Antes, durante e agora

Lígia Camarini
Aug 24, 2017 · 5 min read

Um retrato verdadeiro da minha vida profissional

Muito embora as aulas de História conseguiam enredar minha atenção por impressionantes 60 minutos — o que era difícil para uma adolescente ansiosa — não sou muito boa com as datas da minha própria timeline. Minha memória talvez não seja de elefante, como no famoso romance de Agatha Christie “Elefantes não esquecem”. Mas têm alguns capítulos bem frescos na minha mente.

Eu devia ter uns 10 anos. Não muito mais, não muito menos. Meu avô paterno era um homem de poucas palavras, com um semblante austero, provavelmente herdado do período em que lecionava. Estava eu, falando pelos cotovelos, quando ele, que fitava como minha rede semântica pulava de pato para ganso, me falou sorridente: “Você devia fazer comunicação, jornalismo, algo nesta área. Você gosta tanto de falar”. Não foi em tom de conselho familiar, mas com um ar de consultor profissional. Não posso dizer que aquela era uma preocupação que ocupava muito espaço nas minhas reflexões. Mas, àquela declaração, nunca me fugiu à memória.

Eis um fato, que talvez não passe de um mero fato. Meus quatro avós, paternos e maternos, haviam seguido a carreira de professor. Mas foi minha avó paterna quem insistiu mais na missão de incluir em meus hobbies — depois de jogar bola na rua de terra — o prazer pela leitura e, mais, pela palavra escrita. Não posso deixar de — saudosamente — mencionar que ela divide esse crédito com meu antigo professor de literatura. Minha vó me indicava os livros — entre leituras obrigatórias para um futuro vestibular e romances que despertavam mais o meu apetite por histórias. Nada vai apagar do meu HD pessoal o gravador que ela — cheia de boas e segundas intenções — me deu. Quase como um mantra, o conteúdo gravado eram nossas inesquecíveis aulas sobre tempos verbais.

Não conto isso para insinuar que era uma aluna-modelo. Passa bem longe disso. Não suportava exatas e tinha uma atenção bem seletiva nas aulas escolares. Minha vó talvez tenha notado isso e tentou desenvolver — com todo carinho e paciência possíveis — meu lado intelectual. Professor Paulo Benício, procurava na prática, uma forma didática e prazerosa de entreter seus alunos. Vez ou outra, presenteava-nos com passeios literários — extra-intervalo — nos quatro cantos do colégio. E como bom incentivador da liberdade criativa, deixava-nos à vontade para escrever qualquer coisa que se aproximasse de uma poesia. Graças a essas aventuras escolares eu me interessei pela melodia das rimas.

Ele, um grande observador, sentiu que aquele método menos ditador, funcionou comigo. Para atear fogo nessa pequena fagulha que começava a aparecer em mim, dedicou um pouco do seu tempo lendo minhas poesias e sendo quase um mentor semântico. Lia, relia e comentava cada texto que eu escrevia. Com cuidado e generosidade, ele nunca se reduzia a elogios fantasiosos e, sempre tinha uma crítica, que embora doce e delicada, me fazia buscar uma certa evolução.

Você, que dedica seu tempo para ler este relato, deve pensar que essa é uma história contínua. Infelizmente não foi. Por obra do ciclo natural — embora não menos frustrante — da vida, “perdi” quase nos últimos suspiros de 2005, essa amorosa dupla de influenciadores.

Não quero vestir a imagem de vítima. Até porque, perpetuar e sobretudo honrar, todas as horas que estes mestres doaram à minha educação, era a forma mais positiva — e talvez correta — de reagir a este acontecimento. Poderia ter sido. Mas, pouco a pouco, sem as críticas necessárias e material para alimentar a recente fogueira, as palavras perdiam o sentido na minha vida. Fui escrevendo com uma frequência menor e uma dificuldade muito maior de desenterrar a minha narrativa interna.

E nesse ritmo entrei na faculdade de Comunicação Social — como previu meu avô paterno — com a esperança de reverter essa fase que se arrastava por alguns capítulos da minha jovem vida.

Infelizmente, somos protagonistas com poderes menos fantasiosos e eu continuei alguns anos na vida acadêmica com estranha sensação de que meu caminho ainda não estava aberto.

Como toda evolução, as mudanças foram surgindo — assim como as oportunidades — de forma sutil e difícil de ser percebida. Naquela época ainda não era míope, mas não conseguia enxergar, que mesmo que de uma forma nova para mim, eu me reaproximava daquele antigo hobby.

Foi no meu projeto de conclusão de curso, onde a escrita mais se assemelha com a exatidão da ciência, que ficou mais claro para mim. Embora tenha construído um muro de ceticismo em minha carreira profissional que mal havia começado, comecei a entender em que episódio o texto poderia dar seu “ar da graça” e limpar toda aquela névoa que pousava em meu futuro.

Meu primeiro emprego pós-formada em agência não foi como redatora. Mas ali, para surpresa geral (principalmente a minha), já tinha um propósito bem desenhado: “quero ser redatora”. Fiz um curso intensivo e ganhei alguns espaços — entre orçamentos de mídia, cobranças e afins — para desenvolver meu objetivo maior. Fui pinçando um texto aqui, outro ali e voilà — criei meu primeiro portfólio. Eu, que sempre tive pressa, me senti realizada quando em oito meses, ganhei minha primeira oportunidade como redatora publicitária. Não sei se pela minha sede ou pela chance de trabalhar com pessoas generosas e talentosas (na mesma dose), que experimentei a evolução mais rápida em minha vida. Em três meses, já podia sentir que aquela afinal poderia ser uma boa escolha.

Mas para que servem os percursos felizes se não encontrarmos umas pedras estratégicas em nosso caminho? Após somar quatro anos em agências diferentes, aquele sintoma vazio, aquele oco sufocante, como nas histórias fantasmagóricas que adorava, voltou a me perturbar. “Não é isso”. “Ainda não é isso”. Mas, para a minha sorte, eu já sabia o que era. Faltava só eu admitir. Faltava só eu falar em voz alta. Enquanto ocupava o cargo de redatora na terceira agência do meu currículo, por motivos que honestamente tinham um fundo financeiro, abri uma empresa de marketing digital na área da saúde, que além do incremento na renda, sempre foi um dos meus temas preferidos. Foram quase dois anos até eu compreender, que duas profissões não ocupam o mesmo lugar no mesmo espaço e que minha jornada diária estava ficando impossível.

Antes que me creditem um papel desonesto de dividir meu cérebro em dois trabalhos, eu sempre deixava claro desde a primeira entrevista que tinha uma empresa “paralela”. Então, é fácil compreender que eu não podia pegar muitas contas e que só depois das 18h eu virava empresária. Era minha forma de demonstrar fidelidade corporativa. Não largo minha empresa, mas prometo que a maior parte dos meus neurônios irão para a contratante.

Minha sincera admiração àqueles que conseguem se dedicar inteiramente em dois cargos profissionais. Mas cheguei a uma bifurcação e tive que fazer minha escolha.

Não foi do dia pra noite, ainda que ansiosa, hoje consigo ponderar mais minhas decisões. Quando todos os prós e contras já estavam bem descritos, devo confessar que me faltou peito. Me veio àquela famosa condicional “E se…?”.

Hoje, sem “dupla identidade”, estou prestes a completar um ano (exclusivamente) como empresária. O processo é contínuo e não serei pretensiosa ao ponto de dizer “cheguei lá”, mas a cada passo que dou nesta direção, tenho uma estranha e inédita certeza, de que posso e que, principalmente quero, manter meus pés bem firmes neste rumo.

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