Hangover

Escrito em 17/04/2013 para o blog Por Trás do Pico

Acordei tonto, meio zumbi, o celular me dizendo que já era meio-dia e meio. A francesa do meu lado, mesmo sem querer, usava o que havia restado dos meus cinco sentidos para tornar a árdua tarefa de levantar da cama ainda mais difícil. Eu sabia da previsão das ondas e estava ciente de que a chance de estarem rolando bons tubos naquela manhã de sábado eram grandes.

No entanto, apesar desse conhecimento prévio sobre as condições do mar, eu já planejava acordar ao meio-dia. Na verdade, era inevitável porque na noite que precedeu esta manhã à qual me refiro, fizemos um show no Darcy's Arms. E o show no Darcy's Arms nunca acontece sem irlandeses bêbados, shots de destilados com volume alcóolico de 70% e risadas até tarde. Resumindo, acordei no dia seguinte com a cabeça em branco, cheiro de perfume bem próximo, gosto de cachaça na boca e o corpo formigando. Meu inconsciente, e só o inconsciente, sentia que tinha umas ondas.

Levantei devagar, sem pressa e com muita (en)rolação na cama. Saí do quarto, enchi um copo d’água e comecei a tentar, sem sucesso, reconstituir os acontecimentos de doze horas atrás. Voltei pro quarto e, depois de mais meia hora, estávamos na sala. Eu, a francesa, Bolivar e Lorenzo. A casa era bem pequena e, quando alguém acordava e iniciava os trabalhos do café da manhã, ficava praticamente impossível não despertar com o barulho da louça.

Matamos a fome inicial com alguma larica que não lembro bem qual foi, e em pouco tempo assistíamos à “Tenacious D” comendo massa à bolonhesa e bebendo coca-cola. Quando o filme acabou, finalmente o Perna falou o que já deveria ter sido dito há algum tempo: “será que tem onda?”.

Ligamos a câmera ao vivo de Kirra no Coastal Watch e assistimos a um tubo de 5 segundos pixelado pela baixa qualidade de imagem do pequeno player na tela do notebook. Ficamos loucos. Não tenho certeza, mas, acho que depois desse tubo ao vivo na câmera do surf-report, não levamos mais de 10 minutos para empacotar quatro pranchas, roupas de borracha, parafinas, quilhas, leashes, toalhas e partir rumo ao superbank. A ressaca parecia ter ficado pra trás. Parecia.

Quando fizemos a curva no morro de Kirra as ondas beiravam 8 pés. Dois metros bem servidos com séries maiores, pra nenhum local botar defeito, com tubos de areia estourando com força total sobre a rasa bancada. O mar estava difícil. A crowd insana da semana agora multiplicava-se por dois, se tratando de um sábado de altas ondas. A própria onda não facilitava em nada, engolindo a si mesma a cada série que apontava no horizonte e se chocava contra o point de direita mais badalado dos anos 90, tido como extinto até dois anos atrás.

Fui rápido ao colocar o short manga curta e em poucos minutos já estava contornando Greenmount rumo à pedra de Snapper Rocks. Kirra é a última seção do superbank, e uma corrente fortíssima tende a tirar qualquer um do pico muito rápido. Por esse motivo a entrada sempre é mais indicada em Snapper. Uma vez no outside, é só deixar-se levar até chegar no final da bancada onde, nesse fatídico dia, tubos de 6 pés sólidos me aguardavam como um moedor de carne aguarda um filé sem osso, a fim de transformá-lo em guisado.

Entrei sem problemas e fiz exatamente o que pretendia desde o início. Poupei a pouca energia que havia restado da noite anterior e deixei a corrente ir me levando para baixo ao longo da bancada. Num piscar de olhos, já estava ouvindo o barulho ensurdecedor dos lips de mais de meio metro de grossura rangendo ao explodir contra a base das ondas. Senti um frio na barriga, era Kirra.

Quando passei pela frente do molhes de pedra que marca o início dessa mágica sessão, senti medo. A primeira série que entrou tinha, facilmente, 3x2. Três metros de altura por dois de largura. Quero dizer, uma onda com um tubo tão largo quanto alto, onde talvez não coubesse um micro-ônibus, mas tranquilamente um fusquinha amarelo.

A crowd era como uma praga sobre a água. Um formigueiro aquático. Uma guerra, onde o silêncio só era quebrado pelos gritos “oi oi!” de quem vem na preferência de mais uma bomba. Decidi que se não remasse logo em alguma craca, logo passaria batido pelo melhor lugar para dropar e perderia o timing junto com a chance de tirar um tubão seco.

Remei para minha primeira onda, achei que estava dentro e procurei a prancha com meus pés. Ela não estava ali. Tudo foi tão rápido que despenquei de orelha na base da onda. A fração de segundo entre a tentativa do drop e a pancada da onda pareceu durar uma eternidade, quando finalmente senti a sensação que todo mundo acha legal descrever nos filmes de surf. A famosa “máquina de lavar”. Virei pelo menos 3 cambalhotas embaixo d’água, perdi a noção de onde era o lado de cima e vi estrelinhas antes de emergir com uma puxada de ar similar a de alguém sofrendo um ataque cardíaco. Puxei a prancha pela cordinha o mais rápido que pude, mas a maldita não vinha por causa da força da água segurando-a em direção à praia. Quando finalmente apontei o bico para o outside e preparei a primeira braçada, o inevitável aconteceu. Mais uma série entrou. Tomei na cabeça e sofri a pancada como uma garotinha virgem nas mãos de um africano sádico. Mas consegui voltar.

Sentei na prancha ofegante e senti alguns olhares da crowd na minha direção. Mais uma série já aparecia no horizonte e comecei a remar contra a corrente tentando contornar o maior número de cabeças possível a fim de ficar na preferência para a próxima onda. Ela veio menor, com cerca de um metro e meio, mas ainda mais cavada. Dropei novamente no ar, mas dessa vez mais bem preparado, consegui manter os pés no deck e corrigir a linha já sendo encoberto por um tubo escuro. Dei duas passadas e saí seco. Molhado, mas seco. Como um pedaço de pano molhado sacudido ao vento.

Apontei o bico para a praia e ouvi o som da onda fechando às minhas costas. Hesitei por um segundo, dividido entre aproveitar para sair da água de uma vez já que havia passado pelo melhor pico devido à corrente, ou mergulhar fundo e tentar retornar ao outside. Pulei da prancha furando a superfície e escapando por baixo da espuma. Dei sorte e a série parou por tempo suficiente para que eu pudesse me posicionar mais uma vez. Nessa hora encontrei o Perna. Ele estava tão adrenalizado quanto eu, e demos algumas risadas medrosas antes de algumas novas linhas surgirem lá fora.

Meus braços já doíam muito devido à falta de energia por causa da noite anterior, e eu ainda tinha que ir tocar no Darcy Arms novamente dali a duas horas. Decidi pegar a saideira mas, como sempre, bastou essa decisão para que as ondas parassem de vir na minha direção. Levei cerca de meia hora para conseguir achar outra, uma fechadeira que me fez botar reto e ir com a espuma até a beira.

Saí exausto e sem conseguir nem falar direito. Os músculos gritavam em silêncio e me avisavam que a caminhada de volta até o carro seria longa e lenta. Assim foi. Não sei bem como, conseguimos guardar tudo e dirigir de volta pra casa.

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