Disk #3 — Mulheres na música: representatividade e revolução

Lid Capitani
Sep 7, 2018 · 7 min read

A Disk News é uma newsletter sobre música, que se propõe a compartilhar novidades e análises sobre a música contemporânea. Do indie ao pop, do rock à mpb. Vamos levar música a sério?

Inscreva-se: bit.ly/disknews


Olá

A news de hoje fala muito sobre como mulheres estão revolucionando a música contemporânea. Isso em todos os gêneros: pop, R&B, hip hop, indie rock. O alarmante da situação é que muitas vezes elas não são valorizadas tanto pela crítica, quanto pelo público. A playlist da quinzena inclui mulheres do indie rock (recomendo muito todas). E claro, também tem indicação de discos lançados na última quinzena e algumas outras leituras interessantes sobre o tema.

Obrigada por assinar!
Boa leitura

Indie Girls Rocks

Como o tema da news é mulheres que estão revolucionando a música contemporânea, eu decidi fazer uma playlist fechando um pouco o ângulo (A NPR já fez uma lista com 200 músicas de artistas mulheres de todos os gêneros musicais mais comerciais). A playlist foca em mulheres que estão pegando suas guitarras, enchendo de distorções e recriando o indie rock pós primeira década do sec. 21.

Ultimamente, a crítica parece estar focada em outro tipo de indie (menos a NME que nunca supera o Arctic Monkeys). O indie do momento é aquele mais raiz: dedo na guitarra & gritaria (brincadeira). E dessa vez, as mulheres são as protagonistas deste movimento mais voltado ao rock de garagem lo-fi, de artistas como Snail Mail (comentei na primeira news), Soccer Mommy, Lucy Dacus, Courtney Barnett e Angel Olsen.

Em homenagem a elas e de forma a incentivar todo mundo a conhecê-las, compilei várias artistas do indie rock atual (2015–2018). Vale conferir esta matéria do New York Times (interativa, com vídeos e músicas) que entrevista várias artistas sobre como as mulheres estão dominando o rock.

Confira a playlist aqui! Tem gente sensacional que você talvez ainda não conheça (eu mesma conheci várias durante o processo!)

As operárias da música

Alguns números para contextualizar: nos últimos seis Grammy Awards, 90,7 dos nominados eram homens. No ano passado, nenhuma mulher tinha chego no top 10 da Billboard até “Look What You Made Me Do” da Taylor Swift ser lançado em setembro. Além disso, em 2017, apenas 14% das músicas no top 10 foram de mulheres desacompanhadas de homens. Num contexto em que playlists influenciam mais que álbuns, as playlists do Spotify reforçam essa disparidade. Numa matéria da revista The Baffler, a jornalista Liz Pelly fez um experimento e descobriu que as playlists mais populares da plataforma são dominadas por artistas homens. A playlist Today Top’s Hits, por exemplo. foi analisada durante um mês e Liz constatou que 85.5% das faixas incluem homens e apenas 45.5% incluem mulheres (contando featurings que podem conter artistas de ambos os gêneros).

A disparidade de gênero na música é real: seja na forma de distribuição, como no spotify que opera numa lógica algorítmica que tendencia a predominância masculina (ainda mais quando gêneros populares como o Hip Hop também são dominados por homens), seja na forma de consumir, por consequência da distribuição desigual, seja na forma de prestigiar, como a desigualdade de nomeações no Grammy (o próprio presidente da academia fonográfica, Neil Portnow, quando perguntado sobre a falta de nomeações femininas na premiação de 2017, respondeu que as mulheresprecisavam melhorar).

Para qualquer pessoa que acompanha o meio musical é nítido que as mulheres são participantes ativas na revolução das músicas pop, e são grandes criadoras e influenciadoras do meio artístico. Num esforço de diminuir esta disparidade, a NPR está fazendo uma série de artigos chamada Turning Tables para celebrar a música feita por mulheres e artistas não-binários. A lista das 200 melhores músicas feitas por mulheres do século 21 celebra a diversidade de músicas produzidas por elas e ressalta o quanto deveriam ser mais prestigiadas.

Dentre o top 20 estão Amy Winehouse, que levou o R&B/Soul vintage de volta ao topo das paradas, Beyoncé, que continua icônica com suas canções e vídeos que transpassam barreiras. Outras como M.I.A que carregam pautas políticas em suas músicas e clips, e Lorde, que com o hit Royals, se tornou uma artista viral no mundo inteiro, além de muitas que merecem seu posto na lista por diferentes razões.

Eu linkei alguns artigos de onde tirei os números e informações deste texto, mas eu sugiro lê-los para ter uma ideia mais completa do que eu estou falando. Vale muito a pena pesquisar outros artigos da NPR sobre a ação das mulheres na música pop.

E no Brasil?

O levante feminino na música também acontece no Brasil, com o avanço do Feminejo de artistas como Marília Mendonça, Simone e Simaria e Maiara e Maraísa. Segundo o levantamento da Crowley Broadcast Analysis, o número de artistas mulheres mais tocadas nas rádios brasileiras subiu de 12 em 2016 para 19 em 2017, e essa onda já vinha de anos passados. Porém, o número ainda é baixo se comparado que dentre as 100 músicas mais executadas nas rádios, 84 são de artistas homens.

