Contente at last

Toda manhã, quando vou em direção ao metrô, o porteiro do prédio da esquina me vê e diz bom dia. Isso tem 4 meses. Há quase um ano eu caí e quebrei os dentes da frente na portaria desse prédio, onde o cara que sempre me diz bom dia trabalha. Eu atravesso a frente do edifício e cruzo com esse porteiro sorridente que nunca esquece de me cumprimentar, assim como eu nunca esqueço que há quase um ano, no dia 30 de dezembro, escorreguei e caí, quebrando a metade de dois dentes.

É engraçado que dois seja um número tão pequeno e metade disso outra unidade ainda menor para caber qualquer coisa grandiosa que seja, pra caber qualquer grande entendimento que seja, mas quando caí de cara no chão e levantei, meu primeiro pensamento, além da percepção dos pedaços a menos na minha boca, foi que eu estava diante do começo de uma história que tinha começado muito antes. Saber onde exatamente é esse início é a jornada que eu escolhi não percorrer. Achar o final dela é o mistério que ainda não consigo evitar. Praticar estar entre um momento e outro foi o que me restou para manter a sanidade.

Entre supervalorizar a perda de dois dentes e perceber que existem travessias muito piores, acabei sem saber lidar direito com meu lugar nessa experiência. É parte do processo. Existem dores maiores, mas para realmente saber disso, é preciso entender a própria dor. Não sofri violência, não perdi autonomia física e, mesmo assim, um luto. Sabendo que me levantava banguela da queda, achei um pedaço marfim estilhaçado no chão e choraminguei como uma criança: “meu dentinho”. Meu marido pegou da minha mão pra ver e logo jogou fora, desatento da importância daquele souvenir. Essa parte foi mais difícil que o acidente em si.

Eu estava andando quando caí. Não teve aviso, não teve obstáculo, não teve uma pedra, não me empurraram, não esbarraram em mim, não desviei do mal humorado ensimesmado, da mulher carrancuda, nem de ladrões, nem da polícia, nem de cowboys. Não teve a quem ou quê culpar. Só eu mesma; a desatenta, a merecedora de castigos, a menina que não se comporta, a mulher que não age como lhe dizem, aquela que inventou de andar dando pulinhos como uma criança feliz na calçada gelada.

“Não pense que você vai escapar daqueles dias em que disse repetidamente que viver não tinha mais tanta graça assim”.

Talvez eu tenha ficado feliz tarde demais.

Cair de cara no chão não chega a ser um clichê, mas todo o insight advindo da queda é. E sem economizar em lugares comuns, além de entoar gratidão antes de dormir em um som um tanto sibilante (nunca mais minha voz foi a mesma), seis meses depois, e ainda orbitando em um certo trauma, fechei o ciclo em um retiro de meditação com foco em atenção plena e silêncio por sete dias, onde descobri, além de outras coisas, o meu privilégio: a mente inteira, o corpo são, o dinheiro e o tempo de estar em uma sala no meio da cidade grande para aprender a enxergar além do meu próprio umbigo. Para politizar os privilégios do meu umbigo. Para fazer as pazes com meu umbigo. Ou ainda, e o mais complicado, esquecer dessa coisa chamada umbigo, afinal, esse texto é sobre dentes.

Todo dia quando passo na portaria onde escorreguei e caí, e o porteiro me cumprimenta, passo a língua por dentro da boca e percebo, assustada e confiante, que não sou a mesma. Sorrio de volta e me pergunto se ele sabe que eu sou a mulher, que no dia 30 de dezembro do ano passado, caiu na frente do prédio que ele trabalha, quebrando dois dentes. Um detalhe tão pequeno, ninguém jamais vai perceber. Ainda bem que eu não esqueço.

Viver é desses mistérios que não têm soluções sedimentadas. Às vezes dá pé e você que não vê. Às vezes não dá pé, mas você vai mesmo assim. O que é certo é que cair é um resultado possível para as duas perspectivas. Resta a nós descobrir como levantar.