A era do acesso

Existe uma crença que permeia o imaginário da maioria dos brasileiros: a ideia de que a posse de um produto é o fator responsável pelo desenvolvimento do indivíduo. Nesse sentido, o conhecimento é proveniente da posse de um diploma de graduação; a estabilidade é demonstrada pela casa e carro próprios; e o emprego, necessariamente fixo, afirma a solidez da perspectiva trabalhista.

A chamada Revolução Industrial muito ajudou na consolidação desse pensamento. Apresentando-se tardiamente para a população brasileira, o modelo econômico disruptivo para a época promovia a posse de bens para a consolidação de um valor pessoal, de modo que o “ter” quase confundia-se com o “ser”.

Com a chegada do século XXI, um termo ganhou espaço: economia compartilhada. Nesse tempo de revolução tecnológica, os conselhos dos pais de não conversar com estranhos nem aceitar caronas desconhecidas está perdendo credibilidade. As plataformas online de compartilhamento de experiências, móveis, apartamentos, carros e até comida tornaram-se cada vez mais comuns, e a confiança passou a ser moeda de troca entre os usuários da rede. A “temporização” do comércio estreita as relações de fornecedor-usuário, em detrimento das relações de vendedor-comprador.

Exemplos como a Uber e o Airbnb podem ser citados para esse modelo econômico que gera novas formas de renda e emprego — ao mesmo tempo que sofre com regulamentações legais. As ações da economia compartilhada, apesar de funcionarem através de negociações de pessoa para pessoa, sofre interferência da legislação — muitas vezes velha e incoerente com as evoluções da sociedade. Por isso, muitas vezes há embates entre governo e associações colaborativas, as quais, apesar de reduzirem o consumo, promoverem a integração da comunidade e incentivarem o pensamento de grupo, são consideradas ilegais ou irregulares.

Em um mundo onde se desenvolve cada vez mais a lei do acesso, ao invés da posse, os governos ainda buscam regulamentações antigas para ações jovens: vive-se na era das pontes enquanto regula-se através de muros.

Luana Aladim
Liga Potiguar