As crises da nossa geração

E lá vai mais um Millennial de 24 anos, no último semestre da faculdade, já querendo ter o mundo inteiro nas mãos… Ele entrou em uma cafeteria, pediu um bulletproof coffee, sem açúcar, porque precisava emagrecer, e sentou na mesa. Tirou um livro da mochila e o deixou no canto para tirar uma foto bonita. O café até esfriou um pouco enquanto mexia no Instagram. Viu uma foto de uma pessoa de sua sala que o lembrou do seu perfil no LinkedIn, o qual precisava atualizar. Depois de ter fuçado alguns perfis de pessoas que não são melhores do que ele, decidiu que precisava adicionar mais cursos extracurriculares, fazer uma pós e dar um jeito de publicar algum artigo para que seu perfil fosse bom o suficiente. Ele está se sentindo muito mal agora… Começa a pesquisar por cursos na internet e decide se matricular em três. Mas queria realmente ter se matriculado em cinco. Ele se esqueceu que já está fazendo um curso online de inglês, participando de uma organização voluntária na universidade, que é o líder do grupo de igreja, que se comprometeu em ajudar o amigo em um projeto e que entrou na academia mês passado — da qual ainda não deu conta de ir porque vive muito cansado. Cansado de passar a noite inteira pesquisando por coisas que ele deveria estar fazendo e não está.

E você? Você tirava sempre 7 em provas que a maioria tirava 8 na universidade (mas se esquece que preferia tirar 7 e conseguir sair com os seus amigos, relaxar e ser feliz, do que passar a noite inteira estudando naquelas noites). Você não terminou o curso de inglês antes de entrar na faculdade como todo mundo: deixou para fazer isso com todas as matérias difíceis e desgastantes da graduação (mas você se esqueceu que estava com um problema pessoal na época e que sua saúde mental merecia mais atenção do que um curso naquele momento). Você não tem 10 mil seguidores no Instagram, 1500 amigos no Facebook e 800 connects no LinkedIn. Você não tem 3 estágios, 4 publicações, 5 certificados e diversos cursos extra-curriculares (mas você se esquece que o que está no seu currículo e nas suas mídias não te representa pois não mostra suas reais experiências e habilidades pessoais). Entenda que você NÃO É PIOR DO QUE NINGUÉM POR CAUSA DISSO. Não é fácil deixar de querer ser muito mais do que realmente é. Não é fácil não se comparar com as pessoas de mesma faixa etária que são altamente bem-sucedidas, com mentes brilhantemente empreendedoras e um salário mensal que daria para te sustentar o ano inteiro — enquanto você está ralando para conseguir pagar o plano mais barato da sua operadora de celular. Mas é possível.

Precisamos parar de nos auto-sabotar, precisamos ter consciência de que a nossa geração nasceu naturalmente ansiosa, naturalmente competitiva. O mundo em que vivemos se desenvolve muito mais rápido do que qualquer outra geração e a expectativa que gira em torno de nós é alta, porque acreditam que nós deveríamos salvar o mundo de todo esse caos: “a geração que vai resolver todos os problemas”. Mas nós não precisamos nos submeter ao tempo do mundo — tudo isso é teórico. Por que o dia possui 24 horas, afinal? Por que a semana tem só 7 dias? E por que diabos precisamos morrer antes dos 100 anos? Quem determinou tudo isso? Na nossa vida, nós que escolhemos a velocidade que queremos seguir. Somos nós quem ditamos a regra de como queremos enxergar a nós mesmos e de como queremos gastar essas horas e esses anos. Nós temos o nosso próprio tempo. Cada um tem seu próprio ritmo e você não precisa seguir o padrão de vida considerado “normal”. Não é porque aquela pessoa já sabe falar três línguas diferentes que você precisa também. Não é porque aquela pessoa já é trainee daquela empresa que você não possa chegar lá também. Cada um tem suas próprias prioridades na vida e você precisa entender que a prioridade das pessoas não é a mesma que a sua. Talvez nem você saiba dizer qual é a sua maior prioridade, porque você está se comparando com todo mundo o tempo todo ao invés de olhar para dentro de si mesmo.

Nós, de 20 e poucos, não aprendemos, não enxergamos e não conseguimos entender que nós vivemos APENAS 20 e poucos anos até o dia de hoje. Dos quais quase dez foram apenas para conseguirmos nos desenvolver, aprender a andar, falar, escrever, ler e começar a lembrar das coisas que vivemos. Dez anos e pouco é POUCO demais para conseguir ser poliglota, gerente de multinacionais, dirigir três startups, ter 10 mil reais aplicados em ações, já ter conhecido o maior amor da sua vida e ter viajado o mundo inteiro três vezes.

Nós somos estressados demais, ansiosos demais e impacientes demais. Somos uma geração brilhante, isso somos, mas temos só que entender algumas coisas antes. Colocar na cabeça que a prioridade de nossas vidas deve ser aprender a viver em um ambiente com altíssimo fluxo de informações e ficar tranquilo se decidir não entender todas elas. Priorize as coisas da sua vida, faça planos de longo, médio e curto prazo, trace metas apenas para esses planos, não se perca o foco. Tire um tempinho livre para você sempre que precisar (acredite, isso não vai te fazer mal e você não vai ser menos inteligente se não ler aquele eBook sobre aquele assunto sensacional). Respire, medite um pouco e pare de se cobrar por promessas que fez — das quais nem sequer são realmente importantes para você. Nós temos apenas 20 e poucos anos.

Nicole Almada
Liga Potiguar