Setembro amarelo: ansiedade, amor próprio e gente incrível

Eu, assim como 99,9% das pessoas que estão lendo esse texto e todos os seus amigos do Facebook, pareço uma pessoa normal, saudável e feliz. O que é verdade, até a página dois.

Eu sou ansiosa. Minha ansiedade não é seletiva, ela acontece com exatamente tudo e qualquer coisa. Eu ensaio pra comprar pão. Às 11h50 eu já não funciono mais pensando no almoço, pensando no que fazer depois do almoço. Eu almoço mais cedo só pra riscar o almoço da minha lista de afazeres. Antes mesmo de começar esse texto eu já estava pensando no que escreveria quando fosse compartilhá-lo no Facebook.

Eu sou louca, só que não… Eu sou só um ser humano mesmo.

Hoje, antes de tomar banho, me olhei no espelho como de costume e comecei a ficar satisfeita com o que via (comecei, olha que absurdo).

Meu corpo está longe de se encaixar no famigerado padrão de beleza, mas ele está voltando a ser o que era há algum tempo antes da minha ansiedade chegar no seu ápice e me fazer engordar uns 3Kg. Fiquei feliz com aquilo, mas não por ter emagrecido, mas por me sentir melhor e ver que meu corpo está respondendo a isso também.

Nesse período que passei ficando mal, ganhei peso, parei de falar com as pessoas, quase não saía de casa e não conseguia fazer nem 1% das coisas que precisava fazer. Eu fui tomada por pensamentos negativos e que faziam eu me culpar por tudo aquilo. “Você engordou porque é uma vaca gorda!”, “Você não escreve porque é burra”, “Isso é tudo culpa sua, você sempre estraga tudo!”.

Fui tomar banho e comecei a pensar em tudo que passei e o que eu tinha feito pra me sentir melhor. Logo pensei em escrever esse texto, mas queria que ele realmente fosse um texto verdadeiro, sabe? Eu queria escrever como se eu estivesse ainda naquela banheira e todos me pudessem ler como se eu estivesse nua. Quem apareceu? A ansiedade. Ela me disse que não conseguiria colocar no papel tudo que estava pensando, que seria impossível escrever um texto coerente com toda aquela confusão de pensamentos. Falei em voz alta: calma!

Tomei meu banho, fiz um café, sentei e comecei a escrever. E pra vocês verem que isso é real, que nenhuma frase desse texto está aqui só para preencher espaço:

Turning point do amor próprio.

Dizem que tudo na vida tem um “turning point”. Foi no dia em que eu tive um ataque de fúria.

Eu estava me sentindo gorda, me pesei pra me torturar, confirmei que, de fato, tinha engordado. O que eu fiz? Fui comer alguma coisa. Foi aí que eu percebi que eu estava me sabotando e fazendo de tudo pra me sentir ainda pior. Olhei pro que estava comendo e taquei longe. Gritei. Não era fome de comida. Era fome de uma vida completa. Fome de me sentir bem.

Sentei no chão da cozinha e me perguntei o que eu estava fazendo da minha vida. Me dei as mãos e prometi pra mim mesma que iria me tirar dessa. Prometi que seria mais gentil comigo mesma, que respeitaria mais meu tempo, meu corpo, minhas escolhas e aquilo que não podia mudar.

É fácil falar. Parece que a gente vai acordar no dia seguinte e começar a viver. Os pássaros estarão cantando, o sol estará raiando e aquela luz vai te invadir. Não é bem assim que acontece. É um processo difícil.

Acordei no dia seguinte. O dia não estava lindo, o sol não estava raiando e dentro de mim parecia chover, mas me dei as mãos e decidi que me livraria de todo aquele sentimento ruim aos poucos. Comecei limpando a casa. As cadeiras com as pernas pro ar, limpei tudo. Tudo! Abri todas as janelas, lavei todas as roupas, o chão estava impecável e eu me senti mais leve. Já fiz um texto sobre isso, sobre como mudar por fora nos ajuda a mudar por dentro. Limpar a casa foi o jeito que encontrei de externalizar a limpeza que estava tentando fazer por dentro.

Para as outras coisas da vida eu respirei. Com a casa limpa eu pude sentar confortavelmente com sensação de leveza, fazer um café e começar a escrever a tese do mestrado. Quando o ambiente ficava pesado demais eu saia. Ia escrever em outros lugares. Passei boas tardes em cafés e bibliotecas. Me permiti falar com as pessoas e me distrair um pouco entre uma página e outra. Me permiti comer um docinho pra dar energia pro cérebro. Respirei fundo uma, duas, três e mais quantas vezes foram necessárias. Continuo respirando.

