Cem vezes quis matar-me, mas ainda amava a vida.

Venho sido estimulada pelo prazer; e nada mais. A existência consome qualquer paz de espírito momentânea. Pensar demais é cansativo, supor demais é cansativo, e temo estar tomando as vias da loucura. Vivo sempre ao aguardo do próximo episódio que me excita, das suas próximas palavras que me estimulam, da melancolia que faz-me doer o coração e te ansiar. Viver em mártir do prazer tem me tirado parte da lucidez.

Suicídio nunca invadiu minha mente de forma densa. A vida é uma grande incógnita, é irracional, talvez não seja tudo. Merda nenhuma faz algum sentido quando a questão é a existência. A morte é um grande convite a algo novo, não consigo concebê-la como o fim. O fim de nossas consciências, ao menos. O fim de nossas almas. Não creio que se dê junto ao fim de um pedaço de carne frágil que apodrece por terra.

Não temo não ser lembrada. Todos que algum dia poderão lembrar-se de mim morrerão. Não temo o esquecimento porque todas as lembranças tornam-se turvas, e logo, perdem a veracidade.

Não cogito a morte porque quero dar fim à dor que sinto usualmente, afogar-me em minha desgraça mental e partir não me é um convite agradável. Anseio pelas sensações, efêmeras e nunca suficientes, e temo nunca mais sentir algo novo, apenas versões menores do que já senti.

É estupidamente egoísta, mas meu próprio fim é indiferente. Não vejo porque causaria dor em terceiros. Talvez cause, entretanto, não consigo ter certo nível de empatia sobre.

Não é meu fim que me assusta; é o seu. Venho buscado por você inconscientemente. Temo dizer que você vem sido tudo que anseio cada vez mais.

Quando quis por fim à sua vida, cogitei matar-me.
Você foi a única forma de morrer que esteve à altura.


Keaton Henson, You don’t know how lucky you are.

“Cem vezes quis matar-me, mas ainda amava a vida’’ e ‘’Nunca mais sentir algo novo, apenas versões menores do que já senti” são citações de Voltaire e do filme Her, respectivamente.

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