
never look down
Quando eu conheci Lanusse, achei que tivesse também conhecido o Los Hermanos. Eu me recordo claramente de descobrir a banda através dele, de como a banda foi algo que permeou nosso namoro. Lembro dos inúmeros shows que fomos com carinho e também com a deferência de algo nosso. Depois, já no Rio, nos descobrimos vizinhos de prédio de Marcelo Camelo, que pra completar, compartilhava conosco o serviços de D. Laura.
Da história da minha vida, eu, que sou alguém que gosta de detalhes, que se apega a eles, que guarda a memória como quem guarda tesouros, esse capítulo com a banda era um que baseou muitos passos até aqui. São quase 15 anos com meu marido, uma pá de tempo que eu vivi CERTA do meu storytelling pessoal. Mas olha só que louco; nessa minha passagem por João Pessoa, enquanto revia meus diários em busca de histórias de amores passados, tentando achar motes, respostas, entender melhor quem eu fui, como amei, essas coisas, eu descobri que um dos namoricos que tive começou em um show de quem? Dos los hermanos, no antigo portal das cores.
Foi um namorico breve, quase insignificante, eu ainda tinha avô, ainda tinha amígdala, tinha 19 anos e nunca tinha sido traída por amiga nenhuma, o que não vem ao caso. O que vem ao caso é que eu bloqueei essa informação e isso me assustou. Também me faz pensar que não temos controle, nem domínio de nada. E mesmo assim, andamos por aí certos de tudo, ansiosos por pertencimento. Cada vez mais, pode reparar! Até os patropis da vida estão certos de quem são, veja só que falta de poesia. A minha curiosa descoberta me fez pensar que se eu não posso confiar nem na minha memória, considerando assim que o futuro pode ser fruto de uma ilusão/ficção pessoal, porque não posso relaxar um pouco quando formulo as ideias do presente?
Essas crenças todas que temos nas coisas, a força com que defendemos nossos ideais, a paixão com que proclamamos que amamos frio, odiamos calor (sei que pra muita gente é o contrário — foi uma provocação), que somos vegans, fazemos yoga, consumimos conscientemente etc, o que está por trás dessas etiquetas?
Um dia desses li uma coisa por cima, não me aprofundei, não cruzei dados, não perguntei por aí, eu apenas li uma frase solta fora do contexto que mexeu comigo. Foi sobre o veganismo e dizia que o movimento era apenas mais um produto capitalista. Fiquei bolada. Se você ficou bolada também, mas no caso comigo que OUSEI falar mal do seu estilo de vida, fica calma. Eu só achei que vale pensar nisso. Vale se perguntar no tanto de autonomia que temos sobre as coisas, no tanto de consciência que nós temos de verdade quando decidimos por isso e não aquilo. Porque a gente anda numa vibe de bandeira forte, né? É cada bandeirona mais alta que a outra.
Tem até bandeira da bandeira. É a cobra comendo o rabo. É o astronauta olhando pra bolinha de gude que tem outro astronauta dentro da bolinha olhando para outra bolinha e para outra bolinha e para outra bolinha. E eu só quero entender quando é que a gente vai passar dessa fase, deixar a bolinha cair e olhar pro céu.
