Temos que nos importar

Antes de qualquer discussão, sempre achei essas eleições de mulher mais bonita, em qualquer esfera, algo muito opressivo por dizer, para a sociedade, que uma mulher é mais bonita do que a outra, melhor do que a outra. São estabelecidos critérios como se fôssemos um objeto a ser escolhido na vitrine de uma loja de “mulheres perfeitas”: você leva para casa a que acha que se adequa mais ao seu gosto, seguindo certos padrões (magra, alta e ainda sabe falar direito, olha que maravilha!).
Estes concursos, além de acirrar a já disseminada ideia de que mulheres devem competir entre si, também reforçam estereótipos que estão cada vez mais questionados. Sempre fui muito magra, o que seria um ponto positivo na disputa pelo posto de “mais bonita da turma”, mas sou negra de cabelo crespo. Logo, apesar de me enquadrar num dos quesitos, outros sobressaiam aos olhos dos jurados. Assim, eu era eleita a mais legal, mais simpática, mais divertida… No melhor estilo: a gente se junta, mas não se mistura.

Ao ver a reação de algumas pessoas após a escolha de Monalysa Alcântara como Miss Brasil 2017, na madrugada do último sábado, lembrei exatamente deste meu passado que agora, aos 32 anos, está um pouco mais distante. Observando as mensagens das pessoas que não gostaram do resultado, vi poucos argumentos razoáveis falando sobre a beleza da modelo: a maioria, a partir da justificativa de uma votante (destacando a brasilidade da Miss Piauí), atacou a cor da pele e o cabelo da próxima representante brasileira no Miss Universo. E, claro, transbordou o racismo escancarado, como o de uma “senhorita” (que não aguentou a pressão a apagou sua conta no Twitter) afirmando que Monalysa não era bonita, pois “tinha cara de empregadinha”. Uma junção de preconceito racial e social de dar nojo.

Estamos em 2017 e ainda incomoda ver negros com seus cabelos naturais e sorrisos largos em posições de destaque, deixando para trás brancos que sempre estiveram nestes lugares sem serem ameaçados. Incomoda muito mais quando isso acontece dois anos seguidos — no caso do concurso. É a maioria passando a ocupar o seu lugar de maioria.

A igualdade de oportunidades segue longe, muito longe. Mas a vitória da Monalysa, apesar da minha restrição quanto a esse tipo de concurso, ajuda muito na construção da autoestima de uma juventude que se depara cada dia mais com iguais ocupando postos relevantes na estrutura social e que começa a ver beleza em tudo que há em si mesmo. Isso é só o começo!