Os dados são da matéria “Nos palcos e nos bastidores, as mulheres sacodem a música brasileira”, da jornalista Nana Soares, que realça o sucesso do feminejo e de artistas como Anitta que estão dominando as rádios. Apesar de tom positivo, não podemos esquecer que o privilégio e a dominância ainda é muito masculina no Brasil. Tanto nas paradas, quanto nos bastidores. Se você já conhece o papel dessas artistas citadas na música pop brasileira, vale a pena conhecer as mulheres da indústria que estão se destacando.

Dentre elas está Monique Dardenne que é a idealizadora do evento Women’s Music Event, que além de promover o evento com performances de artistas femininas, o projeto possui um site com um banco de profissionais da música que vão desde DJ, instrumentista, cantora, até produtora cultural e engenheira de som. O texto ainda destaca outras mulheres da indústria que estão ocupando espaços de comando e ditando as regras do mercado. Vale a pena leitura.

Discos novos para ouvir

Estamos no final do mês, o que significa que minha playlist de lançamentos mensais está com mais de 600 músicas. Apesar de parecer muita coisa, a ideia da playlist é ouvir os lançamentos de cada semana, por isso estou aqui para guiá-los nos últimos lançamentos de agosto.

Ariana Grande — Sweetener (Spotify): O disco veio ao que se propôs — mistura hits bangers como No Tears Left To Cry, com R&B de Sweetener e Bordeline (que contêm um feat com Missy Elliott). A premissa de Ariana é jogar a luz após uma situação ruim — aqui ela fala diretamente sobre o atentado que aconteceu durante seu show em Manchester em 2017, que deixou 22 mortos e abalou profundamente a artista. Ouça: Breathing, No Tears Left To Cry e God Is Woman.

Mitsky — Be The Cowboy (Spotify): Mitski é a nova rainha do indie rock, principalmente por expressar muita emoção em suas canções, e também por falar sobre a experiência de ser mulher, de ser autêntica e romântica ao mesmo tempo. Be The Cowboy é uma brincadeira em que ela faz sobre si mesma — sobre ser o cowboy novo na cidade, sobre ser o cowboy que ela gostaria de ver no palco.

Blood Orange — Negro Swan (Spotify): “No one wants to be a negro swan” Devonté Hynes canta em Charcoal Baby. O disco fala sobre ser marginalizado por ser negro, sobre a depressão e a ansiedade causada pelo racismo. E isso não é novidade na carreira do artista, outros discos anteriores também já trataram sobre racismo e xenofobia. Além disso, ele advoca a favor do pluralismo na representação do homem negro e pela não-normatividade. Não é um álbum simples de R&B, ele experimenta com diversos elementos desde o minimalismo do chillwave, até o hip hop mais alternativo, o que torna o produto muito rico e interessante.

O que mais?

Como essa newsletter ainda está em processo de experimentação, decidi reunir algumas outras coisas que consumi essa última quinzena sobre música. Seguem links de artigos, notícias, podcasts e de tudo um pouco.

Entrevista:

Comentei sobre o último disco da Mitski, Be The Cowboy, e gostaria também de recomendar esta entrevista que ela fez para a revista The Fader, em que ela destrincha sua vida e carreira.

Notícias:

O jornalista Daniel Bacchieri está com um projeto muito legal para reunir todos os festivais de música de rua no mundo, o Street Music Map.

Falando sobre Blood Orange… neste artigo da Pitchfork, o músico destrincha faixa-a-faixa seu novo disco Black Swan.

O documentário sobre a Rihanna está muito próximo de ser lançado! Além disso, Rihanna e Childish Gambino (Donald Glover) foram vistos juntos em Cuba atuando para o filme Guava Island.

Podcasts:

Um podcast que eu amo muito é o Switched On Pop, que se propõe a analisar musicalmente hits da música pop. Charlie Harding e Nate Sloan são os hosts mais carismáticos que eu conheço, e os últimos episódios do programa analisaram alguns hits dos anos 2000 e porque eles funcionam como ‘summer hit’. Meu favorito é o Beyonce e Black Eyed Peas.

Outro podcast querido é o All Songs Considered da NPR (eu vou falar muito da NPR aqui) que fez um episódio sobre a lista das melhores músicas por mulheres do século 21. Além de checar a lista que eu já citei, vale a pena ouvir o episódio para ter outros insights.

Espero que tenha gostado e caso queira enviar alguma mensagem, dúvida, sugestão, crítica, pode mandar pelas minhas redes sociais que estão aqui embaixo.

Obrigada por ler!
Até a próxima

Twitter: https://twitter.com/lidmatos

Instagram: https://www.instagram.com/lidmatos/?hl=pt-br

E-mail: lidiamcapitani@gmail.com

Lid Capitani

Written by

Estudante de jornalismo, amante de música & criadora da newsletter Disk: bit.ly/disknews

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade