
Café com Jung
Uma coisa engraçada sobre sonhos é que, pode reparar, às vezes é mais atraente possuí-los do que vê-los realizados. Claro que talvez essa seja uma percepção muito individual, no caso minha mesmo, já que eu sempre fui muito pragmática com as coisas fora de alcance. Tinha o que pode ser feito agora, e o que a gente coloca lá em cima na última da última prateleira, tão alto que, para pegar, é preciso abrir aquela escada que a gente não tem, nunca comprou, deixando tudo ainda mais difícil, o que no meu caso está tudo bem, sou fera na arte de procrastinar e nada combina mais com meus sonhos que uma certa dose de falta de planejamento.
Mas sei lá o que foi que houve com 2015, que de repente começou a gritar lá de cima da ladeira: — “sai da frente que eu vou com tudo”, sem freio e sem esperar permissão. E é preciso dizer, eu não sei pensar sob pressão. Depois até que me organizo direitinho, monto listas, faço diagrama, divido planilha nos drives da vida com quer que esteja no bonde. Tudo dá certo, sabe? Mas só depois. Então quando vem uma coisa que seu eu lá de trás, dos seus 15 anos, dos seus 20, delirou até a beira da loucura, você faz o quê? Você espera o carro desenfreado de prontidão tal qual um vagabond prestes a pular em cima do trem cuja promessa é descortinar o país inteiro com você em cima, anônimo, porém livre.
De vez em quando, e ultimamente tem sido mais forte isso, pois tenho refletido muito sobre a efemeridade de tudo em um sentido muito mais palpável do que espiritual, pois bem, de vez em quando eu penso se existe algo que eu possa fazer para mudar minha constituição ou se eu já estou marcada com alguma flor de lis existencial; todos os caminhos levam a Roma e os ditados não existem à toa, antes mesmo de Deus ser Deus, vamos combinar, já tínhamos nossa dose de histórias pra contar, e é porque elas existem que também existimos. Desculpe avisar, mas esse lance de originalidade, por favor. Não adianta muito tentar desviar, sabe? E já que esse texto está cheio de clichês, vou ter que invocar a imagem da serpente comendo o próprio rabo, nesse eterno retorno que marca nossos arquétipos pessoais. Eu sou quem sou, aparo uma aresta aqui, ali, mas a não ser que eu esteja tentada a fazer parte de algum experimento maluco de melhoria genética, não tenho muito para onde correr, não é mesmo?
Como eu estava falando, em 2015, pra 2016, a areia ficou mais fina e as paredes mais lisas e eu ia cair, não tinha outra alternativa (esse texto está cheio de metáforas), a mudança não espera, que fique a lição. E que quem me puxava era ele, o infame do sonho adolescente que eu nunca dei muita bola em lapidar, planejar, sonhar de fato. E por fato, quero dizer me ver, me colocar no cenário, travar diálogos internos, decorar cenas de filmes, saber os clássicos, quem fez o que, o que fazer quando eu estiver lá no meio do lugar, vou trabalhar onde? Vou frequentar que ambiente? Qual será a minha turma? Todo esse etc que pfff, eu não fiz, porque meu arquétipo é o náufrago, isso eu descobri no último ano escolar e foi um professor que tirou essa carta de tarô no meio de uma aula de geometria, na frente de todo mundo, diga-se de passagem. Acho que ele estava mais frustrado comigo do que com vontade de me humilhar, pois era claro que eu tanto prometia, o problema era que o destino é muito forte e o meu estava claro; amanheceria sem fôlego na beira mar enquanto a embarcação se perdia da vista com muito champagne a bordo e vestidos que até hoje me dão certa inveja (os vestidos, que a bebida eu já dei um jeito de me afeiçoar às mais baratas).
Por isso não soube bem como foi que cheguei até aqui, mas eu vim. O problema é que demorou demais, demorou demais e a poeira está assentando e eu não estou conseguindo ignorar que já é o segundo grande movimento da minha vida que eu quis que acontecesse, mas que eu não fiz por onde. Aí você me diz: — mas que puta sorte, hein? E eu sei que a gente não se cansa de ver a Gisele Bündchen e sua lição de positividade e alegria de viver, dando dicas de como devemos nos agarrar às oportunidades independente de quais sejam elas, de sorrir acima de tudo e de fazer o trabalho com profissionalismo e retidão, só que eu sou uma criatura de hábitos, e eu não só estou acostumada a morrer na praia como eu também carrego comigo esse eterno desejo de mudar, e aqui vou parafrasear um bilhete que recebi no meu primeiro ano de faculdade de uma amiga (guardo até hoje, pois nunca vi nada mais profético do que essas palavras):
- Por que mesmo quando acontece alguma coisa boa você continua triste?