Exposição

Esse não é necessariamente um texto otimista. Você poderá compreender porque durante a leitura.

Nos últimos tempos tomei mais decisões difíceis e menos cerveja. Das decisões não me arrependo, foram necessárias. Da cerveja me arrependo um pouco, mas meu fígado, minha conta bancária e outros fatores agradecem.

A maneira como as coisas fervilham em minha mente, numa velocidade que eu sequer acompanho, me deixa exausto, inclusive fisicamente. O que explica meu total desprezo por atividades físicas desde sempre.

Tentei começar algo, mas não é o momento. Como podemos empregar esforço no corpo, quando a mente já o deixa tão cansado?

Não é um escape, não é um emprego de energia. No momento é só mais uma tortura.

Continuo dormindo mal, a cabeça arde. Esforço. Ter um objetivo requer esforço. Conquistar um objetivo requer esforço.

Esforço é suor e dor, e não adianta dizerem que fazer determinada coisa olhando pro futuro faz você realizar aquilo com mais alegria. Não, isso se chama ansiedade, e mais dor. A dor de saberem que você precisa daquilo, e por isso explorarem seu potencial, pois sabem que você não largará, por necessidade, esse osso seco e velho, já sem nenhum pedaço de carne, já sem sabor.

A mesma dor de não conseguir fazer muito. Ao final, a frustração nos devasta, repetidas vezes até que nos sentimos calejados, e aí pouca coisa nos afeta. É melhor manter as expectativas baixas, a fim de tornar a dor menor.

É triste, incorreto.

A cada passo que se dá a fim de sair desse circuito, a vida acontece e te empurra de volta no exato momento em que você abre uma mínima fresta da porta, assim que a mínima luz entra. Ela enfia o dedo nos seus olhos e diz: “Fica aí!”.

E como você pode empurrar o próprio globo ocular contra dedos sem sentir uma dor lacerante? Ficando cego, claro. É o preço a se pagar.

É uma época de informação vasta, de desinformação, alimentada por cliques e opiniões que são meticulosamente trabalhadas a fim de nos tornar o mínimo, de acabar com qualquer esperança e nos fazer aceitar todo tipo de violência.

Abusos, frituras, o cheiro de animais mortos e do aumento vertiginoso da quantidade de homens vivos em decomposição a cada esquina. A dor que faz você despertar com o corpo já dolorido pela manhã, e ficar até o início da tarde se remexendo, com a cabeça a mil, em prantos, e sair da inércia exausto.

A dor de, às sete da manhã, encarar inúmeros tipos de transporte público lotados de desespero, chegar ao seu trabalho já exausto, sorrir e dar o seu melhor, quando tudo o que você mais quer é só voltar logo para junto daqueles que ama.

O sorriso da infelicidade, estampado em troca de notas de cem.

Não é pior que a inércia.

Mas há de melhorar, temos de continuar, mesmo que ninguém tenha nos ensinado muito bem como caminhar com a lama até o pescoço.

E quem é que sabe fazer isso?

Pouco nos resta além de nos apegar à esperança quase cega pelo efeito da luz nas lágrimas, e à força das conexões que temos com aqueles que amamos. Que tenhamos tempo para viver então.

Sem dor.

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