Dia desses, depois das discussões sobre a ausência de mulheres na premiação de Angouleme e de negros no Oscar, amiga minha “desabafou”: “ai, tou de saco cheio desse politicamente correto. Eu sou mulher e só quero ser indicada pra prêmio por causa da qualidade do meu trabalho e não por cotas ou qualquer merda do gênero”.

O que me faz pensar: como são feitas as listas e prêmios? Como você olha pra toda a produção artística de um ano inteiro e diz “vejam, aqui está o MELHOR de todos”? Quem faz isso?

Primeiro, falando de um ponto de vista extremamente pragmático e rasteiro, premiações e listas não são feitas pra celebrar o “melhor”. Elas são feitas pra celebrar egos e pra estimular o consumo.

Ser indicado a um Oscar é ganhar um selo de qualidade que pode dar um bom empurrão nas bilheterias. Agora, ganhar um Oscar não significa necessariamente que o “melhor” venceu, porque a definição dos parâmetros que fazem algo ser “melhor” (principalmente quando falamos de filmes, livros e quadrinhos) é, em última instância, subjetiva. Você pode dar mais valor à estrutura, à linguagem, à técnica ou você pode estabelecer uma escala de “relevância” onde a representatividade, as questões sociais, a reflexão são determinantes da qualidade. De qualquer forma, toda a sua argumentação acerca dos valores e da hierarquia desses valores vai se dar a partir da sua formação e dos seus interesses. E não dá pra dissociar isso do subjetivo.

Daí voltamos pra minha amiga indignada com a pressão das “cotas” no Oscar e em Angouleme. Ela argumenta que, se o trabalho for de “qualidade”, ele será escolhido. Diabos, o Milton Gonçalves falou algo assim também: não há negros no Oscar porque nenhum fez um filme bom. Jesus.

Posso dizer pra minha amiga e pro Milton Gonçalves que não há mulheres em Angouleme e negros no Oscar porque os seres humanos que escolhem os “melhores” julgaram que não há mulheres ou negros e negras “bons o suficiente pra preencher os parâmetros de qualidade estabelecidos por nós, que somos homens e brancos”.

Essas listas e premiações tem a função de estabelecer uma linha entre aqueles que são celebrados e os que não são. Entre aqueles que MERECEM ser celebrados e os esquecidos, ignorados, desvalorizados. E se paramos pra pensar, essas listas e premiações fazem muito sentido dentro de uma mentalidade que se baseia na crença de um mundo em que há pessoas que são melhores do que as outras e merecem mais. Mais atenção, mais respeito, mais dinheiro, mais alegria. E tem o resto, que não foi bom o suficiente pra ser indicado e que deve aplaudir e reconhecer o brilhantismo dos “melhores”. E limpar a casa, por a comida na mesa e fazer um boquete decente quando solicitado.

O problema das premiações e listas é o mesmo problema dos filmes, séries e livros. Toda essa produção cultural é feita em sua maioria por homens brancos, protagonizada por homens brancos e mostrando um mundo pensado por homens brancos. Onde há um protagonista homem branco que “vence” dificuldades e “conquista” coisas, como medalhas, empregos, reconhecimento, campeonatos pokemon, iates e mulheres. E essas obras e premiações não enxergam e não dão espaço pra outras visões de mundo.

Exercício de imaginação: vamos supor que pro Oscar de “melhor” animação desse ano, estivessem concorrendo apenas dois filmes. Vamos supor O Menino e o Mundo vai disputar sozinho contra o Divertidamente.

Divertidamente: animação da Pixar que mostra o drama de uma menina branca que está deixando a infância pra entrar na adolescência, quando seus pais se mudam e ela tem dificuldade de se adaptar. O “tempero” são as personificações de sentimentos como Alegria, Tristeza e Raiva que vão comandando a cabeça da menina e acompanhando as crises de amadurecimento. No fim, os pais decidem se mudar de volta e tudo acaba bem.

O Menino e o Mundo é uma animação sem diálogos que mostra uma criança crescendo. Ela começa num ambiente cercada pela natureza, com riachos e animais, e aos poucos vai tendo a cor e a alegria de sua infância sendo colocadas diante de coisas como a separação dos pais, a morte da natureza diante da industrialização, o trabalho, a miséria, a imundície e brutalidade da cidade grande. A inocência se perde e há muitas e muitas dúvidas se tudo acaba bem.

O Menino e o Mundo é um filme corajoso e forte de um jeito que as produções pausterizadas das Pixar jamais vão conseguir ser. Porque a Pixar não só mostra uma visão de mundo comportada como precisa evitar levantar qualquer questão ou reflexão por parte da sua audiência que envolva questões mais complicadas do que aceitar que precisamos deixar nosso boneco de pelúcia pra trás.

Imagine se Divertidamente tivesse como protagonista uma menina negra de favela que tem o pai assassinado pela PM. Por que não? Se você realmente se dispor a responder essa pergunta “por que não?”, você vai aprender muita coisa sobre mercado, indústria cultural e sobre você mesma/mesmo.

Agora, voltando à nossa situação hipotética: quem você acha que a Academia iria premiar? Divertidamente ou O Menino e o Mundo? E, independente do resultado, será que faria sentido dizer que o “melhor” venceu?

No fim das contas, voltando lá pra minha amiga: não, querida, premiações não tem nada a ver com qualidade. Elas têm a ver com política, com mercado e com relações de poder. Faz todo o sentido usarmos essas premiações e a produção cultural pra discutir essas questões de inclusão e de representação. É uma questão de disputas e você sempre está assumindo algum lado. Conscientemente ou não.

Se dá pra aprender alguma coisa de Divertidamente, é que uma hora a gente precisa deixar pra trás as fantasias infantis de “venceu porque era o melhor” e começar a aceitar que a coisa é bem mais complicada, rasteira e problemática.