O futuro incerto do Edifício São Pedro

Entre as modernas edificações da orla, janelas que miram o mar, corredores que dão para o nada, o Edifício São Pedro resiste e seu atual estado entrega: ali já foi lugar de muitas histórias. Cláudia Belarmino, funcionária pública que residiu no local e atualmente mora no interior do estado, conta que o prédio foi parte de sua vida, e, não só da dela, como também da de Izabel, estudante de ciências sociais, que lembra a época que morava de favor no apartamento do tio e o contraste que tinha a pobreza de sua família com o luxo do local.
Izabel chegou ao prédio quando tinha seis anos, em 1994, e relata suas memórias no local, uma das mais fortes, é que saía, junto com seus irmãos, apertando a campainha dos vizinhos para confirmar o que haviam lhe dito: que nenhum apartamento era igual ao outro no São Pedro. As memórias são inúmeras, e a antiga moradora torce para que os resquícios destas, assim como o prédio, sejam preservados.
No filme “Aquarius”, a personagem Clara vivencia o terror de ser ameaçada para sair de seu lar, num prédio à beira-mar de Recife. A construtora que era dona dos outros apartamentos do local lhe ameaçava, fazia de tudo para expulsar a única moradora que ainda resistia lá. A história de Clara não é distante da de Cláudia, que viveu durante 17 anos no Edifício São Pedro e, em seis destes, lutou na justiça pelo direito de morar no local.
O edifício, que foi inaugurado em 1951 pela família Philomeno Gomes, era um hotel muito conceituado, com o restaurante “Panela” em seu térreo. O “Iracema Plaza Hotel” virou um local de muito requinte, frequentado por artistas e pessoas de elevada condição financeira, como exemplo, já hospedou o trio da Jovem Guarda: Wanderlea, Roberto Carlos e Erasmo. Nos anos 80, o serviço do hotel decaiu, o prédio ganhou um caráter habitacional, e foi morada de personalidades cearenses, como o jornalista Lúcio Brasileiro e o cantor Ednardo.
Atualmente, a pressão imobiliária constante para que os resistentes esvaziem o local e o impasse em seu tombamento dificultam ainda mais a situação futura do prédio. E, se o naufragado navio Mara Hope tivesse olhos, miraria o Edifício São Pedro, que seria seu espelho, só que num mar de asfalto e concreto.
