Non creo en brujas

Eu tinha uma superstição. Mesmo sem ser uma pessoa levada a coisas do tipo: passo por baixo de escadas numa boa e amo gatos de qualquer cor. Mas depois de algumas experiências empíricas no campo existencial, saquei que precisava formular uma estratégia de “proteção espiritual”. Não que eu necessariamente acredite nisso. De uma forma geral, eu tendo a achar que os rituais tem mais uma função de neurotizar a nossa rotina do que nos libertar. Mesmo assim, eu comecei a não falar certas coisas que quero, sinto, com medo que elas não fiquem mais disponíveis ou que elas se transformem depois que eu revelar o que são.

Não sou a única.

Dia desses uma amiga só não contou mais sobre um projeto que estava envolvida porque “dava azar falar antes da hora”. Ela bateu na madeira e tudo. Eu me senti genuinamente sem curiosidade sobre os planos dela, pois agora também sou dessa turma que guarda as coisas pra si. E só não bato na madeira por pura falta de hábito. Mas me identifiquei, pois estou tão resguardada com tudo, que nem no meu diário tenho escrito sobre sonhos que quero proteger. Esse ano não fiz a tal lista de resoluções, por exemplo. Tenho me preocupado mais em só reportar o que se passa, pra tentar influenciar o mínimo possível na narrativa da minha vida. O interessante, e é disso que se trata esse texto, é que foi não criando nenhuma expectativa sobre o futuro que o futuro começou a se desenhar. Foi não pensando no que eu desejo que o desejo começou a tomar forma. Foi aí que deu vontade de registrar o que pode ser que esteja acontecendo, mesmo correndo o risco de jogar essa nova energia na corrente de azar a partir do momento que eu verbalizar do que se trata.

Querido diário, hoje eu descobri que talvez seja feliz.

E eu acho uma loucura esse lance de ser feliz. Porque felicidade não é aquilo que eu sempre achei que fosse. Não que eu soubesse como seria ser feliz, se teria fogos, se eu nadaria em dinheiro, se eu perderia o medo de morrer, se eu ia andar por aí flutuando, coisas do tipo. Minha felicidade não tem nada disso. Ela não trouxe nada de novo, ela é um clichê ambulante, pois tudo continua igualzinho, apenas que agora tem um brilhinho que de vez em quando aparece pra dar um olá. É uma lente. Me sinto arrogante, confesso. Como eu ouso estar assim tão confortavelmente desconfortável? Cada vez mais desconfortável, diga-se de passagem. O mundo, uma maluquice. O diálogo cada vez mais complicado. Como eu vou colocar no meu diário que, mesmo assim, eu sinto essa liberdade loucona?

Fale brevemente sobre você.

Sucesso, aqui em NY, tem um significado muito mais opressor do que aquele que eu aprendi. Fico pensando se talvez não foi isso, se não foi a impossibilidade de agradar padrões que eu vi que o melhor a fazer era só ficar bem. Ser feliz com o que eu tenho. E para ser feliz com o que eu tenho, eu percebi que estava até agora sem saber de verdade o que eram essas coisas que eu possuo. Coisas etéreas. Aquilo que tenho para oferecer. Uma aula de ESL na biblioteca central do Brooklyn pode ser mais filosófica do que se imagina. Foi quando eu entendi que esse tempo todo eu estava procurando entender a vida do lado avesso.

Não curto o lema do foda-se.

Não acredito nele. Não acredito no limite do meu perímetro corporal, energético. Se eu mando algo ou alguém se fuder, se eu crio um inimigo ideológico, eu acho que vou acabar me transformando nele; o que por vezes acontece, imagina não mandar um reaça pra aquele lugar? É por isso que não acredito em mal olhado, inveja. Não que essas coisas não existam, é só que elas têm a ver com quem sente. Sendo assim, porque não queria nem pensar no quanto estou feliz? Medo de deixar de ser depois que o verbo ganhar som? Medo de deixar de ser no minuto seguinte, como se falar fosse o fim da jornada? Ou era medo de ser desmascarada? Será que eu estou mesmo feliz como digo?

Pero que las hay las hay.

Nem sempre. Nem sempre mesmo. Quando comecei a escrever eu me sentia de um jeito que não é mais realidade. Mesmo assim, acho que estou extra high de ter descoberto uma felicidade possível. Que vai e volta. Que não está lá no futuro, atrelada a conquistas, principalmente materiais. Não está atrelada à possibilidade ou não de eu engravidar, publicar um livro, ter um sítio. Está apenas aqui, no meio de um caos miserável, me deixando lúcida. E eu acho que isso merece ser dito. Com um pouco de medo, sim, mas com muita curiosidade com o que está por vir, eu:

Verbalizo

Reberbero

Silencio.