Entrevistadores não-jornalistas: por que suas entrevistas são melhores?

Lidia Zuin
Feb 1, 2016 · 5 min read
Rogério Skylab entrevista Júpiter Maçã

Às duas da manhã de um sábado, depois de ter ficado mais de uma hora assistindo a uma entrevista de Aguinaldo Silva com Luana Piovani, perguntei a mim mesma: será que os melhores entrevistadores não são jornalistas? O vídeo, postado por um contato do Facebook, não era exatamente interessante para mim, apesar de eu saber quem são aquelas pessoas e ter alguma curiosidade pela área de onde vêm. Dei uma chance. Poderia ter durado cinco ou dez minutos, mas durou quase uma hora e rendeu esse texto.

Enquanto essas entrevistas são fomentadas pelo próprio Aguinaldo Silva, em um canal particular, o que chama atenção é a maneira como as perguntas são conduzidas, criando uma sensação de intimidade e de diálogo em que se abordam assuntos polêmicos com mais ou menos espontaneidade. O formato não é novo, mas faz parte da lógica de talk shows em geral. Aliás, não é sempre que a fórmula funciona, já que para isso é necessária uma sintonia entre entrevistado e entrevistador. Às vezes, essa ponte acaba sendo tão artificial que as reações beiram ao absurdo, como foi o caso de Tom Cruise e Oprah Winfrey.

Esse desequilíbrio entre entrevistador e entrevistado pode se dar em diferentes graus e formas: desde o despreparo ou desconhecimento de alguma das partes até o tédio diante de perguntas repetidas. Foi algo que vivenciei de duas maneiras, primeiro como pesquisadora e depois como jornalista. Ao estudar a obra de Gottfried Helnwein, um dos principais nomes da arte austríaca contemporânea, tinha dificuldade em achar a origem de certas citações que, na realidade, apareciam idênticas em diferentes fontes que não faziam referência entre si. O artista havia criado um mecanismo de automação, no qual respondia exatamente as mesmas coisas, com as mesmas palavras, já que as perguntas eram essencialmente sempre as mesmas. Porém, quando tive a oportunidade de entrevistá-lo, fui surpreendida por um elogio logo após minha segunda questão. Isto é, o desequilíbrio entre o artista europeu de 65 anos e a estudante brasileira de 22 foi primeiramente encarado com respeito e gentileza, para depois ser rompido com o comentário de que minha pergunta era interessante. Mas antes de me sentir lisonjeada, pensei: “Como assim? Isso está errado”.

Perguntas básicas muitas vezes são feitas por conta de limites: de tempo, de espaço, de orçamento, de liberdade. Não é sempre possível ao jornalista escrever um ensaio ou uma análise sobre o material coletado com a fonte, bem como também nem sempre dá para fazer uma boa pesquisa antes de fazer as perguntas. Às vezes a entrevista é só uma desculpa para garantir aspas que já foram obtidas por outro veículo, ou uma nota rápida que não demanda muita reflexão. É compreensível, mas não exatamente razoável.

Outro problema que pode ocorrer é quando um profissional sem domínio de determinada área é enviado para uma pauta com a qual não identifica. Não é o caso de Aguinaldo e Luana, já que ambos fazem parte do cenário artístico (do teatro, da TV e do cinema) e, portanto, compartilham vivências, conhecimentos e opiniões que vão se interagindo e se complementando com perguntas que não só afagam, mas também provocam. É, acima de tudo, um diálogo com réplicas e tréplicas, não apenas questionamentos que buscam as frases certeiras para uma armadilha montada pelo jornalista.

Luana não tem medo de falar mal da Globo, emissora para qual os dois já trabalharam. Não hesita em falar de seus problemas com Carolina Dieckmann e dá nome a todos os bois citados. E aí quando você, detrás da tela, se pergunta como é que ela tem coragem de falar tudo isso, Aguinaldo surpreende lançando esse questionamento, se Luana nunca perdeu oportunidades de trabalho por conta de sua personalidade forte e língua afiada.

Mais do que fazer as perguntas “certas”, os entrevistadores não-jornalistas têm vantagem por não terem passado pelo processo de formatação (no sentido de pôr em uma forma) que é regido pela profissão. Existem regras, estruturas prontas para um texto, um programa de rádio ou de TV, o que pôr no título de uma matéria online e o uso de SEO. Entrevistadores não-jornalistas são contaminados e contaminam seus entrevistados, promovendo uma troca em que o entrevistador não é reduzido ao papel de fazedor de perguntas, mas de personagem do diálogo.

O programa Infortúnio, da MTV Brasil, trazia uma personagem animada como entrevistadora

O Canal Brasil é um exemplo de emissora que foi casa de dois ilustres e icônicos entrevistadores: Rogério Skylab e Zé do Caixão. Enquanto âncoras de telejornal precisam ter um determinado corte de cabelo, vestuário e maquiagem que os neutralizem diante do conteúdo apresentado, entrevistadores não-jornalistas são o que são porque, antes de entrevistadores, já eram artistas. Não se apagam diante do entrevistado, mas se põem como presença que norteia e que dá o tom da conversa. Seja para tornar o diálogo mais caótico e provocativo, como nas entrevistas de Skylab, ou para trazer à tona o sombrio e o bizarro, como no caso de Zé do Caixão, há sempre primeiro um foco posto pelo entrevistador e que se desenrola junto com as origens do entrevistado.

A MTV também foi um canal que experimentou fazer programas de entrevistas com entrevistadores não-jornalistas. Seja com Júpiter Maçã Show ou Lobotomia, esta outra emissora da TV paga também deu espaço para uma entrevistadora ainda mais inusitada. Funérea não é só personagem como é animação, é fictícia. É o fantoche de pautas múltiplas e que veste uma caricatura e um humor que rege o programa e as entrevistas. Enquanto um jornalista neutro busca se posicionar como representante do veículo ou do fazer jornalístico, entrevistadores não-jornalistas têm um papel definido, são temáticos e não negam a influência que exercem. Afinal, a neutralidade do jornalista é uma farsa quebrada nas sutilezas das perguntas escolhidas, no tom com que elas são feitas e, apesar dos pesares, quem o jornalista é nunca deixou de ser avaliado pelo entrevistado: uma coisa é falar com William Bonner, outra com um estudante de jornalismo que precisa entregar um trabalho para a faculdade.

Nesse sentido, fica aqui a pergunta do porquê ainda mantemos essa falsa neutralidade, rigidez e secura que tornam o texto jornalístico um conjunto de palavras organizadas em pirâmide invertida, já que muito em breve é possível que esse produto vire obra de robô. Talvez a objetividade esteja caindo menos pela falta de profissionalismo e sim pelo excesso daquilo que define esse conceito: em busca da verdade (ou da pedra filosofal), perde-se a oportunidade de produzir algo mais rico e que proponha um pensamento delineado por uma mente complexa, capaz de fazer conexões e de trazer contexto. E se disserem que nem todos sabem consumir esse tipo de conteúdo mais reflexivo, então por que não aprender? Caso contrário, dificilmente as milhares de outras opções rápidas e de fácil consumo deixarão de existir. O importante é, se é possível, por que não experimentar?

Lidia Zuin

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Brazilian journalist, MA in Semiotics and PhD candidate in Visual Arts. Head of innovation and futurism at UP Lab. Cyberpunk enthusiast and researcher.