Fofinha.

-Ela tem 15 anos, é bem responsável, pode falar com ela mesmo.
Foi preciso meu pai pegar o telefone e falar com o atendente da pizzaria para que ele me levasse a sério.

-Ravioli e vinho tinto, por favor!
-Tem certeza que você é maior de idade?

Não foi aos 15, foi esse ano, 10 anos depois.

Só essa semana eu respondi a três “fofinha” com um “obrigada”, tomei como elogio e também acredito que essa tenha sido a intenção.

Cheguei em casa, fazia 37° na rua, fui jogar uma água no rosto, prendi o cabelo, parei por um segundo, me olhei no espelho, soltei o cabelo, prendi novamente, virei de um lado, virei do outro, me olhei de vários ângulos diferentes e pensei:

-Fofinha?

Falar que você é fofinha é comer pelas beiradas. E não te respeitar, nem te levar a sério e querer que você tome isso como um elogio.

Um dia um cara me disse: “A gente nunca daria certo. Você é tão fofinha que quando ficasse nervosa eu acharia graça”.

Claro! É ótimo quando você tá puta e nem isso a pessoa respeita. Amigo, ainda bem que não demos certo.

Até porque fofinha é uma coisa meio brochante. Meio não, completamente.

Eu me imagino tentando dançar pole dance parecendo a Kate Moss e a pessoa me vendo como o enfeite do retrovisor. “Que fofinha!”

Tenho culpa no cartório.

Dias desses, li no Linkedin o artigo Ainda precisamos falar sobre essa coisa de propósito para o que fazemos, do Murillo Leal e, mais do que profissionalmente, ele me abriu os olhos pra vida.

O texto é inteiro bom, mas a frase que me pegou na curva foi sobre o “medo de finalmente assumir-me responsável por tudo que construí sem perceber.”.

Eu acho que em algum momento da minha vida eu me senti com medo de assumir a mulher que me tornei.

Culpada!

Mas já estou formulando a minha defesa e, certamente, serei absolvida. Tudo isso porque essa culpa não é só minha.

Eu deixei de ser eu para ser fofinha no momento em que a sociedade não me deu outra alternativa.

Você sabe o que dizem de mulheres fortes, diretas, determinadas?

Te falo com um post que vi no Facebook há muito tempo e deixei guardado no meu celular, na pasta “é pra isso que eu pago internet”:

Sabe o que dizem quando você tenta tomar as rédeas da situação?
-Bossy!

Eu não quero ser grossa, nem bossy! O que é socialmente aceito?
Fofinha.

E então a gente se sente na obrigação de caber nos corpos que nos foram dados, “do jeitinho que o patriarcado gosta”. Mais uma mulher convertida em enfeite. Fofinho, mas não serve pra muita coisa.

Graças a Deus que um dia a gente acorda e perde esse medo. Assume a mulher que há em nós. Pode demorar? Pode sim.

Eu não sou uma mulher 100% empoderada, mas a cada dia chego mais perto disso e, quer saber?

Fofinha? Thanks, but no thanks.

Até você admitir que, nessa vida, meu bem, eu sou a fucking Kate Moss.