Mamilos

Já tem um tempo que eu quero escrever sobre a inveja. Não dá pra negar que esse sentimento é tipo uma constante na vida de todo mundo e eu acho que não deveria ser a balança para medir nosso grau de "bondade" (que, vamos combinar, é dos conceitos mais complexos que existem).

-Ah, você sente inveja? Pessoinha pequena você, hein?

Inveja é um negócio tão mal visto, porém tão real, que teve até uma moda de assumir, porém amenizando com descarado racismo: “tenho uma super inveja branca de você”.

Eu sempre detestei isso. Eu, aliás, detesto moralismo. E me irrita que muita gente confunda moralismo com caráter, quando o último, a meu ver, tem mais a ver com a ideia universal, maleável e evolutiva da busca existencial do que uma fantasia impossível de vestir em nome da moral e bons costumes (fico enjoada só de digitar essas palavras).

Sendo assim, free inveja. Tenho mesmo. Tenho inveja de um monte de coisa, apesar de estar cada ano mais confortável na minha pele e feliz e realizada. E mesmo assim, tenho inveja da popularidade do meu irmão, que é tão querido que pode postar um cocô no grupo da família que todo mundo vai ignorar. Tenho inveja do meu marido, que está de fato abrindo os caminhos na vida profissional em outro país. Tenho inveja da minha amiga que come que nem um operário sem engordar nem um grama (saudades de pular de bar em bar contigo). Tenho inveja de quem simplifica a vida, dá a cara à tapa, de quem acorda e faz, de quem publica livros. Sinto inveja de quem já fez um safari, de quem tira ano sabático pra dar a volta ao mundo, de quem larga a cidade e vai tentar uma vida mais simples. De quem cumpre lista de resolução de fim de ano (estou há uns 8 querendo fazer um curso de fotografia e mais uns 5 ensaiando um mestrado). E sim, dentre todas as emoções que aparecem quando uma amiga fica grávida, eu também sinto in-ve-ja.

Inveja é uma coisa real, todo mundo sente. Mas eu entendo que seja polêmico, que soe como uma fraqueza. No popular, a gente benze as crianças contra ela, proteje relacionamentos contra mau olhado ou recorre a alguma superstição quando conquistamos algo grande. Sabe o tal adesivo, foi Deus quem me deu?

Ninguém quer um caldo entornado na própria felicidade, muito menos ser responsável por agourar os outros (tá amarrado!). Mas vê só, se eu não falo com esse sentimento naturalmente, como falaria com minha gratidão, com minha resiliência, com minha generosidade, com meu senso de justiça ou com a alegria de ver o outro feliz? Tudo isso ficaria falso, pois só apareceria em detrimento de eu não querer o que não é meu. Ah, ela trocou de carro, mas o meu ainda é melhor. Ok, não tenho inveja.

Se eu não assumo que sou humana, tudo que eu fizer vai ser uma compensação e não uma manifestação natural das minhas diversas facetas, que podem ocorrer, pasmem, simultaneamente. Feliz pelo coleguinha porém com inveja dele? Sim. Grato por tudo que tem porém com inveja da grama do vizinho? Hunrun. Ou ainda, naquela relação de amor e ódio com alguma celebridade digital que fala um monte de besteira e que mesmo assim, está conseguindo mover o (próprio que seja) mundo? Também. Aliás, isso é mais comum do que se imagina, né? Quando a gente age como se estivéssemos criticando, mas no fundo estamos o quê? Invejando.

É claro que eu não escrevi isso tudo para fazer uma ode a esse sentimento que se não for bem administrado pode só causar problemas. Não é para passar o dia nas redes sociais stalkeando a prima da avó da assistente de alguma Kardashian e achar que essa vida de admiração aka inveja é normal. Não é porque esse sentimento deve ganhar a luz do dia que agora vamos fundar a Igreja da Inveja - mesmo que estejamos todos, de alguma forma, invejando Deus o tempo todo ;)

Meu ponto é, e aqui eu apelo aos clichês, olhar o monstro de frente até ele parar de assustar. Como boa verdade universal e comprovada, essa ditado aí funciona em 99% das vezes. Aquele 1% são as baratas. Que a gente morre de medo e inveja, vamos combinar. Quanto poder que as bichinhas têm!