São seus olhos

Já repararam como geralmente quem faz selfie demasiadamente, ou é exageradamente bonita ou é uma pessoa desprovida de beleza? Comecei a pensar nisso por causa do meu irmão do meio, que é o mais bonito de nós três lá em casa. Ele ama uma selfie. Ama. É uma relação recente que vai de vento em popa. Só que teve uma fase que quem não amava ele de jeito algum era a câmera. Assim, não é que a câmera não amasse, tinha um carinho, dava umas alisadas, mas dava pra ver que precisava colocar os dois juntos prum papo mais íntimo para as coisas entrarem nos trilhos novamente. Lá em casa, aliás, a gente tem esse leve problema de falta de fotogenia. Chega a ser injusto que a foto não reflita a nossa boa genética.

Mas voltando ao meu irmão bonito. Nessa fase dele fazendo DR com a foto, foi também a fase mais intensa de uso da câmera frontal. Era uma coisa assustadora de tão obcecada e eu comecei a analisar se a compulsão não era mais uma questão de esperança desvairada, sabe? E pra completar, eu me sentia super mal por estar achando que tinha alguma coisa diferente nele. Porque realmente, eu moro longe, só nos vemos via fotografias ou video conferência, ele é O meu irmão bonito e se nem ele estava mais sustentando essa posição com glória, fiquei imaginando que pra mim a coisa devia estar muito pior.

Isso me levou a pensar nas pessoas feias de verdade obcecadas por selfie. Elas se proliferam como mosquito na luz. É uma descrença impressionante no que estão vendo na tela. Estou falando da pessoa feia, feia mesmo, sem juízo de valor de qualidade nenhuma, feio pobre, feio rica. Feio burra, feio inteligente. Feio engraçada, feio tesudo, feio porre, feio corta barato. Estou falando de pessoa feia que é unanimidade para além das outras qualidade e defeitos. E elas estão em toda parte, e quanto mais feias, mais selfies elas tiram. Baseada na experiência com a breve, exageremos, feiura do meu irmão, uso a mesma teoria para elas: elas não param de tirar foto pois uma hora uma mágica vai aparecer e elas vão se olhar e finalmente dizer: aha. Ufa.

Mas claro que tem também o maníaco bonito, o maníaco golden rule, a pessoa simétrica, que trabalha com a beleza no mesmo nível que trilhardário esfrega carro banhado a ouro nas redes sociais. Essa pessoa é sádica com certeza, não faz sentido, não acredito que queira se afirmar como os invejosos gostam de dizer. Na minha opinião, a ultra-exposição da beleza não é falta de auto-estima; é pura ostentação. Inclusive, pode reparar que a pessoa mediana, a que nem é feia nem bonita, é a mais confortável de todas. Quase não tira selfie, faz aí a sua pesquisa e vem bater papo depois.

Sobre meu irmão, a questão que tirava a fotogenia dele foi resolvida assim como apareceu, junto com a mudança da estações. Um dia assim, do nada, vi uma foto dele e tive um estalo. Fiquei nostálgica e não sabia o que era. Foi como se eu tivesse finalmente o visto depois de uma viagem longa, sabe? Falei com minha mãe sobre isso e foi ela que iluminou a questão:

“É que o aparelho que ele está usando finalmente resolveu o problema no maxilar, o rosto dele voltou ao normal”.

Depois que ele “ficou” (nunca deixou de ser) bonito de novo, as selfies começaram a rarear. Uma coisa que reparei é que não tem mais aquela brincadeira com ângulo, as fotos estão num enquadramento normal, selfie normal, sem filtro, pois ele agora voltou a ser bonito sem truque. Ele é ele de novo, e sabe. Isso é outra coisa que pessoa feia esperançosa faz: ângulo. Eu sei disso, pois sou uma pessoa que não tem uma boa relação com as lentes e como toda pessoa esperançosa sem fotogenia, eu não me considero feia. “Uma hora a coisa vai”, penso no centésima clique. Minha mãe deve saber de tudo, mas prefere não comentar pra me preservar. Outro dia, ouvindo minhas lamúrias, ela me disse que me acha bonita de todo jeito. Mãe é mesmo uma coisa abençoada. Mesmo assim, por via das dúvidas, vou seguir os passos do meu irmão e parar de adiar a minha visita ao ortodontista. Vai que maxilar problemático é o percalço na minha falta fotogenia também.