A vida maior que a arte

Conversa de bar. Ontem, verão. Os outros estavam ébrios. Em algum momento — e como iniciamos um assunto será sempre um mistério de bar — comecei a falar sobre minha obsessão por Arthur Rimbaud.

É um pensamento que me vem constantemente, e às vezes sinto a necessidade (a pulga, a ponta de língua) de conversar sobre isto: largar a poesia, partir para a Abissínia, tornar-se um comerciante de armas, fazer dinheiro, ser um homem.

É muito comum que, ao se descobrir que Rimbaud deixou a poesia aos 21 anos, o queixo caia e que se diga com estupefação: que loucura! Creio que disse isso quando fiz a descoberta. E lembro que julguei a escolha de Rimbaud como uma fuga. Talvez ele tivesse ido longe demais, fundo demais; e decidiu parar porque a poesia tornara-se insuportável.

O que de mais evidente ele deixou para nós foi sua poesia. Isso é certo. Um artista. Atravessou os anos, atravessará os séculos. Seu dom era o da poesia. Abandoná-la, portanto, seria uma fuga do seu ser-verdadeiro, o ser-poeta. É o que muitos pensam.

Em uma carta de Rimbaud muito famosa, intitulada “Minhas pobres namoradas”, ele fala sobre os limites da poesia em seu tempo. Não esqueçamos que ele viveu em meados do século XIX.

As mulheres ainda eram impedidas de fazer muitas coisas. Rimbaud acreditava que só quando as mulheres pudessem fazer poesia — e para isso acontecer seria necessário um mundo em que as mulheres estivessem em condição de igualdade com os homens — a poesia seria liberta. Portanto, era preciso uma mudança profunda, revolucionária. O status quo era o homem. Para a mulher, em contrapartida, existia a possibilidade, ou seja, a abertura necessária para um caminho novo. Rimbaud percebeu ali a fresta para a poesia passar. E talvez ele também tenha percebido que essa passagem era inevitável. As mulheres teriam que transformar as coisas por si, para si.

Durante sua adolescência, período da vida em que somos amorfos, flexíveis, indefinidos, Rimbaud escreveu sua poesia. Ele tinha liberdade para isso. Ainda não era um homem. Ali, acredito, ele estava próximo das mulheres, que embora tivessem para si papéis bem definidos dentro da sociedade, por elas estarem na sombra, na penumbra de dentro de suas casas, seus contornos não eram claros.

Pensei o seguinte: Rimbaud abandonou a poesia porque precisava tornar-se um homem. Se acreditarmos nessa conjectura, reconheceremos em Rimbaud um respeito imenso. Primeiro, um respeito pela poesia, já que ela não poderia ir além se fosse feita por um homem (o homem status quo). Segundo, um respeito pela vida. O que era a vida de um homem naquele tempo? Viajar, explorar, trabalhar, ganhar dinheiro. Foi o que ele fez. Partiu e começou a vida. Não foi uma fuga. Foi uma entrega. Rimbaud conhecia as profundezas da linguagem, das imagens, dos sentidos. Um artista. Mas era preciso algo além da arte. Algo, ele entendeu assim, como a vida. A vida que existia para um homem naquela época. A vida dos negócios, a vida do comércio. E essa afirmação da vida talvez tenha sido uma de suas contribuições mais importantes.

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