentos sobre saúde. Ninguém deve a ninguém ser “saudável”, porque saúde é uma construção social bem horrível.

E para de me dizer que nem tudo é sobre aparência. Para de me dizer que eu sou uma pessoa tão boa e simpática, e que nem todo mundo iguala o meu valor ou meu respeito à minha aparência. ISSO é uma idiotice. Eu estou cansada de ver imagens que me encorajam a pensar que eu não sou o meu peso. Porra, eu sou sim o meu peso. Minha gordura é o que me mantem. Minha gordura é o que me ajuda a andar pelo mundo. Minha gordura SOU eu. Eu sou minha gordura. Eu não vou mais separar as duas coisas para agradar as pessoas ao meu redor. Eu me recuso a alimentar a ideia que minha mente e minha personalidade não são afetadas pelo meu corpo e minhas experiências. Eu recuso a alimentar a ideia que existe uma pessoa magra dentro de mim. Eu sou gorda. É assim que eu sou. Supera isso logo.

*Nota da tradução: tirei um trecho que a autora comparava gordofobia com racismo porque acho uma comparação ofensiva, dá pra ler no texto original.