A incerteza é a chuva fria da madrugada

Não querendo ser dramática. Drama em excesso é o tipo de coisa que me afasta, como quem acaba de tocar a panela escaldante. Sem romantização desnecessária, falo disso com a maior frieza que consigo encontrar.

Aparentemente, de uns tempos pra cá a vida tem se resumido a incertezas. Mas, tudo bem, a tendência é piorar. Se antes tinha certeza da rotina, do horário de dormir, hoje nem mesmo posso afirmar se vou almoçar. Nada mais é definido. Nem mesmo é possível predizer as próprias atitudes diante de situações ordinárias ou extraordinárias (por sinal, qual o critério exato que põe este prefixo “extra-”? Como se faz para viver num mundo mergulhado no extraordinário?).

Ao mesmo tempo que a incerteza é atraente, ela é tapa na cara. Nesse relacionamento nem um pouco saudável, é possível ter um leque infinito de possibilidades a cada novo momento do dia: se nada está garantido, nada está proibido. Entretanto, à menor distração, ela se transforma em melancolia, em fracasso, em medo. Sempre nas madrugadas.

Uma janela aberta em altas horas da noite pode registrar algumas coisas. Um carro acelerado, uma conversa ébria, brisas geladas e grandes tempestades que ninguém vê, porque todos dormem. Na maior parte das vezes, porem, não passam de chuviscos. Estes não chegam a causar desordem, nem mesmo chegam a inspirar poetas e sonhadores. Mas estão ali. Constantemente. Tornando o caminho de quem se aventura e se arrisca nas calçadas bem mais desconfortável. Essa chuva fina, que está presente para todos e perceptível para poucos não dói, mas também não conforta. A incerteza é a chuva fria da madrugada.