A saudade

e como a gente vai aprendendo a lidar com ela.

Gosto muito de música. Gosto muito de cozinhar. Consequentemente, gosto muito de cozinhar ouvindo música. Estava uma manhã um tanto quanto agradável. Minha mãe estava em casa e juntas, fazíamos os ovos de páscoa que tinham que ser entregues naquela semana.

Estava tudo bem, tudo agradável. Meu celular, num trambique bem ordinário, tocava música dentro de uma vasilha redonda que aumentava o som, já que a minha caixa de som externa tinha quebrado. Não lembro a música que tocava antes, mas ela acabou e começou O Xote das Meninas, uma música maravilhosa de Luiz Gonzaga.

Luiz Gonzaga do Nascimento, compositor e cantor brasileiro.

Fui contagiada pelo ritmo, comecei a dançar pela cozinha. Abracei minha mãe, com meu corpo ainda dedicado ao ritmo que ouvia, mas tinha algo errado. Ela estava parada e um ar pesado dominava o seu espírito. Assim, do nada.

Perguntei “Tá tudo bem?”. Ela disse que a música era muito boa mas chegava a dar um aperto no coração. Perguntei porquê. Não saía uma palavra de sua boca. Mas seus olhos não resistiram e me fofocaram a mensagem. Sutilmente, perguntei: “o Vô gostava?” — ela acenou que sim com a cabeça.

Fazia quase um mês que ele tinha ido embora desse mundo. Era recente, era doído. Só consegui abraçá-la e dizer “Tá tudo bem mãe. Tudo bem chorar, tudo bem sentir saudade. Ele se foi mas a saudade e as memórias ficam. E a gente vai aprendendo a lidar com ela.”

Fui trabalhar mais tarde e fiquei com esse episódio na cabeça. Hoje, semanas depois, ele ainda está aqui. E lembrei de outras pessoas, também muito queridas, que se foram. Me lembrei de uma viagem solo, onde descobri uma paixão por montanhas. Lembrei também o porque de gostar tanto das montanhas: elas me dão a impressão de que quanto mais perto do céu, mais perto fico daqueles que não estão mais aqui.

Um amigo querido que se foi cedo demais, amigos da família, conhecidos. Meu avô paterno e agora, mais recentemente, o avô materno. É na natureza que minha mente encontra paz e o meu coração tranquilidade. É nela que acho conforto quando o medo de esquecer essas pessoas, enquanto o tempo passa, me domina.

Percebo agora que, na verdade, as memórias é que são o meu refúgio. Quando estou na natureza, elas só se potencializam. E é nela que vou manter vivo aqueles que se foram.

O álbum Luiz Gonzaga Canta Seus Sucessos com Zé Dantas chega ao fim agora. Tá doído, tá recente. E tá tudo bem.

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