“Faço parte dessa gente que pensa que a rua é a parte principal da cidade”

Lianne Ceará
Sep 4, 2018 · 4 min read

Ontem, assisti a peça “Os Realistas” lá no Cineteatro São Luiz, bem no centro de Fortaleza, na Praça do Ferreira. Quem me conhece, sabe o quanto adoro o Centro, observar as pessoas que lá estão e, ainda não tinha andado por ali à noite, mas vi, como já esperado, pessoas negligenciadas colorirem a praça. Crianças que se sentiam em casa porque ali é, realmente, a casa deles, brincando de roda. E uma porção de pessoas que acreditam, assim como eu, que “a rua é a parte principal da cidade” – parafraseando Leminski, fazendo caridade e alegrando a noite daquelas pessoas. Pois bem… em contrapartida, lá dentro do São Luiz, todos privilegiados, fazia frio mas ainda assim estávamos cobertos por um teto e quatro paredes(ricas em detalhes).

Eu sempre acreditei que teatro era fundamental, sempre fui apaixonada, lembro, inclusive, de quando assistia peças pelo Youtube, mas nunca gostei, por acreditar que teatro é essa coisa de contato, de proximidade, do ambiente e de entender o espaço. Depois, tive um contato direto com isso e graças ao meu professor de literatura Daniel Vidal e Kayque Ferreira, pude compreender mais ainda sobre isso. Pratiquei o teatro mesmo sem nunca ter ido à uma peça teatral de fato… irônico, não? Quando vim morar em Fortaleza, prometi pra mim mesma que iria abrir todas as janelas que morar no interior havia me posto alguns degraus para abrí-las.

Enfim, depois da peça ontem, foi feito um debate com os atores de Os Realistas, peça de Will Eno, e nesse debate, muitas questões foram lançadas e respondidas, tanto pelo público quanto pelos atores. Passei a admirar mais ainda Debora Bloch(uma pessoa que sempre me aproximou da arte e de pessoas incríveis. Desde que me entendo por gente…) e o Guilherme Weber(que, mesmo tendo feito o Albano em Tempos Modernos, tem toda minha admiração), eu percebi que além de profissionais incríveis, são pessoas de uma grandeza enorme de intelecto(sem deixar de serem humanos, porque acontece: pessoas de intelecto enorme e a humanidade minúscula) e isso me fascina, me prende! Entre essas questões: a importância do teatro sair do eixo Rio-São Paulo; de fazer teatro em todos os espaços, até na praça!; de todo mundo poder fazer e assistir teatro(inclusive tinha um grupo de cegos que faziam teatro assistindo à peça ontem); da aproximação dos atores com o público e vice-versa; dos investimentos do Governo à Cultura… e mais que isso: todos ali queríamos ver o mundo mudar e pareciam todos acreditarem que era possível e mais ainda com a arte! E eu faço parte dessa gente! Graças a Deus!

Logo depois que saí da peça e do debate, extasiada com as pessoas que conheci, com os relatos que ouvi, com as colocações feitas, com o aprendizado que levei, vi a notícia do Museu Nacional em chamas no RJ. E lembrei da discussão sobre a importância do incentivo à pesquisa(justo na noite que eu pude perceber que em todos os lugares eu estava vendo minha atual pesquisa, e isso é bom! É maravilhoso!), à cultura… e tudo que a gente havia dito e ouvido fez sentido. Nosso Governo negligencia nosso povo, subtrai a própria nação, infla o ego dos que estão no poder, deixa nu os que já não têm privilégios, congela os gastos de setores que são o pulmão do país, de um povo. E enquanto esse povo acreditar que é com armas que se resolve, vai continuar tudo errado e dando errado. Enquanto esse povo for acolhedor mas não for racional, vai tudo dar errado. E a culpa é do povo porque o povo é que é o patrão dos políticos. E os políticos também são povo. E as pessoas negligenciadas também são povo. Enquanto a gente conseguir falar “pela minha família” e não “pelo povo”, vai tudo dar errado. Enquanto a gente conseguir pensar no nosso umbigo mas não conseguir pensar nos umbigos que sentem frio e fome, apenas virar o rosto, vai estar tudo errado. E sempre tá errado nesse país! E a gente culpa tudo,’ menos a gente. Mas a culpa também é nossa.

Já chorei um bocado mas eu prometi que esse ano eu não morro. E sou grata às pessoas que me trazem à vida. A arte me traz à vida. Ler me traz à vida. Pesquisar me traz à vida. Adquirir conhecimento ou ver uma peça teatral por puro prazer estético(não que isso não me adicione conhecimento) também. E enquanto a gente não enxergar o quanto tudo é importante vai continuar dando errado. E eu sou grata, Debora, Guilherme, Emílio e Isabel. Obrigada por me terem trazido a arte e à vida. E eu sou grata pela possibilidade de enxergar tudo exatamente como enxergo, porque se não fosse assim, louca seria!

Escrever também me traz à vida. Por isso escrevi tanto. Desculpem-me.

Estudante de jornalismo, escrevendo porque é isso que me traz à vida e me tira do abismo. Querendo o mundo e sonhando muito...

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