Percebi que tudo está conectado. Eu não consigo ser feliz e consertar uma coisa se outras não estiverem em ordem. Percebi que a forma como eu via meu corpo por fora interferia em como eu me sentia por dentro. Me sentir mal com o meu corpo fazia com que eu estragasse todo resto. É muito difícil ser produtiva quando sua mente está ocupada pensando em outra coisa, no meu caso: “como você engordou!”.

Tá tudo errado, Lidia. Você não pode dar tanta importância pro seu corpo. Isso porque eu não me preocupo com o que as pessoas vão achar, eu me preocupo com o que eu vou achar. Nada pode ser pior do que o meu próprio julgamento. Eu me destruo muito mais do que qualquer pessoa. Logo pensei que as redes sociais estavam me deixando assim. Ver corpos perfeitos pra lá e pra cá, ver gente sendo feliz no feed do Instagram não estava me ajudando. Parei com tudo. Desinstalei os aplicativos do meu celular. Além de fazer com que eu me sentisse mal com meu corpo, tudo aquilo consumia um tempo absurdo do meu dia e me fazia ser menos produtiva.

Passei um período longe, o que me fez bem, mas me fez perceber uma outra coisa.

Padrões.

Quando eu tinha uns 10 anos (10 ANOS, OLHA ISSO!), eu tinha uma amiga que era magra, mas magra de ruim mesmo, sabe? Estávamos na praia, ela de biquini e eu de maiô, morrendo de vergonha. Eu me lembro da minha mãe me dizendo “cada um tem um corpo” pra me ajudar a me sentir melhor.

Eu nunca fui a menina mais bonita, nem a mais desejada da escola. Quando eu tinha uns 15 anos eu ainda brincava de boneca, enquanto as meninas da minha sala já estavam na academia puxando ferro. Elas eram lindas e desejadas, eu não. Eu era esquisita. Eu lembro que me contaram que a mãe de uma amiga disse que eu me vestia de forma estranha pra chamar atenção. O que não era verdade. Eu me vestia da forma com que eu me sentia confortável, porque eu desviava a atenção das pessoas. Eu achava que tendo um cabelo vermelho, que eu achava muito legal, as pessoas olhariam mais pra ele e não pro fato de eu não ter um corpo escultural.

Ao mesmo tempo que eu sempre contestei o padrão de beleza, eu me sentia sendo guiada por ele. E isso eu carrego até hoje. Eu digo foda-se o padrão, não existe padrão, não existe corpo perfeito, mas eu continuo buscando um corpo que eu me sinta satisfeita. O que é ok, porque eu acho digno você correr atrás daquilo que faz você se sentir bem, mas é difícil admitir com 100% de certeza que o corpo que eu quero e busco não seja influenciado por um “padrão”. Lógico que é, porém existe uma diferença na forma com que eu via o padrão antes e como eu o vejo agora.

Lidia, explica?
Explico.

Eu era uma pessoa horrível vs Conheci gente incrível.

Voltei aos poucos. Reinstalei o aplicativo do Instagram. Depois do Facebook. E percebi que as redes sociais me ajudavam mais do que me atrapalhavam.

Quando eu era mais nova eu via uma foto de uma mulher bonita procurando defeitos. “Mas ela nem é tão bonita assim”. Se aquela mulher não era bonita, o que eu esperaria de mim? Eu fico doente só de pensar. Eu era do tipo que xingava outras mulheres de “vaca”. Eu não admitia que uma mulher pudesse ser inteligente. Eu não queria que ela fosse. Eu. era. uma. pessoa. horrível.

Mulheres se odiando e querendo matar umas as outras é coisa antiga. A gente vê na novela, a gente cresce sendo ensinada que o mundo é uma competição. Quer cena mais clássica que duas mulheres se estapeando no chão do banheiro? Se for por motivos de “macho” então…

O mundo é uma selva. Não existe espaço pra mais de uma mulher nessa selva. Nem pra sua melhor amiga. Porque, ela pode até ser bonita, mas “não é lá grandes coisas”. ME POUPE!

Eu escrevo isso com vergonha, nem parece verdade. Como pode alguém pensar assim?

Graças à internet eu mudei. Esbarrei em pessoas incríveis. Eu nunca, na minha vida, tinha visto tanta mulher se apoiando como eu vejo hoje. Eu sou muito grata à internet por me proporcionar isso e a essas mulheres por serem assim. Hoje eu vejo a foto de uma mulher linda e sem pensar duas vezes eu já estou logo falando: PUTA MULHERÃO LINDO DO CARALHO!

