Um dia de cada vez

Laïs Aguiar
Nov 3 · 3 min read

Quando parece que tudo é um desperdício. Parece que nada adianta. Nos dias ruins, cultiva o que te conecta com a vida. Nos dias ruins desobedece os médicos e vai fazer o que te faz sentir vivo. Há sete anos ouvi algumas das coisas mais duras que já ouvi na vida. Perder pessoas amadas virou pouco perto da dor que aquilo me fez sentir, emocional, e dor física. Doía todos os dias.

Há sete anos posso dizer que começou uma jornada. Num momento ruim da vida, achando que não podia piorar, veio o lúpus. Raiva? Tristeza? Não conseguia nem pensar, era muita febre, era muita dor. Existe um tanto de dor que começa a fazer a gente questionar se continua aqui. Um tanto de dor que começa a enlouquecer a gente, que a gente faria qualquer coisa pra ela sumir.

Foram três anos difíceis aqueles, mas passou. A última esperança funcionou, e foram mais três anos vivendo aproveitando a vida que aquilo me deu. Eu ganhei uma segunda chance.

Há nove meses começou de novo. Há nove meses “seu lupus descompensou”. Começaram as acusações, todos os médicos me culpam por ter piorado. Todos os médicos fazem questão de lembrar do UM erro… Como seria possível viver de forma perfeita? Até parece que eles nunca erraram ou esqueceram um detalhe. Voltam os pensamentos, voltam os questionamentos. Será que vale mesmo tudo isso? Eu não aguento mais, meu corpo não aguenta mais. Meu corpo rejeitou a última esperança. Meu corpo não aguenta mais os tratamentos. Meu corpo já não sente mais dor direito, meu corpo já está me pedindo pra parar. Minha menta já planejou, vários jeitos várias vezes. Minha mente já me fez deixar tudo pronto. Meu corpo já tentou e continua tentando…

Existe esse discurso do guerreiro, romantizam o sofrimento, romantizam e minimizam os doentes. Duvidam de mim o tempo todo, questionam todas as minhas decisões.

Eu queria que cada um acordasse todos os dias com a dor que eu acordo, se não testariam de tudo pra fazer parar. Se não pensariam com desespero pra fazer parar.

Há algumas semanas minha mente só consegue pensar uma frase “Cansei, eu quero descansar” e não me deixam porque “você é uma guerreira”. Obrigada, mas não. Eu penso em desistir todos os dias, e tem dias que eu desisto sim. Tem dias que a dor é suficiente pra eu não conseguir sorrir, que a dor é suficiente pra me fazer não querer me mexer, ou até pra acabar de qualquer forma com ela. Não pode falar disso né…. Você não entende como é viver assim, você não entende o que é ser alvo de PENA dos outros, mesmo quando está tudo bem… Você nunca sentiu dor o tempo todo por meses, você nunca chegou nesse ponto de desespero. Meu corpo não se gosta, a sociedade não gosta dele. Hoje, o mundo não quer que eu exista, e meu corpo tem acreditado que não deveria existir. Não é só uma coisa interna, é tudo dizendo que você não é benvindo, que você é inadequado. Mas “não desiste, falta pouco”. A última esperança falhou…

E agora? Não sei, tento segurar os pensamentos um dia de cada vez…

Laïs Aguiar

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Estudante de engenharia elétrica até eu avisar.

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