Eu, eu mesmo e não sei mais quem.

Acho que adormeci as margens de mim. Tenho essa sensação de que me perdi com o vento, de que me larguei no meio do caminho, que me esqueci em algum banco de praça. Revirei-me todo tentando me encontrar. Achei magoas, achei sorrisos, achei ódio, dúvida, medo, coragem, amor, mas não achei a mim. Tanta coisa se misturou, embolorou, que ficou homogênea a coisa toda, e nem sei como me encontrar, nem com lanterna. Sabe aquela hora em que você abre a geladeira com fome, olha, examina toda a geladeira e fecha sem explicação. Sou eu. Me abro, me vejo, não sei o que quero, me fecho. Fome as 3 da manhã, sono as 3 da tarde, trabalho maçante, sonho distante, pouca gente confiável, amigos por aqui e outros por lá, sem saber dançar nem cantar, onde estou? Sou eu esse? Espera aí!? Não é. Droga! Tenta de novo.

Tava tudo dividido em pastas, com etiquetas, bem organizado, só que eu tropiquei, cai e tudo se misturou, bagunçou. Tem pasta contendo coisas que não são delas, tem pastas vazias, pastas cheias demais. Para organizar tudo leva tempo, arquivista e muita persistência, mas esta eu nem sei em que pasta foi parar também, tenho que achá-la antes das demais. Me perdi, é fato. E não posso negar que o primeiro passo da descoberta é achar-se perdido, só depois de não saber onde está é que se define por onde deveria ter ido. Sabe aquele nó que dá em fones de ouvido, e que você perde toda a paciência tentando desatar aquele emaranhado de fios enrolados um dentro do outro e tal, pois é, acho que achei a ponta de fuga, sabe aquela que é a principal e você vai desfazendo tudo em volta dela, então, achei…ufa. Ou isso vai se enroscar cada vez mais, ou desato de vez isso, mas pelo menos achei uma ponta.

Pastas, pontas, nós, margens, geladeira, caminho, banco de braça, perdido, bagunça, mistura, sorrisos, magoas, amor, coisas, 3 da manhã, encontrar, lanterna, persistência, paciência, examina, tropicão, essas são as tag’s que você encontra de mim, fica na barra lateral da minha existência. Chego a pensar, de maneira bem pessimista por sinal, que desperdiço oxigênio andando por ai meio sem rumo e pra todo lado. Tento até respirar devagar pra deixar um pouco mais de ar pra quem realmente usa com mais propriedade. Não sou de esportes, nem de alimentação saudável, bebo demais, não ajudo o planeta, nem reciclo meu lixo, não limpo nem a caca do meu cachorro na rua, e latinhas de refrigerantes, sacos plásticos e afins voam da janela do meu carro sempre que me incomodam. Não me preocupo se os pandas não trepam, e nem se arara azul perdeu o tesão, não me preocupo se esquentar as coisas com vasilha plástica no microondas pode me causar câncer, e nem que descobriram uma maneira de imunizar o vírus da AIDS. Se as calotas polares estão derretendo, eba, mais água pra gente, e olha que nem me preocupo se um dia ela vai acabar também. Salvar baleias pra mim só quando baixo a sequência de filmes do Free Willy na internet. Não fico impressionado com as novidades medicamentosas fitoterápicas encontradas no Pantanal e Amazônia noticiados pelo globo repórter.

Quem sabe um dia eu mudo, me encontro, ou me mudo de mim e me perco de vez em outro eu, mas de um jeito melhor. Se não me encontro, e como estou não é como deveria estar, talvez criar um novo eu, sem vestígios do original e sem os erros do que me tornei, poderei como em folha branca, me desenhar como sempre esperei que fosse um dia. Em que pasta mesmo está a habilidade em desenho? ah, depois procuro, já achei a preguiça, ficarei com ela por aqui, por algum tempo, até dar fome às 3 da manhã e abrir a geladeira, de novo.

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