Morar fora não é ser um eterno turista.

Li a matéria em que a Presidente da SBPC diz ter vontade de recomendar aos jovens que saiam do país. Embora eu entenda o ponto de vista dela (de verdade), fiquei triste.

Fiquei triste porque estou vivenciando isso. Faz quatro meses que estou na França, e por isso posso garantir que morar fora está longe de ser um eterno turista. Sabe por quê?

Porque, quando você é turista, tudo é uma maravilha. Absolutamente tudo. Se eu tivesse voltado para o Brasil depois de um mês de França, certamente eu estaria escrevendo um texto sobre quantas vezes eu tropecei na rua porque estava olhando a maravilhosa arquitetura dos prédios ao invés de prestar atenção no caminho.

Sobre quantas vezes eu peguei o caminho mais longo só pra passar pelo maior número de ruas possível, ou então quantas vezes eu me perdi de propósito só pra ver pra qual vielinha charmosa de Paris a vida iria me levar. De como eles entendem o real significado de “calçada”, porque aqui elas são enormes e as pessoas têm o seu lugar nas ruas. De como eles são bem educados no trânsito.

Dos felizes dias que eu encontrava uma padaria nova com pãezinhos maravilhosos. Dos ótimos queijos e vinhos que conheci. Dos bares super estilosos que tive oportunidade de ir. De como as pessoas sabem viver, ir pro parque e não fazer nada.

Mas depois de 4 meses (que nem é muito), eu estou aqui escrevendo esse texto…

Sobre como a burocracia desse país é de matar, como o povo é frio e nada acolhedor, de como é difícil se comunicar, fazer amizades e criar laços, de como o ensino é quadrado e formatado, de como eles são patriotas de uma maneira exagerada e nada saudável, de como as coisas custam caro (já paguei 16€ em um ingresso de cinema, façam as contas), de como o metrô às 8h da manhã parece a linha vermelha do Metrô de SP…

Sobre como é ser tratado o TEMPO TODO como intruso.

Tenho 25 anos e essa está sendo a maior experiência da minha vida. Tenho que admitir que está valendo MUITO a pena. De verdade. Embora eu passe poucas e boas, tudo é muito válido e não me arrependo em momento nenhum. Mas sabe por quê?

Porque eu vejo, agora, meu país com outros olhos. Eu me dei conta de como o português é uma língua linda e como eu a negligenciei durante anos. Morei em São Paulo por 19 anos da minha vida e nunca fui ao Museu da Língua Portuguesa… Tem noção de como isso é ridículo? Eu me sinto em dívida com o meu país.

Eu me dei conta de que sempre reclamei da minha faculdade no Brasil, mas quando cheguei aqui o que realmente me ajudou foram os documentos que guardei desse período. De como é bom poder falar sem dificuldade, conseguir se expressar e se fazer entender sem que as pessoas te olhem como se você fosse burro.

Eu me dei conta de que nós, brasileiros, somos muito mais espertos em muitos aspectos. Desde cedo somos obrigados a desenvolver uma certa malícia e como isso nos dá uma vantagem de uns 5 anos em relação a outras culturas. Esse é um aspecto complicado, porque acho que nós nos perdemos em algum momento… Suspeito que seja quando endeusamos a Europa e continuamos olhando pro chão e nos colocando pra baixo, sendo que, não, temos um país lindo e temos que nos orgulhar disso.

Me dei conta de como o sorriso brasileiro é bonito. De como somos limpinhos. De como nossa comida é maravilhosa. De como somos acolhedores e muito mais empáticos do que muitas outras culturas (embora ainda estejamos engatinhando no assunto). De como é bom entender todas as piadas, conhecer as personalidades locais, falar a mesma língua.

Morar em um lugar é como relacionar-se com alguém. Você terá o melhor e o pior dessa pessoa. Isso não significa que seja legal deixá-la nos momentos de dificuldade.

Ok, mas e se essa relação for abusiva, em que só um lado se doa, só uma pessoa insiste? A gente sabe o quanto isso é complicado e quanto trabalho dá. Mas, nesse caso, sabe o que significa mudar-se, ir para outro país?

Significa lutar e trabalhar por uma pessoa que não te quer. Desculpa dizer, mas os outros países não fazem questão de você. Você vai ter belos dias de turista, vai se sentir em casa às vezes, mas terá também péssimos dias de intruso.

Então, Helena (posso te chamar assim?), eu sinto muito por todos os anos que você trabalhou e sente que não valeram a pena, por todo esforço que você colocou nesse país e te agradeço por isso. De coração: obrigada por todo trabalho que você realizou.

Juro que estou tentando seguir seu conselho. Em partes, a curto prazo, ele é bem válido. Mas, a longo prazo, eu preciso de um pouco mais… Eu preciso de um lar. E eu vou lutar para construí-lo. Isso inclui a felicidade de ser acolhida depois de um cansativo dia de trabalho, e também os infortúnios como trocar uma lâmpada queimada.

Lidia Amendola
twitter: @lidiaamendola | falo da vida, comida, política e do Benedict Cumberbatch.