Onde os fracos não têm vez

Ser tropicaliente não é pra qualquer um. Tem que ter o gingado da multifuncionalidade e não ser um sonhador, se não morre de vontade.
Ser da terra dessa lorota de ordem e de progresso é morrer estatelado, mutilado, recheado de chumbo, sem cabelo ou sem um pé. É trocar o s por z, é dizer que dois mais dois são seis. É enfrentar cinco anos de universidade e trabalhar na lojinha do centro ou é nem ter a oportunidade desse enfrentamento e mesmo assim trabalhar na lojinha do centro. É fazer tudo e dar no mesmo e ter quem queira que se pense assim.
Se for mulher ou desce a saia, ou não volta pra casa depois das dez. Não importa se é branca, se é preta, se é jovem, ou se é velha. Pra cá elas são luta, pra lá elas são putas.
Aqui é assim, se enfrenta o tapa a distância; e pra mostrar o ódio se engatilha e aponta a caixa alta. Quem dá o corpo e a cara na batalha, morre; e isso ninguém quer.
Um dia me perguntaram o que é ser esse tal de sangue quente e eu disse que é ‘ter a oportunidade, mas não se corromper’. Frase feita. Balela. Coitada. Deixa assim. Pra ser daqui tem que esconder o abrasileiramento diferenciado. Tem que sambar nos vigilantes dos criminosos intelectuais, tem que largar essa coisa de Marx e ficar pianinho. Tem que se fingir de morto e viver na espreita.
