sopro da infância

era verão
aquela sensação sem ontem nem amanhã
o corpinho barrigudo boiado no mar
braços largos na espuma brilhante
como um sonho de sal
os cabelos desenhando tentáculos
a língua leve como um molusco
os dentes esquecidos na boca como pérolas
no fundo imenso do oceano
no dia seguinte não tinha prova de matemática
os números e todas as coisas duras se dissolviam
os olhos soltos no céu
que viam e sorviam azul
como se aquele instante não fosse nada
como se nada fosse uma sutil forma de existência