De fogo em fogo nossa história vira cinza

Em momentos como esse muitos espertalhões aparecerão, muitos oportunistas, muitos caça cliques. Mas não se engane, não politize esse evento, não caia na pegadinha tacanha que os abutres querem te pregar, o que aconteceu ontem não foi culpa do presidente X ou do governo Y, o que aconteceu foi o reflexo mais lamentável e cruel de uma sociedade política e civil que despreza a ciência e o conhecimento.
Não foi a PEC do teto de gastos que matou o maior e mais antigo museu da América Latina, décadas de descaso politico o fez, se Temer congelou os gastos, todos os outros antes dele ignoraram o investimento público em cultura antes disso, nem prestigiarem o museu faziam, durante as festividades de 200 anos do museu pouquíssimas autoridades publicas convidadas compareceram (o último presidente a visitar o museu foi JK), porém foi só a primeira labareda ser noticiada que os abutres políticos apareceram aos montes, uns culpando a “esquerda comunista” outros a “direita jacobina” esquecendo-se que estão no poder a décadas, pelo menos desde 1889 quando esse pais passou a existir como uma república.
O Museu Nacional foi só o maior golpe que tomamos no campo histórico e cientifico, não foi o primeiro e infelizmente não será o último, em 2014 o próprio museu nacional quase fechou por falta de verbas, em 2010 a coleção do Butantã foi destruída também por um incêndio, o maior acervo de serpentes do país deixou de existir, em 2011 foi o palácio da praia vermelha que ardeu em chamas (só de prédios sob responsabilidade da UFRJ, temos um incidente grande por ano), em 2015 o museu da língua portuguesa, em 2013 o museu do Ipiranga foi fechado, e no melhor dos cenários só reabre em 2022 só para citar alguns casos do descaso nacional com a cultura e propagação de conhecimento científico.
Aos montes apareceram os candidatos e políticos dizendo “vamos reconstruir”, isso só evidência ainda mais o despreparo que esses senhores possuem para tocar uma nação, apesar de histórico e extremamente importante para o país o prédio e só é isso um prédio, um museu não é feito de suas paredes de alvenaria ou de seu teto em telha portuguesa o museu é construído pelo seu acervo, pela pesquisa feita em seu interior, pela geração do conhecimento, como vamos reconstruir isso, onde acharemos outra Luzia, que sobreviveu 12 mil anos, mas não o descaso brasileiro. Onde encontraremos os fosseis ainda não catalogados que estavam sendo estudados lá ou a coleção de pterossauros mais completa do planeta?. A maior coleção de meteoritos do país, as relíquias de Pompéia que sobreviveram ao Vesúvio porém ontem por ironia do destino e descaso brasileiro foram consumidas pelo fogo.
Não se engane, não vamos reconstruir, foi uma perda inestimável de material para o Brasil e para Humanidade, afinal a coleção de múmias do antigo Egito era maior que a coleção do próprio Louvre. No máximo vamos reconstruir o prédio e colocar la o que conseguiu ser salvo por funcionários e bombeiros com as próprias mãos antes do fogo tomar conta de tudo e doações que por ventura venham a aparecer, mas o bruto, aquilo que possuíamos de inestimável jamais será recuperado. Li um relato de um Arqueólogo especialista em pterossauros, que dedicou os últimos anos de sua vida a pesquisa e conhecimento científico dizendo que não saberia se hoje sua profissão ainda existiria, dado que mais de 60% dos fósseis desse tipo estavam lá.
A mágica da humanidade é justamente o acúmulo e armazenamento de conhecimento, é isso que torna possível a evolução a passos largos. Foi isso que possibilitou que Isaac Newton formulasse o que formulou, pois antes dele houveram outros homens e mulheres que descobriram e documentaram. Museus são parte fundamental dessa engrenagem, neles estão guardados nossos pequenos tesouros, cada pequena descoberta é exposta para que o “humano comum” possa contempla-la. São em ambientes como esse que a pequena faísca da ciência pode se iniciar em uma criança. São ambiente assim que ajudam os professores a mostrarem o que foi discutido de forma abstrata em livros. São justamente os museus que nos lembram de nossos erros passados e esfregam em nossa cara nossas falhas para que não voltemos a comete-las.
Nosso mercantilismo nos faz ter preferências por áreas do conhecimento com direto uso no mercado, como os calculos, química, as engenharias e os sitemas computacionais, e outras matérias ditas “de exatas”. Precisamos expandir nossa mente e entender que os assuntos “de humanas” são tão importantes quanto, de uns tempos pra cá passamos a odiar história, geografia, sociologia, filosofia e tantos outros assunto vistos como de menor importância. Ora se a engenharia nos permite construir estruturas colossais, a história nos explica o que faziamos, a geografia explica onde faziamos e quais as relações políticas nisso, a sociologia explica porque nós como sociedade fazemos o que fazemos, e faziamos o que foi feito. Antropologia, Filosofia e tantas outros campos do conhecimento ajudam-nos a entender melhor de fato quem realmente somos, como povo, como espécie, como indivíduos.
Como dito, não é de hoje que esse descaso vem acontecendo e lendo/ouvindo os discursos dos que estão no pleito para a próxima eleição o cenário nao parece animador para a cultura e a ciência no Brasil. Com exceções de pequenas e rasas inserções de “iremos investir na educação”, “não podemos deixar a educação como esta”, “escola em tempo integral”, nenhum candidato apresentou propostas reais e concretas nessas áreas. Com certeza após esse impacto o assunto vai dominar a pauta de todo mundo como ferrenhos defensores da ciência brasileira, os famosos “engenheiros de obra pronta”.
O exodo intelectual do país, que ja era grande, tende a se acentuar e quem pode culpar um pesquisador que viu os últimos anos de sua vida arderem e toda a dificuldade enfrentada virarem pó de querer desistir do país que ja desistiu dele a tempos.
A nós, resta prosseguir, não espere que os políticos façam a parte deles, o que não farão, pelo menos não da forma como tem que ser feita. Se você apoia a ciência e a cultura, participe dos movimentos culturais de sua cidade, se solidarize com o amigo pesquisador, pare de fazer chacota com o bolsista mandando ele “ir trabalhar” (a pesquisa e o conhecimento construído é o trabalho). E visite todos museus a que possui acesso antes que eles virem cinzas.
Sobre o Museu Nacional, segue um vídeo criada pela propria instituição durante a campanha de 2015 para requalificação do Paço Imperial de São Cristóvão que abrigava o Museu Nacional e suas exposições
https://www.youtube.com/watch?v=adRCL1OMe3o
“E em nosso pequeno planeta, neste momento, nós enfrentamos um ponto crítico de nossa história: o que fazemos com o nosso mundo, agora, se propagará através dos séculos e afetará poderosamente o destino de nossos descendentes. Está bem dentro de nosso poder destruir nossa civilização e talvez a nossa espécie também. Se nos rendermos à superstição ou à ganância ou à estupidez poderíamos mergulhar nosso mundo em um tempo de escuridão mais profundo do que o tempo entre o colapso da civilização clássica e o renascimento italiano. Mas também somos capazes de usar nossa compaixão e nossa inteligência, nossa tecnologia e nossa riqueza para fazer uma vida abundante e significativa para cada habitante deste planeta. Para aumentar enormemente nossa compreensão sobre o Universo… e para nos levar para as estrelas.” — No episódio “Jornadas no Espaço e Tempo”, oitavo da série Cosmos: A Personal Voyage em 1980 (Tirada do site Universo Racionalista)
