Ansiedade

Quatro anos atrás, aos 29 anos, entrei num pronto-socorro achando que estava enfartando. Minha pressão estava alta, meu peito doía, os batimentos cardíacos estavam acelerados e a respiração curta. Na primeira avaliação, ganhei uma pulseirinha vermelha e um enfermeiro veio me buscar com uma cadeira de rodas para fazer exames. Todos normais. Eu não tinha nada.

Foi minha primeira crise de ansiedade. A primeira de muitas, mas que não recebeu a atenção necessária no momento. Passei uns dias tomando remédio para dormir, continuei achando que o stress era normal na vida que eu levava e não procurei tratamento. Nos anos seguintes, tive outras crises, não tão fortes, e nunca mais fui ao médico.

Chegou 2016. No início de março, dentro do ônibus, começou uma gritaria. Era papo de impeachment, gente batendo panela na rua, gente gritando pela janela, gente forçando a porta do ônibus… em dois minutos, eu pingava de suor. Pânico. Queria sair dali, mas não conseguia. Queria gritar, mas não conseguia. Queria fazer qualquer coisa, mas o medo me paralisou. Um medo irracional, desproporcional, que caiu em cima de mim do nada. Cheguei em casa exausta, querendo chorar sem motivo, ainda com a sensação estranha de que algo ruim poderia acontecer a qualquer momento.

Assim foi o ano. Foram algumas dessas no trabalho, em casa, em festa e até no banho. A última delas foi em outubro. Sozinha, na rua. Essa deu medo, mesmo depois que passou, porque não reconheço a pessoa que estava no meu corpo ali. Era como se uma gota d’água tivesse provocado um tsunami. Eu precisava levar a terapia a sério. Precisava encarar o tratamento e não aproveitar a hora agradável de toda semana para bater papo com alguém que me ouvia.

Além de remédio, há muitas coisas que auxiliam na redução da ansiedade. Parece até piada quando a terapeuta te diz “respira”, mas muito do controle está nisso. Respira. Ouve a respiração. Respira. Sente os dedos do pé. Respira. Sente os dedos das mãos. Respira. Ouve os barulhos ao redor. Respira. Perceba os cheiros. Respira. Engula a saliva. Respira.

Ter um caderno, como um diário, também ajuda muito. No começo, você anota quando percebe que a coisa está desandando. Anota o que sentiu, o que provocou a sensação e respostas objetivas para aquele medo. “Nada de ruim pode acontecer aqui", “o pior que pode acontecer neste momento é”, “se precisar sair daqui o caminho é”. Coisas simples, retorno imediato. Quando você começa a conversar com você mesmo sobre aqueles medos, algumas respostas aparecem.

A última dica que recebi e apliquei é o uso de cartões, como os de visita, com frases específicas. “Respire quando sentir que está ofegante”, “se estiver falando em público e errar alguma informação, peça desculpas e continue”, “você não está sozinho”, “respeite as suas necessidades"… qualquer coisa que faça sentido para você, que converse com aquilo que provoca a ansiedade. Espalhe esses cartões por todo lado e leia sempre. Parece ridículo, eu sei, mas garanto que faz alguma diferença.

Mesmo em dias sem crises fortes, a ansiedade bate em pequenas coisas. Na conversa com alguém que te constrange, em uma chamada de atenção do chefe, em uma cantada na rua, uma discussão no Facebook ou um sonho realista demais. Sempre (SEMPRE!) comece esses procedimentos de controle quando a coisa ainda estiver no início. Tenho conseguido evitar grandes crises assim, percebendo quando elas estão chegando e botando a coisa toda em prática.

Já me disseram que isso não tem cura e que, por toda a vida, os problemas e as situações novas que forem chegando podem provocar novas crises. Entendo, mas não pretendo deixar que elas me controlem. Enquanto respirar, vou respirando.