E quando eu falo isso, não me refiro só fisicamente. Eu abro a boca e elogio cada vitória, cada atitude, cada conquista, a simples existência das mulheres e homens incríveis.

Na internet e com essas pessoas eu aprendi muito e me tornei outra pessoa. Aprendi a me amar e amar os outros.

Pessoas da mudança.

Disse que comecei a enxergar o padrão de beleza de forma diferente. Isso porque eu descobri que os padrões mudam. O meu padrão é diferente do seu. Padrões possuem extensões. Uns padrões são mais extensos que outros. Quanto mais extenso seu padrão, mais saudável é sua relação com ele.

Meu padrão mudou consideravelmente, tudo graças a pessoas incríveis, mulheres incríveis, melhor dizendo. Hoje vejo fotos feitas com tanta alma e tanta mulher se apoiando, que eu não sei como alguém consegue não achar aquilo bonito.

Chez Noelle ❤

Eu tenho certeza que a Lidia de antes julgaria todas essas pessoas, ela acharia algum defeito, ela falaria mal de alguma coisa, como se tivesse algum direito. Mas a Lidia de agora só consegue agradecer. Agradecer a cada uma dessas mulheres pela força e pela disposição delas em compartilhar e, de alguma forma, se expor (não digo fisicamente, mas emocionalmente). Pela primeira vez na vida eu estou tendo a oportunidade de ver mulheres de verdade em toda parte.

Você e todas nós, Clara Averbuck, sua maravilhosa. ❤

Vocês me mostraram que podemos lamber o topo do mundo. Que a beleza está no corpo que temos, independentemente de como ele seja. Vocês me mostraram que a gente tem que se amar, a gente tem que se amar muito, SE AMAR PRA CARALHO MESMO!

Um tiro atrás do outro. Isabella Saldanha. ❤

Eu olho pra essas fotos e vejo verdade. Nada está aqui pra agradar. Tudo está aqui pra ser e como é.

Antes de “Mirian Bottan” meu cérebro pensa: “a moça do sorriso bonito”

Essas mulheres me inspiram e eu quero deixá-las aqui pra que elas possam fazer o mesmo por você. Elas fizeram e fazem parte da construção de um novo eu. Um eu que realmente torce pro sucesso de outras pessoas. Que não acha que aquela outra mulher conseguiu aquilo por “sorte”. Que sabe a batalha que é ser mulher todos os dias e sabe que essa batalha não se luta sozinha. Todas nós lutamos.

Quando crescer quero ser Louie, ponto. ❤

A ansiedade que me destruía (e ainda me destrói, depende do dia), também fez e faz parte da vida de muitas outras mulheres. E mesmo assim a gente vê esses sorrisos, esse amor próprio, essa beleza. Vocês me ajudam a seguir em frente.

A gente se descobre um pouco nos outros.

Eu comecei a ser gentil com as pessoas, mas demorou até perceber que eu precisava ser gentil comigo mesma.

Eu cansei de ouvir que eu tinha que me amar primeiro para poder ser amada e já perdi as contas de quantas vezes fui feita de trouxa por, de fato, não me amar o suficiente. Um dia eu li que a gente só aceita o amor que acha que merece. E eu já aceitei cada merda. E aceitei porque achava que merecia.

Aceitei homem babaca. Aceitei homem machista. Aceitei comentários sobre meu corpo. Aceitei comentários sobre a minha personalidade. Aceitei. Não aceito mais. E não é porque, nossa, me amo 100%. Não, é exatamente pelo fato do meu amor próprio estar em construção. De cada dia eu conseguir colocar um tijolinho a mais nesse bloqueio de coisa ruim. Hoje só me cabe pessoas que estão dispostas a passar pro lado de cá.

Eu continuo ansiosa, mas continuo consciente. Consciente de que essa ansiedade não me define. Consciente de que sou uma pessoa que tem dias bons e ruins. Consciente de que meu corpo tem seu charme e, principalmente, que nele habita uma pessoa feliz e pronta para amar e ser amada.

Eu mesma. ❤ No dia que comprei um sutiã novo e me senti maravilhosa.

Nós valemos a pena. 
Que as pessoas que me serviram de inspiração possam te inspirar também e que esse texto te faça perceber como todo mundo é um mar de confusão que vale a pena mergulhar.