HOMEMADE DYNAMITE

Lidyanne Aquino
Sep 5, 2018 · 5 min read

Don’t know you super well
But I think that you might be the same as me
Behave abnormally

É o tipo de coisa que você identifica de imediato e sem precisar dizer muito.

Passamos alguns meses no alto daquele prédio feio da Faria Lima. Uns 7, 8 brasileiros sequelados e ansiosos para tentar a chance em alguma universidade francesa; um projeto não muito ambicioso de fazer um mestrado no exterior e quem sabe achar um emprego nas imediações em seguida. Um tanto perdidos, é verdade, sobretudo por querer mudar de área e saber que bem, o país da liberté fraternité et égalité também aprecia uma burocracia e cartas de motivação detalhadas, lindas, dignas de Maupassant ou Victor Hugo.

Pobre de você se não ambicionar escrever algo à altura d'Os Miseráveis para explicar sua motivação para estudar, mudar de área e quem sabe fazer cinema. Aprendemos à duras penas para terminarmos como belos miseráveis derrotados com 14 candidaturas reprovadas. Nós, tão cheios de esperança, sentimos muito. Doeu.

Com um dossiê furado e um TCF nível B2 nas costas, fomos tomar um café e ele relatou os planos para o futuro próximo: estudar francês na França, oras. Não é possível que estando in loco a coisa não aconteça. "Os professores vão ajudar com o dossiê, terei mais suporte e segurança com a língua, esse mestrado vai acontecer", ele disse algo do tipo. Mal nos conhecíamos, embora tenhamos frequentado o mesmo andar da Paulista 900 ao longo de três anos — e passado pouco mais que três meses compartilhando aquele espaço desconfortável da Faria Lima. Mas conexão é coisa que a gente não explica, e o plano alheio soou adequado ao que eu ambicionava. Parecia invasivo demais me apropriar sem consultá-lo, então perguntei se não seria incômodo. Roubar ideias é feio, nós somos formados em Jornalismo e sabemos que plágio é crime — mas ele entendeu que apesar da base ser a mesma, a construção dependia de cada um. E diga-se de passagem, alguém tão cheio de medos nunca diria não, mesmo não estando de acordo. Medrosos se reconhecem de longe e se ajudam mesmo sem ter consciência do ato.

Passamos raiva, trocamos informações, cuidamos de todas as burocracias — cada um no seu canto — e em um dado momento de janeiro de 2015 nos encontramos em um prédio moderno e tão feio quanto aquele da Faria Lima, só que agora no centro de Besançon. Uma cidadezinha perdida no meio do nada, na região de Franche-Comté, um frio daqueles, neve, e uns corvos que cortavam o silêncio daquele lugar tão discreto. Ele virou peça chave dos meus quatro meses na França e era mencionado em quase todas as conversas com os meus amigos que ficaram do outro lado do globo.

Apesar de tudo que cansaram de sugestionar, este homem não fazia meu coração bater mais forte, tampouco suspirar pelos cantos. Pelo contrário: ele me passava tranquilidade e um amor fraterno que há tempos não experimentava.

Caio é uma longa discussão sobre o retrato de Sylvia von Harden feito por Otto Dix, seguida por uma sequência de dança contemporânea ao som de Never be like you, de Flume (por vezes de O canto da cidade, um clássico de Daniela Mercury). Com ele é possível ter uma conversa longa e proveitosa sobre assuntos pesados, como a dificuldade constante em validar nossa existência. Ele também é alguém que fala sobre cinema e arte com uma propriedade absurda, mas sem nenhuma intenção pretensiosa de fazer com que você se sinta inferior por não ter o mesmo domínio. Tanto que entre uma taça de vinho e outra nunca tardamos a cantar músicas de qualidade duvidosa enquanto fazemos dancinhas sem sentido; ou a passar um tempo sem dizer nada, apenas sentindo o cérebro derretendo enquanto apreciamos a beleza da natureza e o vento violento dos destinos aleatórios que escolhemos nestes três anos corridos.

A ausência de compromisso e de coerência é, afinal, o que alimenta nossa conexão ao longo do tempo. Não surpreende então que tenhamos tanta facilidade em viver uma amizade à distância desde junho de 2015, visto que pós Besançon a vida abriu mão de nos colocar no mesmo espaço geográfico (nos esbarramos quando surge uma oportunidade, mas na maior parte do tempo nos atualizamos via whatsapp e redes sociais). Mais um samba na cara de quem amava cantar never gonna fall for modern friendship. Nos adaptamos a quase tudo nessa vida, sobretudo quando vale a pena.

Cegos de tanta teimosia e grandes especialistas em atitudes precipitadas, nos afastamos cada vez mais em termos físicos. E a gente sempre amou correr descalço, o que rendeu fugas dolorosas. Ele deu o primeiro passo, eu só fui me mexer um ano mais tarde. Em um dado momento ele tomou para si outro impulso para correr mundo, correr perigo, agora sem ambições, sem expectativas, sem ao menos querer debandar. Assim, no susto mesmo.

Quando damos os primeiros passos dentro de nós mesmos o deslocamento ganha outra dimensão e provoca um desconforto físico mais latente que outrora. Como é que se embarca em uma aventura sem fazer ideia do cenário, da trilha sonora, das cores dos supermercados, dos cafés, a estrutura das ruas, disposição das coisas… uma cultura que você nunca experimentou? Como é que te arranjam uma locação para rodar um filme se você nem sabe se ele se encaixa do que você está projetando? Se conhecendo o mínimo da França tivemos tantas surpresas negativas, é normal que exista uma nova sorte de ansiedade ante o desconhecido. Essa ausência de ilusões nos passa uma sensação estranha, tal qual pisar em falso e se surpreender ao perceber que mesmo dando uma leve escorregada conseguimos parar em pé.

Você se inscreveu no doutorado por medo de precisar voltar. Aí a vida te mandou de volta meio à força e ainda te deu uma oportunidade para viver o que era lecionar. E agora vai te lançar num território novo para evitar vícios, imagino. Estar fora do conhecido nos deixa mais atentos: o fato de não conhecer o caminho nos faz prestar mais atenção na rota, é instintivo — mesmo quando a gente se apoia do Google Maps. De tanto se perder a gente acha gente, coisas e situações tão doidas e que behave abnormally tanto quanto nós.

Caio, você já foi ao cinema só pelo título? Sem ver o trailer, nem ler a sinopse, com sorte sem ao menos ver o pôster? Pense nesta nova etapa como essa brincadeira. A diferença é que aqui a caneta é sua, e você é livre para desenhar ou escrever da forma que te parecer mais confortável conforme a vida acontece. Lembre daquele belo conselho de um dos melhores covers de Sandy & Júnior: vá sem medo de se arrepender. O mundo é vasto e você sempre vai encontrar um jeito de torná-lo mais leve para carregar nos teus braços. Dance, deslize pelos cantos e se aproprie deste lugar com tudo que você encontrou aí dentro nos últimos meses. Leve sua construção para passear e fique tranquilo, ela vai te dizer os momentos de parar e se demorar um pouco mais.

É seu momento de brilhar muito e deixar sua marca em um novo canto do Hemisfério Norte. Now you know it's really gonna blow.

Repare nestas carinhas inocentes!! Tínhamos nem ideia do tanto de plot twist que a vida daria desde então :~

P.S.: Se você se encontrar sem motivo aparente dentro de um prédio feio, fique sossegado, pois pode ser sinal de sorte.

Lidyanne Aquino

Uma brasileira bem de humanas se aventurando no meio digital e aprendendo a ser project manager nos cafundós da França.

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