Eu não nasci mulher.

Eu não nasci mulher. Nasci. Sem precisar de complemento.
E, então, baseados na ausência do cromossomo Y e na aparência física do meu corpo determinaram que eu era uma mulher.

Determinaram, mas nunca me disseram que eu jamais seria uma. A gente já nasce com essa missão impossível.

Sempre que vejo textos sobre o que é ser mulher eu me pergunto: alguém realmente sabe como é ser uma? Porque mesmo tendo nascido assim, o mundo sempre me ensinou a ser outra coisa.

Pra mim, nem mesmo as mulheres sabem o que é, de fato, ser mulher. Porque simplesmente fomos privadas dessa experiência.

Explico.

Mulheres já nascem sendo diferentes. Somos classificadas como mulheres antes de sermos seres humanos. Somos classificadas com mulheres, mas não nos dão o direito de ser mulher.

Dizem que ser mulher é lutar pelos seus direitos, mas, sinceramente, ser mulher é não precisar lutar por seus direitos porque eles já estão garantidos. E, infelizmente, eles não estão.

Dizem que ser mulher é poder fazer aquilo que quiser, ser o que quiser. E eu jurava que isso valia pra todos os seres humanos. Isso não é ser mulher, isso é ser gente e não precisa ser dito.

Não somos mulheres, somos seres lutando para sermos, de fato, MULHER. Porque mulher não é sinônimo do que temos agora. Não é sinônimo de meios direitos, determinismo, necessidade de aprovação, permissão.

Nenhuma mulher foi mulher.

Porque ainda não fomos mulheres como os homens são homens.

O mundo me ensinou a ser menos.

_ Vai lá, garoto, ergue essa cabeça, estufa esse peito e mostra quem você é!

Não me lembro de ter ouvido. Em compensação, perdi a conta de quantos “vai com calma, gatinha, tá pensando que você é quem?” eu ouvi.

Porque o mundo sempre me ensinou a ser menos. Tudo para que eu não conseguisse ser aquilo que ele disse que eu seria.

O mundo me ensinou que eu tenho que ter um pequeno corpo e caber dentro dele.

Aquilo que sou tem que caber no corpo que a sociedade quer que eu tenha. Eu não posso me espalhar. Limitaram fisicamente a minha alma.

Eu tenho que ter uma pequena voz. Pequena opinião. Pequenos direitos. Falar baixo. Pisar fraco. Me esconder. Ser menos.

E ainda me fazem me sentir mal quando ultrapasso os meus “limites”. É difícil viver assim.

Embora eu saiba que não tenho que ser nada do que querem que eu seja, ainda me pego me retraindo, falando baixo, com olhar inferior, consentindo. Como se fosse pecado ser eu. Sempre que eu me imponho eu me sinto nua.

Dar a minha opinião então, nossa, estou nua no Maracanã lotado.

Mas qual o mal em se sentir assim?

O mal é que uma mulher nua, nesse mundo doente, significa uma mulher vulnerável.

Você não pode mostrar o seu corpo sem que alguém tome posse dele, física ou moralmente. Seu corpo não pertence a você. Sua opinião não é sua.

Somos violadas diariamente de formas diferentes pelo simples fato de ultrapassarmos os limites que nos disseram para ter.

Limitaram nossa inteligência, nossa capacidade, nossos direitos, nossa opinião, nossa vontade, nossa vida. Limitaram o sentido de sermos o que somos.

Espero que um dia eu descubra o que é ser mulher. E que isso não seja pecado.