Hipocrisia é muito pior que vandalismo

Eu entendo a pessoa não querer aderir à greves, respeitar o direito de se fazer greve, entender o que é o direito de greve, mas não querer aderir a nenhuma greve. Estou dando voltas, né? É que eu só aprendo assim, repetindo o raciocínio. De novo, a pessoa compreende do que se trata a greve, mas não quer fazer greve. Simples. Está no seu direito, é claro. Eu respeito essa pessoa. Acho que é isso mesmo. Se eu fosse desenhar democracia, esse seria um bom exemplo.

Mas aí vem outra criatura, que supostamente também entende o que é uma greve. Estou usando supostamente porque estou falando de gente que tem um background bom, de estudo, de livros, de intelectualidade, de viagem, de debates filosóficos, de arte em casa. A tal da vida privilegiada, que, tudo bem, sabemos, não GARANTE esclarecimento, nem empatia, e olhe que eu nem quero falar de empatia, pois a palavra gastou antes de se chegar ao sentimento (o que é uma sacanagem). Mas, voltando, vem essa pessoa que é tudo isso aí, viu tudo isso aí, e faz questão, como já estou envolvida com repetições, vou continuar, faz questão de overshare coisas louconas, louconas, tão louconas, sabe?, que fica complicado achar o fio da meada.

Digo, ser contra a greve não desqualifica a greve. Não tem argumento que alguém tente desenvolver que prove isso. De novo: ser pessoalmente contra a greve, não desqualifica o direito da greve, o histórico de conquistas de uma greve. A NECESSIDADE DE UMA GREVE. Gritei. Desculpa. Vai ver quem está louca sou eu. Quer dizer, eu sei que estou, porque sou “esquerdopata”, como pão com mortadela todo dia, sei lá o que mais se diz, mas se eu não fosse, vamos supor que eu fosse fitness, bafuda do low carb, como entender a necessidade de alguém em propagandear livremente coisas que não passam disso: propaganda?

Claro, claro que temos propaganda (ler com sotaque gringo) em tudo que é lado. Claro, claro que sindicatos estavam lá, sindicalizando. E aí a gente fica querendo mudar o foco, dizendo, "olha lá a bandeira da CUT, bando de vagabundos". Acho sindicato complicado mesmo. Eu mesma questionei a necessidade de pagar aquela cota anual, quando chegava a baixa no meu contracheque. Era um desfalque que doía. Mas povo, quero saber do povo, se não for nas ruas, onde será? E se não tiver um pouco de, digamos, destruição, como chamar atenção? Vandalismo, coisa e tal, é um problema. Sério? Tem coisa pior, vai, pra gente se indignar. Depredamento do capital, bicho? Se a gente vai ficar dando ponto desnecessário nessa trama, vamos considerar outras coisas antes, por exemplo, a parcialidade da lei, a exploração da mão de obra, a violência da polícia ( que como instituição a gente odeia, mas aí tem o camarada, o humano ali dentro que a gente precisa acolher também, que está contando os centavos também, tem família, também um trabalhador do mesmo sistema falido). Enfim. Muito complicado, é cansativo, mas é um caminho possível de percorrer, eu juro. Não que minha palavra garanta nada.

Na minha bolha de privilégio, não vi um do contra dependente de CLT. Quer dizer, vi sim, mas dava pra ver de onde a pessoa estava olhando tudo, gente que tem mais medo do que vontade de pensar. Aquela coisa da rede bobo… não quero falar dessas pessoas. Fiquei mais interessada na retórica das que ASSINAM a carteira de trabalho. Não, antes que me digam que tenho raiva de gente rica, ou inveja, não é por aí. Volta o foco. Essa pessoa não é inimiga também, mas dá pra entender que ela vê as coisas de um lugar diferente? Rola falar de “lugar de fala” aqui? É que desse grupo, não vi ninguém com medo de perder emprego por causa de idade, ganhar menos por ser mulher, por ser preta, por não ter pós na FGV, pois é caro fazer pós na FGV, por nem conseguir entrar na faculdade, terminar o ensino médio, por, sei lá o que mais se tem que fazer pra continuar garantindo uma vida eterna de trabalho.

Até quem desmerece movimentos populares com hashtags variadas, tipo, sei lá, "greve pra quem?" o faz com a regalia do poder fazer, mas não se trata disso, né? Não é ele contra você. Eram eles contra o governo. Agora, se alguém tem, em algum momento, um interesse em jogo, eu acho isso ok. Eu só acho que tinha que ter mais honestidade. As medidas te beneficiam e você está satisfeito? Tudo bem. Fim da história. Mas gerar um conteúdo, desculpa, babaca, escuso, pra justificar um ponto de vista que tem o prisma do seu interesse, é covarde. Como diz Caetano, é "por demais forte, simbolicamente, pra eu não me abalar".