Trovões
As lágrimas se misturavam com a água fria que saia do chuveiro.
A sensação de sufocamento era cada vez mais eminente. O corpo, numa tentativa de sobrevivência, ia se encolhendo e ocupando, assim, um pequeno espaço no banheiro.
O celular vibrou. Olhei desesperada esperando que fosse uma mensagem dela, mas não era. Era uma notificação de um evento no Facebook. Respirei fundo com um pouco de dificuldade e tentei voltar ao normal sem sucesso. Tentei lembrar o que tinha acontecido anteriormente para ocasionar a crise que estava passando por mim. Notei que não tinha uma coisa apenas que desencadeou aquilo, foram muitas coisas, e assim simplesmente aconteceu.
Diferente das outras crises, ela não estava ali comigo, ela estava distante. Horas antes eu e ela tínhamos discutido por conta do passado. Podia até ser algo bobo, mas o que aconteceu acabou tendo uma grande importância.
Com o tempo, o chuveiro foi perdendo cada vez mais a potência, estava ficando frio ali. Levantei-me, enrolei-me na toalha e o desliguei. Sai do banheiro com a água pingando dos meus cabelos, molhando o caminho todo. Sentei no chão do meu quarto, puxando meu notebook para perto. Pensei, enquanto ligava o computador, em escrever alguma mensagem pedindo desculpas por algo que não lembrava de ter feito. Mas o orgulho dentro de mim não queria deixar. No fundo eu queria me distanciar dela, pois eu sabia que nosso relacionamento tinha uma data de validade, e essa data tinha chegado. Porém eu gostaria que ela vencesse o seu orgulho. “Quantas vezes ela faria isso por mim?”, refleti. “Nenhuma, e não vai ser agora a primeira vez”. Voltar atrás agora seria complicado. Rever meus conceitos e meus ideais para manter um amor que mais doía do que reconfortava era uma coisa impossível.
O notebook finalmente ligou, digitei a senha e a primeira coisa que apareceu quando a tela desbloqueou foi uma foto nossa juntas. Era difícil, aquilo era passado e não havia como voltar atrás. Respirei fundo novamente, juntando todo o ar que meu corpo conseguia segurar e abri o navegador. Cada letra que eu digitava eu sentia como um corte na alma. Era como se cada tecla fosse o ponteiro de segundos do relógio, e cada vez que eu digitava o relógio ia andando mais rápido, para mais longe do que fomos um dia.
Abri o WhattsApp Web e mandei um simples “oi”. Apesar de ter sido ela quem errou comigo mais cedo, eu ainda gostava dela, e queria ela falando comigo. Eu via o contato dela online, mas mesmo assim, demorou 9 minutos para ela me responder. Perguntei como ela estava e se eu poderia fazer algo, porém ao mesmo tempo em que eu queria mandar a mensagem a minha cabeça gritava “não! não mande essa mensagem para ela! é ela quem deve perguntar sobre você, e até agora ela não se importou de fazer isso”. A resposta dela me parecia indiferente, e senti que a perdi naquele instante.
Não havia mais como. Então, simplesmente fechei o notebook, encostei na cama que molhou quase que instantaneamente com o meu cabelo, e tentei fazer com que toda aquela dor que soava como trovões num céu de agosto fosse esquecida para conseguir seguir em frente.
