prólogo

*Sonhei que estava defronte ao prédio que morei, no Bairro Peixoto, conversando com minha antiga vizinha sobre a visita espontânea que eu estava fazendo. Perguntei a ela se alguém já estava ocupando minha ex-casa quando descubro que não, que a proprietária ainda não havia colocado o imóvel no mercado. Pedi a chave ao porteiro, sr. Zé, para eu dar um pulinho lá e matar a saudade, mas sr. Zé, com medo de contravenções que poderiam acarretar na sua demissão (quem pode culpar?) não cedia ao meu apelo. Acabei tendo que escalar as paredes do edifício quando já estava escuro, na surdina, e de repente não era mais a mesma construção, não como eu lembrava, porém continuei sentindo o mesmo entusiasmo de quem estava por descobrir onde o tesouro da memória se escondia enquanto escalava com certa facilidade os 3 andares. Quando pulei a janela e adentrei a sala, percebi que estava tudo igual, como se eu nunca tivesse saído dali ou despachado meus pertences para um quarto na casa onde funciona o escritório do meu pai, na Paraíba. O meu lar flutuando no tempo, me arrebatando sensações contraditórias entre a nostalgia e o abandono. As coisas continuavam no lugar: os meus livros nas estantes, os objetos que recolhi como talismãs e espalhei pelas prateleiras, tudo jazia onde foram colocados pela última vez, minha caixa de aviamentos, minhas fotos, dava para sentir o peso do tempo parado, das coisas que não estão sendo usadas e isso me comovia tanto… eu então decidi que precisava recolher o que conseguisse, pois a essa altura já sabiam da minha invasão e estavam prestes a me retirar dali. Encontrei uma mochila e comecei a selecionar o que era mais importante e poderia ser carregado sem dificuldade. Mas agora eu já estava naquele estágio do sonho em que não dava mais pra distinguir o que é matéria, o que é invenção da mente dentro da mente sonhadora, tenho a impressão que nesse momento eu já não estava mais “vendo” nada que me pertencesse de verdade, acho que eu misturei o cenário com outras casas que já tive ao longo da minha vida. Lembro de ter tentado salvar um banco de madeira, um móvel rústico que nunca tive, junto com uma mochila que não vejo desde o final de 2005, quando viajei até a Chapada Diamantina para rever minha família depois de um ano de saudade. E aí eu acordei.

Sonho que se sonha de olhos abertos

O acaso é esse milagre subestimado. Enquanto anseio pelas coisas maiores: o sucesso na carreira, a iluminação espiritual, amar meu corpo, a casa própria, a saúde intacta, o amor correspondido, ele acontece quase que sorrateiramente, tímido, silencioso, pronto para não ser reparado, disposto a passar despercebido enquanto acontece diversas vezes, o tempo todo, como um algoritmo que calcula para eu ver, em toda página que navego, aquele item que pesquisei ontem à noite: “botas à prova d’água”.

Na internet, escolada e digital e do tempo do mirc, gosto de achar que sei como tudo funciona, que posso ignorar o anúncio do sapato, que estou fora da curva como consumidora, que sou consciente, tenho vontade própria e sou dona das minhas escolhas. Mas será que desligo o modo de operação ao lidar com os pequenos sinais dessas “janelas” que se abrem vida real? Gosto de pensar que sim, mas nem sempre, talvez cada vez menos. Talvez não se trate de conseguir de verdade um estágio equilibrado, talvez seja apenas nunca mais puxar a tomada: pra-ti-car.

Cada vez mais percebo que não é uma questão de fazer um esforço além do necessário, de dançar a ciranda das árvores milenares ou correr em volta das fogueiras sagradas com o fogo de Prometeu. Para ser atingida pelo acaso é preciso ser, estar livre ou, pelo menos, querer experimentar a liberdade. E o que é ser livre de verdade hoje em dia? Eu ainda não resolvi essa equação.

Que permeia aquilo que conecta meus sonhos ingênuos, minhas vontades despretensiosas: encontrar o autor que estou lendo enquanto ainda pairo na névoa das suas palavras, dividir o mesmo ponto de vista curioso, rebelde, humanamente justo, com alguém que mal conheço, experimentar a sensação de não estar só quando me emociono na frente de uma obra de arte, quando desconstruo um preconceito, quando sou ofendida e não me atinjo, quando me apaixono de novo pelo mesmo homem, quando um cachorro estranho lambe minha mão enquanto espero o sinal abrir, quando faço uma nova amizade no exato momento que termino o romance da vez.

Dia desses, quando eu dava uma risada satisfeita no final do Linha M, de Patti Smith, esse livro que só “aconteceu” agora pra mim porque apenas essa semana, 8 meses depois de ter imigrado para NY foi que comecei a me despedir do tempo que ficou pra trás, conheci James, fotógrafo da Marie Claire, que não disfarçou sua curiosidade e quis bater um papo sobre o que eu tinha achado da história. Dividimos umas risadas sobre as polaróides da autora, falamos sobre nossas viagens, o que gostamos de trazer de lembrança, e, claro, compartilhamos o mesmo sentimento de como ela é uma heroína e de como seu relato era poético, sincero e inspirador. Ele me disse que não conseguia parar de pensar no tempo que ela dedicava ao que mais gosta de fazer: escrever. E eu falei que tinha ficado tocada com a relação dela com a memorabilia, pois sou também alguém muito ligada às pequenas coisas como uma forma de marcar minha história pessoal. Conversamos por 5 estações.

Ser nômade tem disso, é preciso ligar a chave do desapego e dar adeus aos objetos de uma vida que se coleciona para servirem de âncoras quando na solidão, quando no medo, quando nas alegrias e, principalmente, para nunca esquecer a vida dos que já não existem mais. Não trouxe comigo meus pequenos tesouros, fato que me deixou um pouco desnorteada nessa adaptação na cidade nova. E, mesmo sabendo que no mundo há tanta gente passando por processos imensamente mais significantes, dolorosos até, de completa reviravolta material, existencial, física, vejo que é entendendo essa pequena partícula do que sinto que eu conseguirei respeitar ainda mais o que me cerca.

Mas as pessoas ficam, elas (re)aparecem, elas provam que conectar-se de verdade é o nosso portal para o paraíso perdido, o éden molecular dessa existência extra-terrestre. Elas é que fazem os milagres acontecerem. Principalmente quando nós não estamos esperando. Foi o acaso que me ligou à história de Patti Smith e, de quebra, me ofereceu boas risadas e observações em comum com uma pessoa aleatória em um banco do metrô na cidade de NY.